Uma casa no lago

por João Miguel Henriques

Na expectativa de encontrar a região do lago coberta já de cores primaveris, pouco ou quase nada resisti à sua proposta de nos refugiarmos uma semaninha numa casa  que ela nos tinha encontrado, delicadamente plantada sobre uma encosta de vinhedos e muros de pedra. Como tanta coisa na vida, também lá não nos esperava exatamente o que buscávamos, e esses dias de harmonioso retiro foram mais de caldeira acesa em casa e vento gelado lá fora, do que propriamente de banhos de sol num jardim de cerejeiras floridas. Ainda assim, há coisas que permanecem as mesmas desde a primeira vez em que pus os olhos no maior lago da Europa Central. A margem norte continua mais bonita que o sul mais plano e ruidoso. E também ao caminhar por entre as colinas de vinha, imaginando-as no pleno vigor do sol de Agosto, paira no ar um qualquer ambiente de solo pátrio, a fazer lembrar até, junto às elevações de vulcões extintos, a paisagem mística do Pico. É bom vir aqui antes da bárbara massa de turistas, por enquanto apenas sugeridos pela desenfreada publicidade a ladear as estradas principais.

Sempre gostámos desta vida de silêncio e sossego. Caprichos de quem vive na cidade, a invejar a província sem lhe conhecer os problemas e dificuldades. Subimos todas as montanhas, a entrever veados e recolher do chão pedra vulcânica como recordação de uma estadia noutro planeta. Ruínas de castelos, castelos em ruína, anacrónicos, obsoletos, não mais que miradouros ou objetivos finais de longas caminhadas. Ao fim da tarde deixamos no jardim quartos de maçã, numa esperança de visitantes selvagens, e no último dia percebemos que afinal foi sempre a cadela dos vizinhos que nos andou a semana toda a devorar as oferendas. Invejamos os animais, na sua ignorância de passados ou futuros, traumas ou ansiedades, entregues apenas aos instintos do presente. Ela entra em casa e anuncia-me ter visto uma lebre, enquanto eu diligentemente procuro reanimar uma kalyha generosa. Estamos na casa do lago, debaixo da montanha, com o lago ao fundo, longe da cidade. Acordo a meio da noite com o vento e fico a contemplar um incêndio no horizonte, o que nos inspira a empreender um bogrács no dia seguinte. Reencontramos no céu as estrelas que a grande cidade afugentou. Na manhã da despedida, já algumas árvores anunciam a nova estação, acredite quem quiser. No seu canto de beleza e desespero, os pássaros apelam à procriação das espécies. A caminho de casa paramos ainda num mercado local, mais hipster que provinciano, a comprar cenouras da terra e ovos de galinhas felizes. Estamos recarregados, de regresso para afrontar a décima ou centésima onda dos tantos vírus que nos rodeiam.

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