Uma visita

por João Miguel Henriques

Chega a tia de visita, para uns dias, a cumprir zelosamente os familiares deveres do consolo. É uma coisa mais delas, acho. Não se trata propriamente, ou pelo menos não apenas, de conversar para animar a malta com palavras de ternura e optimismo. A estadia envolve além disso a realização dedicada de todo um conjunto de tarefas domésticas com o intuito de assim aliviar a carga laboral quotidiana. Por conseguinte, a tia cozinha profusamente, impregnando as divisões da casa com intensos aromas de aldeia, com especial destaque para a banha e a paprika. A tia também acorda muito mais cedo que nós e quando nos levantamos já o cão está alimentado e passeado. Limpar não limpa, não lhe apetece, avisou logo ao telefone antes da visita, embora ao segundo dia lá acabe por passar os aspirador por um ou dois lugares mais necessitados. A sua presença é ao mesmo tempo aparatosa e reconfortante. Se por uma lado nos obriga permanentemente a reagir às suas observações e perguntas, formuladas a seu bel-prazer sem o mínimo respeito pelos momentos mais introspectivos, por outro lado é a tia a nossa grande e maternal ligação ao mundo, lembrando-nos bem a propósito que a vida é essencialmente mais ou menos isto de andar por aqui ao sabor de venturas e desventuras de razões imperscrutáveis. Abro o armário da cozinha e vejo que a tia arrumou a loiça toda ao contrário, que está tudo num sítio diferente. E agradeço-lhe em segredo, pois é isso mesmo que eu agora procuro e necessito: tudo ao contrário, tudo diferente.

Só que há coisas que nunca mudam realmente, como sabemos. Há grandes fenómenos e movimentos que permanecem mais ou menos inalterados ao longo de décadas, de séculos. Tomemos como exemplo a tia e a sua viagem de uma pequena localidade oriental para a grande urbe pecaminosa. Anuncia-nos que parte às cinco da manhã, que vem de boleia com uma família de vizinhos, e aí percebo que nada mudou nos últimos cem anos: uma viagem encetada à primeira luz do dia, aproveitando uma boleia que hoje é de automóvel e antigamente de carroça, única diferença num hábito de viagem em tudo o mais semelhante. E chega a tia a nossa casa com um galo depenado na bagagem, daqueles bons e caseiros a pedir um caldo de fazer inveja a jacinto e zé fernandes. E traz também uns quantos folhados aptos a consolar os espíritos mais abatidos. Contam-me que a rápida urbanização da capital durante o socialismo do pós-guerra não foi naturalmente acompanhada, nem nunca poderia ter sido, por igual mudança nos costumes de grande parte da população húngara, ainda profundamente rural. Extraordinário exemplo disso eram as matanças do porco organizadas nas exíguas varandas dos novos blocos de apartamentos, actos de resistência rural perante a imposição de novos rituais de trabalho e socialização, já menos regidos pelo nascer e pôr do sol do pelo toque de turno na fábrica ou pelo horário do autocarro.

Chega a tia de visita por uns dias, a lembrar-nos de antigos costumes que permanecem, como por exemplo o de seguir com a vida, adaptar-se às circunstâncias e esperar do futuro dias melhores

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