Uma História de Traição

por Garry Craig Powell

Há trinta anos, quase até ao dia, cheguei em Tomar, para começar um emprego como professor de inglês no Instituto de Línguas lá. Acompanhando-me, havia a minha mulher da altura, uma ribatejana, e o nosso filho James, que nascera só dois meses antes em Inglaterra. O centro histórico da cidade era lindo, mas por falta de meios financeiros, não foi possível arrendar um apartamento para nós só, e acabámos por viver num apartamento numa estrada com trânsito pesado, que partilhamos com um jovem jogador de futebol no União de Tomar, um dom Juan com muito charme que às vezes conseguia meter duas mulheres diferentes na cama no mesmo dia – sempre com música ensurdecedora a tocar – e o treinador do mesmo clube, um brasileiro que em tempos fora um jogador famoso, mas já era um bebâdo perdido. Nenhum deles sabia usar o autoclismo na única casa de banho. Além disso, o James chorava muito com dores de cólica, e talvez porque detestava a ‘música’ também e não dormia o suficiente, e a minha mulher era tão ansiosa, que não conseguia fazer nada, se não confortar o bébé. Por isso, eu tinha de fazer as compras todas, e cozinhar, além de dar aulas, claro.

Não era o princípio ideal para um vida familiar. Todos os dias eu corria no parque enorme e esplêndido, mas além disso não desfrutava da beleza da cidade. Nem sequer visitámos o Convento de Cristo, porque não tínhamos dinheiro nenhum, e também porque não interessava à minha mulher. No entanto, recentemente, acho que foi em 2016, quando preparava voltar a Portugal, com outra mulher doutro país, afinal visitei o conjunto do castelo e o convento, e fiquei espantado com a sua grandeza e beleza. Os monges-militantes da ordem dos Templários que fundaram o convento, e que continuaram sob a nova Ordem de Cristo, fundado por D. Dinis em 1319 depois da abolição dos Templários pelo Papa, e a tortura e matança da maior parte dos monges pelo rei francês, D. Philippe, por razões falsas – acusara a ordem de heresia, mas a verdade era que deviam-lhes muito dinheiro, e viu uma oportunidade de agarrar as suas vastas riquezas – aqueles monges tinham gosto. Criaram um monumento ao nível dos mais lindos de Europa. Costuma-se tirar fotografias da entrada e da janela Manuelina, que certamente são impressionantes, mas igualmente lindas são as pinturas góticas na igreja rotunda (que inspirava-se na Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém, supostamente), e os claustros, para não falar no castelo imponente.

O fim dos Templários é uma história de traição, da desonestidade do rei de França e da igreja católica, da venalidade, e de ingratidão. Os Templários serviram corajosamente nas guerras contra os muçulmanos na Palestina, e com muita inteligência como os primeiros bancários de Europa. Lembro-me disso tudo se calhar porque eu também fui traído, e pela mesma mulher que acompanhou-me ao convento nesse dia, uma traidora súbtil e fingida, que dizia-me sempre que me amava e ficaria comigo sempre, mas que, no fim, como aquele rei miserável e cobarde, só cobiçava a minha propriedade, pelos vistos. A diferença é que ela não conseguiu torturar-me, nem matar-me. E até agora, ela não conseguiu roubar-me tampouco.

Graças ao rei trovador, o D. Dinis, a ordem sobreviveu, sob outro nome, e floresceu, fazendo um grande contributo aos descobrimentos portugueses, esse épico cantado por Camões. Se calhar eu não tenho hipótese de emular a história gloriosa dos monges da Ordem de Cristo, nem de estar patrocinado por nenhum rei – mas eu também sobreviverei, e florescerei, e quem sabe? Talvez venha a descobrir novos continentes literários. A traidora não me venceu.

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