Um passeio português por Budapeste

por João Miguel Henriques

Pensei no outro dia que uma visita à exposição de fotografia de Maria do Mar Rêgo e Lilla Szász, da qual demos conta aqui na última semana, podia ser perfeitamente complementada por uma passagem por outros lugares de arte portuguesa em Budapeste. Imaginei uma tarde a começar no bairro VII, no Kőleves Kert de Kazinczy utca, onde em 2015 o português Pedro Campiche, conhecido nos meios da arte urbana como Aka Corleone, pintou um enorme e colorido mural, a convite do Instituto Camões e do festival Színes Város (Cidade Colorida). Trata-se de uma impactante interpretação pictórica do conto tradicional húngaro “Holló Jankó” (“Janko Corvo”), tendo-se tornado uma presença perpétua da arte urbana portuguesa na paisagem pública de Budapeste. Perpétua até ver, claro, pois em tempos de constantes mudanças urbanas nunca se sabe até quando esse bonito mural sobreviverá a outros projectos ou interesses.

O passeio continuaria com uma paragem inevitável na pastelaria e padaria Lisboa (publicidades à parte), para um café e um pastel de nata (ou qualquer outra especialidade da pastelaria nacional, pois há até quem ache imensa graça ao pão de Deus). Tomando ali a Király utca para baixo, em direção ao Danúbio, a paragem seguinte seria inevitavelmente a estação de metro de Deák tér, no interior da qual encontramos o magnífico painel de azulejos do artista português João Vieira, oferta do Metropolitano de Lisboa (informa-nos a placa comemorativa), por ocasião dos 1100 da fundação do Estado Húngaro. O painel é de difícil decifração, mas sabemos, graças a trabalhos interpretativos já realizados e publicados, conter dez poemas de seis poetas diferentes:  três portugueses (Camões, Álvaro de Campos e Cesário Verde) e três húngaros (Petőfi, Endre Ady e Attila Jószef). Caso se pretenda algo mais que fruição estética, o que já seria mais que suficiente para justificar a visita, aconselha-se ao interessado uma pesquisa googliana pelos „segredos dos azulejos da Praça Deák”, de forma a poder descodificar letras, palavras e versos dos poetas compilados nesse sumptuoso painel.

E já que o rio está mesmo ali e as vistas sobre Buda merecem contemplação regular, valerá também a pena conhecer a placa evocativa do Embaixador Sampaio Garrido e do Encarregado de Negócios Carlos Branquinho, diplomatas portugueses em Budapeste durante a Segunda Guerra Mundial, cuja intervenção em 1944 logrou salvar a vida de mais de mil judeus húngaros. A placa foi colocada em 1998, aquando de uma visita a Budapeste de António Guterres, então Primeiro-Ministro, no local na antiga Embaixada de Portugal (na área atualmente ocupada pelo Hotel InterContinental).

Caminhe-se agora um pouco ao longo do rio, à luz baça deste Novembro cada vez mais frio, na direção da Ponte da Liberdade, para uma visita à tal exposição de fotografia intitulada „Do Amor” („A szerelemről / About Love”), em Raday utca. Liberdade, amor, a fazer lembrar os célebres versos de Petőfi. Pois muitas vezes a grande arte não parece falar de outra coisa.

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