Tudo é diferente

por Henrique Delmar

Frigyes Karinthy. In “Minden másképpen van”

Todos ouvimos falar do conceito dos Seis Graus de Separação, segundo o qual todas as pessoas estão interligadas por um número pequeno de conexões.

 

A origem da teoria não é científica, mas literária: foi criada em 1929 pelo escritor húngaro Frigyes Karinthy no livro “Minden másképpen van”Tudo É Diferente. Para Karinthy, os avanços na comunicação e nos transportes fariam com que, apesar das distâncias entre as pessoas, os círculos sociais ficassem cada vez maiores.

 

A ficção inspirou a realidade, e a ideia serviu de base para estudos de matemática, cibernética, computação e ciências sociais que abordam o conceito interdisciplinar da estrutura dos sistemas reguladores, restrições e probabilidades.

 

No conto Tudo é Diferente, Frigyes Karinthy, propôs pela primeira vez a teoria da rede, que na altura ainda era apenas uma intuição e só mais tarde se consolidou como um conceito científico.

Domingo, dia 13

Sim, há algo decisivo, disse eu no calor da discussão (estávamos a falar, mais uma vez, sobre as ondas, sobre se o mundo avança, ou se tudo não passa de um jogo de batidas que regressam uma e outra vez, uma renovação do Eternamente Existente). Não sei como me explicar, não gosto de cair em repetição. Vejamos: o globo terrestre nunca foi tão pequeno como agora, falando, claro, em termos relativos. O ritmo cada vez mais rápido da comunicação verbal e física acabou por estreitar o mundo; reconheço que esta ideia não é nova, nem é a primeira coisa, tudo já foi tratado, contudo nunca é mencionado que alguns minutos são suficientes para toda a população da Terra, se eu ou qualquer outra pessoa o desejar, ser informada do que se pensa,  do que se faz, do que se quer ; e se nos apetecer garantir pessoalmente, em quatro dias podemos estar, abracadabra, onde quer que queiramos estar. O Polegarzinho, conto de fadas europeu, com as suas botas de sete-léguas, chegou ao nosso mundo, causando alguma deceção, no entanto, pois é muito mais pequeno do que a “Terra da Realidade” era. Chesterton escreve algures que não compreende porque é que os metafísicos insistem que devemos imaginar o Cosmos como algo muito grande; ele prefere a ideia de um universo minúsculo, acolhedor e íntimo. Tal ideia parece-me bastante característica deste século de transportes, mais característica do que engenhosa ou verdadeira; e é tão precisamente, porque foi o reacionário e anti-evolucionário Chesterton, o inimigo da ciência e da tecnologia, que foi forçado a reconhecer que, afinal de contas, a Polegarzinho, tantas vezes aludido por ele, foi capaz de aparecer perante nós precisamente graças ao progresso “científico”. Claro que tudo regressa, tudo se renova, e não se dá conta de que o ritmo deste regresso e desta renovação está a acelerar no espaço e no tempo a uma velocidade nunca antes vista? O meu pensamento percorre o mundo numa questão de minutos; deixamos para trás, como lições aborrecidas, capítulos inteiros da história universal numa questão de anos. Isso tem de nos levar a algo, só precisamos de saber o quê. (Tive a impressão de que estava prestes a descobrir, mas esqueci-me imediatamente de novo. A dúvida apoderou-se de mim, talvez precisamente porque eu tinha chegado demasiado perto da verdade. Na proximidade do Pólo, a agulha magnética estremece; parece acontecer o mesmo com a fé quando se está na proximidade de Deus).

A discussão conduziu a um jogo interessante. Um de nós propôs um teste para provar que os habitantes da terra estavam mais próximos uns dos outros em todos os sentidos do que nunca. Ele propôs que escolhêssemos a nosso critério qualquer um dos 1,5 mil milhões de habitantes do globo, de qualquer lugar que quiséssemos, e apostou que seria capaz de estabelecer contacto com ele através de não mais do que cinco indivíduos, um dos quais se encontraria pessoalmente, apenas através de relações pessoais diretas. Como dizer: “Ei, tu conheces Fulano de Tal, diz-lhe para dizer a Fofinha, quem o conhece…” e por aí adiante e assim por diante.

