Um dia na praia

por Luís Serpa

Consegui o prodígio de ficar com as duas canetas vazias. Prodígio é ironia, claro. Acontece frequentemente. Acresce que não estão vazias, estão só quase vazias. Ainda dão para escrever o princípio desta crónica, no «individual» (?) de papel branquinho como se fosse o verso de qualquer coisa. É o verso do menu. Os restaurantes não podem levar menus à mesa e suponho que isto seja uma forma de iludir a norma. Espero que sim. Fui à casa de banho lavar uma das canetas e fiquei com os dedos todos borrados. Escrever com canetas de tinta permanente é um duplo prazer: escrevo melhor do que com esferográficas e penso no menino Nicolas, que me fazia chorara de rir quando era puto. Há todo um capítulo dedicado às canetas de tinta permanente mas eu só me lembro dos pontos principais, um dos quais era justamente o orgulho nos dedos todos sujos. Não tiro particular orgulho nisso – efeito da idade, sem dúvida, mas lembro-me com prazer do Nicolas. Na verdade não tiro sentimento nenhum. Nada. Zero. É a simples constatação de um facto, passe o galicismo (ao fim destes anos todos já devia ter direito à cidadania plena. Não há por aí um partido de meninos amigos dos estrangeirismos disposto a dar uma vista de olhos a isto?) Uma vez tive uma caneta que se sujava toda no avião, a depressão da cabine fazia-a abandonar-se. Quando chegava a terra já sabia que a primeira coisa a fazer era lavá-la. Mas essa perdeu-se, também. Perco-as todas, com uma regularidade assustadora. Vá lá que estas duas se têm mantido comigo. A que mais lamento foi uma Parker que fico no fundo de Falmouth Bay, em Antiga. Era do meu Pai. Ainda penso nela muitas vezes, da estupidez que me levou a perdê-la. Enfim. Como dizem os franceses: passons.

Escrevo estas linhas na cala Estellencs, uma das minhas favoritas na Tramuntana, se bem escolher uma favorita nesta serra deva ser tão difícil como para um júri de misses escolher a mais bonita. Gosto desta porque é pequena, no chiringuito não se come mal, é linda (todas são) e sobretudo porque me enche de paz. É como ir a uma estação de serviço pôr gasóleo no carro mas em vez de combustível tem-se paz. Fiz algumas fotografias, a ver se passam a rampa. Já não vinha para estas bandas há muito tempo, não sei sequer se no ano passado aqui vim. («Aqui» sendo a Tramuntana, não especificamente Estellencs.) No carro vinha a pensar no que diria se alguém me perguntasse «Quais os cinco lugares mais bonitos que conheces?»

– Açores – responderia –, a cadeia montanhosa do Jura, a metade norte do lago Tanganyika e a Tramuntana –, deixando o quinto lugar aberto para qualquer sítio que ainda venha a conhecer. Só espero é que não me peçam para pôr ordem nisto ou me perguntem porquê: dos quatro, três são montanhas recentes e um (o Jura) é senhora velha e com os agrestes resolvidos. Suponho que tem a ver com a paz, de que Estellencs é um epítome. O epítome por excelência, acrescento, sabendo perfeitamente que digo isto agora porque não estou em Sa Calobra, Deiá ou outra cala qualquer desta costa. Se estivesse, o epítome seria outro.  Toda a Tramuntana, de Sant Elm a Formentor é fonte de paz e beleza, ponto. Deixemo-nos de epítomes.

Estou com o corpo às bandas porque não apanho sol por inteiro. Até nos pés tenho a marca dos sapatos. Não estou no meu elemento e a pele vinga-se, fica como a de uma zebra. Não penso muitas vezes no lado estético da minha profissão. Quando vivia sem Verões nem Invernos a cor não era propriamente um tema de reflexão: tinha uma banda clara na cintura e era tudo. Servia para me lembrar de quão pálido sou, sem trabalho. Agora trabalho (isto é um eufemismo) e mesmo assim estou às bandas, como a passagem de peões dos Beatles. Só que em vez de serem músicos a passarem-me por cima é o mundo todo. Enfim, a parte do mundo que trata do PANDA, vá.

Raio do bote parece um percurso hípico (evito o «épico», seria fácil de mais). Ontem perguntava-me se os cavalos também acreditam a cada salto que será o último e depois aparece-lhes sempre mais um e – perguntava-me eu – que pensa o cavalo a cada obstáculo inesperado (para ele) que lhe aparece à frente? Uma coisa não faz: revoltar-se e deitar abaixo o cavaleiro. Na volta escava-se o tema e descobre-se que no fundo no fundo o cavalo até gosta. Deve extrair um prazer perverso naquilo, como os ciclistas que sobem às montanhas ou os marinheiros que vão ao cabo Horn. Espera: eu quero ir ao cabo Horn. Vamos falar de outra coisa?

