Um Desafio – Encontro de Vida

por LMn

Por Carlos A.L. Mendes e Dóra Hathazi Mendes

Eu, com alguma experiência internacional, ganha na infância por via da emigração dos meus pais para Angola em 1969, com posterior regresso a Portugal em 1975, um ano após a revolução dos cravos, na qualidade de retornados. Terá talvez criado as bases de alguma inquietação pessoal e assim da necessidade de mudança, a qual terá propiciado a minha fácil disponibilidade para uma carreira profissional internacional.

Pelo que, foi com alguma naturalidade que já formado em engenharia civil pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa e com experiência acumulada na gestão de projetos de engenharia, aceitei o desafio que me foi proposto pelo maior grupo empresarial português de concessões e construção, no qual ingressei, para abraçar novo regresse a Angola em 1999, agora como profissional, périplo esse que viria a terminar em 2002 após ter recebido novo desafio agora para os mercados da europa central.

Pelo que em janeiro de 2003 romei à Hungria, para assumir a coordenação e gestão das operações do grupo empresarial que representava na Hungria como diretor de país, na área da construção civil e obras públicas. Pouco sabia sobre a Hungria e sobre o povo húngaro, apenas que tinha estado sujeito ao jugo soviético e como referência uma ou outra personalidade que pela comunicação mediática tinha retido, mas de facto aceitei o desafio!

 

Mas, foi essa minha decisão de ir para a Hungria em 2003, que resultou no encontro da minha vida. Hoje e mais que nunca, em resultado desse encontro, sinto-me muito mais preenchido e realizado, e assim mais rico, tenho uma esposa Húngara, dois filhos luso-húngaros para além de uma filha portuguesa. Assim uma fantástica família luso-húngara.

Após esse encontro não nos fixamos na Hungria, continuamos para outras latitudes e longitudes, onde a minha esposa com incondicional suporte â minha atividade profissional, foi criando o lar que me faltava e que a condição de expatriado nem sempre permite.

Em meados de 2005 fixámo-nos na Roménia, Bucareste, tendo eu exercido as funções profissionais de diretor de país e assumido a direção de geral das atividades empresariais do grupo que representava, tendo exercido ainda a função executiva de secretário-geral da Câmara do Comercial e Indústria Bilateral Roménia-Portugal, onde vivemos cinco anos e onde viria a nascer o meu segundo filho em meados de 2009.

Face à instabilidade dos mercados pós 2008, foi repensada pelo grupo a estratégia para o mercado da Roménia tendo eu sido solicitado para novo projeto: consolidação da empresa imobiliária do grupo para a europa central sediada na Polónia. Assim, em março 2010 fixamo-nos na Polónia em Varsóvia, onde realizei a gestão operacional das atividades imobiliárias que o grupo empresarial detinha em cinco países da Europa Central (Hungria, Roménia, Polónia, República Checa e Eslováquia).

Em janeiro de 2013, e agora já com família, regressei novamente a África, e ao seu coração quente, Malawi, com base em Lilongwe e Monkey-bay (estaleiro naval), na qualidade de diretor geral responsável pelas concessões navais – Logísticas (portos) e de transportes  (Pessoas e mercadorias), que o grupo empresarial que representei detém no lago Malawi/Niassa.

Mas, com esse encontro de 2003, fiquei muito mais rico também por ter a oportunidade de partilhar outra cultura que não só a minha, com os seus saberes, com os seus sabores, com a suas língua e sons linguísticos e assim a riqueza de um pais que não é o meu mas que partilha comigo a sua riqueza no dia a dia, através da minha esposa, rica em pormenores e rigorosa no trato dos afetos e da importância familiar, mas também, por via da minha família de ‘adoção’ húngara.