– “Bem, estou curioso”, disse outro. Bem, vamos fazer um teste… digamos com… com Selma Lagerlöf.

-“Selma Lagerlöf,” repetiu a nossa amiga, não podia ser mais fácil.

Não demorou mais de dois segundos a dar-lhe a resposta:

– Vejamos, Selma Lagerlöf, vencedora do Prémio Nobel, conhece sem dúvida pessoalmente o Rei Gustavo da Suécia, pois de acordo com as regras, foi ele quem lhe entregou o prémio. O Rei Gustavo, pelo seu lado, é um apaixonado pelo ténis, participa em grandes torneios internacionais; jogou com Kehrling, que sem dúvida aprecia e conhece bem. E Kehrling é um bom conhecido meu (o nosso amigo é um jogador de ténis experiente). Aqui está a cadeia, com apenas dois elos dos cinco. Não é surpreendente, porque é mais fácil chegar às pessoas que gozam de popularidade e fama através das relações do que às pessoas comuns, porque as primeiras têm um grande número de conhecidos. Vá lá, outra mais difícil.

Um estranho pensamento lúdico chocalha desesperadamente dentro de mim: como poderia estabelecer, com dois, três ou, no máximo, cinco ligações, um contacto, uma correlação entre as insignificâncias da vida que encontro, como ligar um fenómeno com outro, como relacionar o parente e o efémero com o não-relativo e o permanente, como ligar a parte com o todo? Se apenas se pudesse viver, regozijar-se e gozar a vida, levar as coisas apenas em conta se causam prazer ou dor! Mas não é possível, estou intrigado com o jogo de encontrar nos olhos que me olham a sorrir, ou no punho prestes a descarregar em mim, algo que vai além do simples reflexo de se aproximar do primeiro ou de resistir ao segundo. Um ama-me, o outro guarda rancor, porque é que me ama, porque é que guarda rancor? Tenho de os compreender a ambos, mas como? Na rua vendem uvas, na sala ao lado o meu filhinho chora. Um conhecido meu foi enganado pela sua mulher; no jogo dos Dempsey foram ouvidos os gritos de cento e cinquenta mil pessoas; ninguém quer saber do novo livro de Romain Rolland; o meu amigo Fulano de Tal mudou de ideias sobre Fulano de Tal; o coro de batatas… Como é que se poderia juntar todos estes elos num tal caos e formar uma corrente rápida e direta, sem a necessidade de trinta volumes de filosofia? Apenas por deduções, mas de tal forma que o último elo da cadeia leva à fonte de todas as coisas, a mim mesmo. Tal como…

Tal como este senhor… este senhor, que veio à minha mesa… onde estou a escrever tudo isto, veio interromper-me com um assunto trivial, tirando-me da cabeça o que eu ia dizer. Porque veio ele aqui, como se atreveu a incomodar-me? Primeiro link: não pensa muito em todos estes rabiscos. Porquê? Segunda ligação: em geral, os rabiscos não são apreciados em qualquer parte do mundo, como eram talvez há um quarto de século atrás. A razão para isto é a grande convulsão que abalou o mundo e comprometeu o Espírito; se este é o resultado, a famosa inundação de ideologias e “cosmovisões” do fim do século XIX não deve valer muito. Terceiro elo: é por isso que a Europa é dominada pela histeria descontrolada do Terror e da Violência; a ordem desmoronou-se: este é o quarto elo!

Então que venha uma nova Ordem, que venha um novo Redentor do mundo, que o Deus do universo se mostre novamente no arbusto ardente, que haja paz, que haja guerra e que haja revolução, para que – e aí está, oh, a quinta linha – nunca mais possa acontecer que alguém se atreva a interromper-me enquanto estou a tocar, enquanto estou a fantasiar, enquanto estou a refletir.

Tradução de Eszter Orbán e José González Trevejo

Fonte: Cortesia da Fundação Húngara do Livro (Magyar Könyv Alapítvány) e da Revista Digital Lho.es

Versão Portuguesa: Henrique Delmar

Print Friendly, PDF & Email

Também poderá gostar de

O nosso website utiliza cookies para melhorar a sua experiência de navegação. Aceitar Ler Mais

Privacidade