Vamos. Por exemplo, da diferença entre ter vontade e precisar. Querer e precisar. Tenho vontade de voltar aqui? Não exactamente. Preciso, o que é muito diferente, Como preciso de muitas outras coisas: comer, beber, pensar na minha R., flor do mundo, navegar na Patagónia (e de caminho no Horn). E assim em diante, sem fim. Como os obstáculos no PANDA. Raio do bote existe para me pôr à prova, para me testar, para ver como sou nas margens.

Vamos falar de outra coisa? Vamos. A tarde avança, a cala esvazia-se, o vento cai, o rum dura cada vez mais tempo no copo. Volto à água. É uma pena estar aqui e não gostar de nadar. A temperatura da água está no limite do aceitável, de modo a estadia é breve. Cinquenta metros para um lado, cinquenta para o outro, lembrar-me de esticar as pernas, não levantar demais a cabeça (crawl), alternar as pernadas com as braçadas (bruços), pôr-me a boiar de costas e tentar não me lembrar o calvário que eram as aulas de natação, pensar na sorte que é ver bem sem óculos, pensar que vou ter de subir isto tudo a pé – a próxima vez vou a Sa Foradada, se é para andar uma hora a pé… Resumindo: receita para fazer uma paz – passar uma tarde a escrever em Cala Estellencs. Tudo o resto é acessório. E Sa Foradada só vale a pena de barco.

No regresso trouxe uma miúda. Estava na estrada para a praia, perguntou-me o caminho, explicou-me que tinha a camioneta para Palma dali a oito minutos. Já de si a pergunta era estranha: o caminho desce para a cala e sobe para a aldeia. Não há muito por onde se enganar. Disse-lhe isso mesmo: bastava subir; e que em oito minutos não estaria lá em cima nem a correr. Disse-me que não, que tinha ido ter a uma casa privada, o que também não é de estranhar: não há casas públicas por ali e desatou a correr. Apanhei-a um pouco acima, sentada. «Perdi a camioneta», explicou-me. Retorqui-lhe que se quisesse a levava, ia para Palma e aqui começou um dos episódios mais estranhos dos últimos tempos. A rapariga estava transida de medo e eu cansado de mais para lho aliviar. A certa altura pergunta-me «se és de Palma, o que estás aqui a fazer?»

– O que é que tu tens a ver com a minha vida?

Pouco depois:

– Falas muito bem inglês. Onde aprendeste?

Isto, ainda não chegáramos ao carro. Respondi-lhe uma vez mais que não eram contas do seu rosário. A minha Mãe nasceu em 1930 e fez a Europa toda à boleia. Eu nasci em 1957 e fiz metade da Europa à boleia. Esta idiota estava com medo de ir de Estellencs até Palma. Foi a viagem toda transida de terror. À chegada a Palma enganei-me numa saída da auto-estrada, tive de voltar atrás e a rapariga ainda me chateou, pensou que estava a raptá-la, suponho. Não abrira a boca durante a viagem, excepto para me dizer que sim, continuava comigo até Palma, quando passámos pela camioneta e lhe perguntei se queria continuar ou apanhá-la. Explicou-me que com o carro seria mais rápido. Deixei-a à frente do Bar Cuba. Parecia uma imagem da estupidez, coitada. Nem o nome me disse. Fez-me pensar numa namorada que tive, há muitos anos, bastante mais nova do que eu. Também nunca andara à boleia. Consegui convencê-la a vir do porto de Soller até cá acima, mas depois ninguém nos deu boleia e tivemos de regressar de autocarro, para grande alívio da miúda. Mas essa era tudo menos estúpida. Não tinha era a idade que os documentos mencionavam. Um dia disse-lhe «T., vamos fazer um pacto: eu ensino-te a ter vinte e quatro anos e tu ensinas-me a ter cinquenta e quatro, pode ser?» Não. Um ano depois deixou-me e arranjou outro professor. Ou aluno, sei lá.

(Isto tudo dito: hoje volto à praia, mas vou a Deià, onde a Sand e o Chopin passaram uns meses. Ainda não li o relato que a senhora escreveu da estadia, mas espero encontrá-lo rapidamente. Se tiver sido traduzido, chama-se «Um Inverno em Maiorca». Se não, «A Winter in Mallorca». Um dos micro-erros que fiz foi tê-lo enviado para Portugal sem o ter lido.)

 

 

Luís Serpa, Palma, 27/06/2021

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