Gosto dos nomes das vilas e das cidades, gosto da monumentalidade da sua capital, gosto do diferenciado serviço nos restaurantes, e até do protocolo oficial, sinto falta do restaurante TomGorge, adoro Buda e amo Pest,  gosto da doçaria e da comida:  Kürtőskalács (Chimney Cake), de comer Rétes em Normafa (Hungarian Strudels), também Gulyásleves (Goulash Soup), Paprikás Csirke (Chickenpaprika), Töltött Káposzta (Stuffed Cabbage) e outras ainda. Assim, faz-me falta a Hungria quando estou em Portugal.

Por fim assentámos na Costa Oeste de Portugal Continente junto á aldeia de Santa Cruz e ao nosso Oceano Atlântico.  Momento e oportunidade para a minha esposa desenvolver a sua atividade artística e finalmente apreciar o seu pais de `adoção´ Portugal. Mas isso deixo ao seu cuidado….

Dóra Hathazi Mendes

Conheci o Carlos em Budapeste em maio 2003, um ano depois de me formar como Designer Têxtil na MOME (Universidade de Arte e Design Moholy-Nagy). Acabei a universidade e comecei a trabalhar como designer freelancer em casa, eu tinha um tear vintage gigante de origem da Finlândia e fazia tecidos manualmente, venezianas de bambu pintadas e acessórios de decoração para clientes particulares.

Para terem ideia, eu sou originária do leste da Hungria, de Nyirbator, que é uma cidade pequena, demasiado pequena, assim aos 14 anos tive de sair de casa para ir estudar a 40 km de distância, posteriormente, e para ir para a universidade foi ainda uma mudança mais radical já que fui para a capital a 240 km da minha cidade natal, o que foi para mim um grande desafio, e honestamente, nunca idealizei ou pensei que iria para o estrangeiro e muito menos para vários países diferentes, muito menos para África, nunca tal me tinha passado pelo pensamento,  Portugal não era de todo um país referência no meu conhecimento, pelo que estar agora em Portugal a 3000 km da minha cidade natal, é algo que me parece extraordinário já que não fazia parte de algum imaginável ou desejado por mim.

Naquela época em que nos conhecemos ainda estudava inglês na escola de idiomas de Budapeste, por curiosidade e para ajudar a comunicação entre nós, também me inscrevi num curso de português para iniciandos na ELTE University, para melhorar a nossa comunicação. Na primeira aula de português, a professora disse algo assim: “quando te disser uma palavra, vocês vão saber mais ou menos, o que vocês vão enfrentar com a língua portuguesa”. A palavra era “Os Descobrimentos” o nosso queixo caiu, tentámos pronunciá-la timidamente e eu sabia que não seria muito fácil, seria desafiador e algo totalmente novo e diferente, e seria tudo sobre novas descobertas.

O nosso primeiro filho nasceu em 2009 e 6 meses depois deixámos a Roménia em direção à Polónia, onde ficamos até final 2012, depois mudamos para o Malawi, e como uma nova mãe eu estive bastante ocupada a construir um novo ninho em cada país, tentando encaixar-nos em cada nova comunidade, fazendo amigos, aprendendo novos hábitos e procurando manter também os antigos. Procurei sempre criar uma sensação de estabilidade para o nosso filho, ele teve anos de pré-escolares superinteressantes, a partir dos 2 anos frequentava uma pré-escola polaca bilingue Inglês&Polaco, e naquela época falava um polaco fluente, depois para a pré-escola de inglês no Malawi com professoras indianas.

Finalmente regressámos a Portugal, e o nosso segundo filho nasceu nas Caldas De Rainha, para este finalmente tudo foi mais linear. Quando ele começou a pré-escola, eu já tinha o lote de pinturas suficientes que tinha continuado a fazer no meu tempo livre. Então comecei a vender minhas obras originais e abri atividade como artista em tempo integral, expondo globalmente as minhas pinturas e gravuras e enviando as minhas pinturas e gravuras a partir da minha Galeria de Arte Karavella Atelier Online que pode encontrar em https://dora-hathazimendes.pixels.com.

