Uma casa para os tradutores (com beijos dentro)

por João Miguel Henriques

Existe na bonita vila de Balatonfüred, nas margens do lago que é para os húngaros o seu mar de orgulho e recreio, uma casa que acolhe em permanência tradutores de todos os cantos do mundo, dedicados a dar a conhecer nos seus países a literatura húngara. Trata-se da Casa Húngara do Tradutor, antiga propriedade do escritor Gábor Lipták e actualmente administrada por uma fundação, que assim pretende estimular a tradução de autores húngaros, proporcionando aos tradutores um ambiente de tranquilidade e inspiração, essenciais para o seu árduo trabalho.

Durante alguns anos, ainda na qualidade de Leitor de Português da Universidade de Szeged, tive a sorte de aí deslocar-me todas as Primaveras, na companhia de colegas leitores de Espanhol, Catalão, Basco e Italiano, para um intenso fim-de-semana de tradução na companhia dos nossos alunos. A logística da casa nunca era fácil e as jornadas de trabalho, cada idioma no seu canto da residência, nunca começava à hora planeada. Lembro-me dos longos e caóticos jantares e dos ainda mais longos debates sobre o sentido de uma frase, sobre as complexas implicações de determinada palavra, naquele preciso lugar do texto. O húngaro presta-se muito a ambiguidades e subtilezas de  tom, o que tornava essas traduções um desafio ainda maior. Penso que foi nessas ocasiões, nesse famoso seminário multilingue de tradução, que pela primeira vez me apercebi de que muitas vezes os próprios húngaros não se entendem totalmente uns aos outros, e o sentido de uma frase magiar nem sempre é imediata e claramente intelígível por um húngaro nativo.

E recordo naturalmente e acima de tudo os autores traduzidos, acima de tudo poetas, pois acreditávamos (nem sempre com razão) prestar-se melhor a forma condensada de um poema aos poucos dias de trabalho que tínhamos disponíveis. László Nagy, György Petri, o enigmático István Bella (quanto trabalho nos deste!) e também o mais clássico Gyula Juhász, ao que se juntou noutros anos a elegante crueza narrativa de Géza Csáth, passagens do bonito Por de Temesi Ferenc e até um ou outro conto tradicional húngaro.  E também em certo ano excertos da prosa de László Darvasi, autor de um livro de 1992 intitulado A Portugálok (Os Portugueses), que naturalmente sempre me intrigou, tendo porém jamais conseguido encontrar em livraria ou alfarrabista. Ainda assim pudemos traduzir, de outro livro seu, um fragmento com o título „História do beijo”, que diz mais ou menos assim:

É sabido que a beijar os portugueses são os melhores. O beijo espanhol e italiano é bastante brincalhão. A língua dos ingleses, alemães e holandeses é fria e pesada, e a dos suecos, noruegueses e finlandeses é fria e ágil. Os dinamarqueses são sonolentos. Os irlandeses e os suíços raramente dão beijos. Os checos são babosos, mas perseverantes. Os polacos não gostam de fechar os olhos. Os romenos são passionais e os gregos cansam-se facilmente. Com os russos, as mãos vegueiam lá por baixo. E os húngaros até os dentes utilizam…

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