Amo o meu país adotivo, tenho ainda tanto por descobrir e Portugal dá inspiração infinita às minhas pinturas. A minha Coleção de Pinturas de Portugal inclui agora cerca de 100 obras de arte, e também faço retratos de animais de estimação para satisfazer encomendas personalizadas para todo o mundo. Vivemos numapequena vila à beira-mar, mas com a ajuda da internet do meu canto de estúdio posso alcançar todos os lados do mundo com a minha pintura.

Os meus clientes de pinturas de Portugal são pessoas que visitaram Portugal uma, duas ou várias vezes, apaixonaram-se pelo país tal como eu e gostariam de ter as suas memórias nas paredes onde quer que se encontrem, ou expatriados que vivem em Portugal e gostam de decorar suas casas com a beleza deste país incrível. Fico feliz quando dizem que os meus quadros lhes trazem boas recordações, ou fazem com que um dia desejem visitar Portugal. Desde 2016, enviei cerca de 300 pinturas para o mundo fora e estou orgulhosa de que minhas paisagens urbanas, paisagens e retratos de animais de estimação encomendados estejam a decorar as paredes de vários casas em 21 países diferentes e 30 Estados americanos até ao momento.

Depois de tantas viagens e de morar em capitais e cidades movimentadas como Budapeste, Bucareste, Varsóvia e Lilongwe, amamos nossa vida tranquila de vilarejo. Temos sorte de termos tudo a curta distância, estamos longe das grandes cidades e da multidão, mas perto o suficiente, se assim quisermos. O oceano Atlântico, a natureza, alguns morros e até o rio ficam a poucos passos, e cada vez que penso na grande distância a que me encontro da minha cidade natal não consigo acreditar que de tão longe vim devido a um encontro acidental.

Encontramos um equilíbrio na nossa vida, e procuramos dar o nosso lado cultural aos nossos filhos. Em casa falamos três línguas, ainda falo inglês com o Carlos, mas ele fala português com os meninos e eu falo húngaro com eles. Aprendi ao longo dos anos a fazer vários pratos portugueses, mas também a cozinhar especialidades húngaras, e pratos da cozinha internacional para que todos fiquem satisfeitos. Ok, tem algumas coisas que eu nunca usei, como não ter ideia do que fazer com um polvo ou com chocos, bivalves também não são meus favoritos, mas não posso viver sem comer peixe fresco grelhado regularmente, e leitão assado é um tratamento especial. Aprendi a amar o bacalhau e nunca soube que um dos meus mariscos preferidos é a Sapateira. Tantas coisas que descobri!

Instalámo-nos em Portugal, mas tentamos visitar a Hungria de vez em quando e regressar com as nossas malas recheadas com as guloseimas obrigatórias como Túró Rudi, Téliszalámi, Unicum ou Tokaji Aszu. Minha mãe visita-nos regularmente da Hungria, o que é sempre um curso extra para meus meninos na herança húngara, já que ela é uma professora reformada com grande conhecimento e paixão em ensiná-los. E ela gosta de ler os contos tradicionais húngaros através do Skype da Nők Lapja (Revista Feminina). Nós pintamos Ovos de Páscoa com os meninos, e eles estão felizes que o Pai Natal nos visite não só no dia de Natal, mas também no dia de Mikulas (São Nicolau). Gostaríamos de cultivar o interesse deles pela Hungria, esperando que talvez durante seus anos de universidade eles possam passar mais tempo na Hungria para um curso extracurricular.

Hoje com a internet temos a vantagem que até o que está longe fica bem perto, e podemos manter contato de várias formas. Não precisamos esperar semanas para que os e-mails cheguem, podemos fazer videoconferências com nossas famílias, o que é uma grande vantagem para quem vive longe de suas origens. Essa parte não é fácil principalmente para os avós.

Amo o meu país adotivo e tenho orgulho de nossa família luso-húngaro, que funciona perfeitamente. Aquele primeiro mundo em português “Os Descobrimentos” continua a ser a essência da minha vida, pois não só tive a oportunidade de descobrir novos países com o Carlos, mas continuo a aprender coisas novas sobre Portugal todos os dias!!

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