Conte um conto! “Três Cidras do Amor”

por Arnaldo Rivotti

As Nozes. — É o conto das Três Cidras do Amor, modificado segundo os frutos prediletos de cada terra, cidras, laranjas ou nozes. Sobre os paradigmas deste conto universal, de Agustin Duran, no Romancero genéral, t. I, p. 2, nota ao Romance n.º 4, resume este conto, também vulgar em Espanha. Na versão italiana de Perugia, tem também o título Le tre noci fatate. (Ap. Prato, Quatro novelline, p. 28.). A versão húngara tem por título a “A Pequena Noz” (Kicsi Dió).

 

 AS NOZES (escrito em português antigo)

Havia um principe, que foi passear; no meio de uma estrada encontrou uma velhinha, e o principe pediu á velha a sua benção. Ella deu-lhe trez nozes, e lhe disse:

— Meu principe, não partas estas nozes senão perto de agua.

Elle foi para diante, e partiu uma das nozes. Saiu uma menina muito linda, que lhe pediu agua. Como elle não tinha agua, ella morreu. Mais para diante, partiu outra noz; succedeu o mesmo, não haver agua e a menina morreu. O principe prometteu a si mesmo de não tornar a partir a ultima senão ao pé da agua. Chegando a uma fonte, partiu a derradeira noz; saiu uma menina, que lhe pediu agua, elle deu-lh’a e a menina viveu. O principe muito contente levou-a comsigo até ao jardim do palacio do rei seu pae, e ahi a metteu entre a ramada de uma arvore, que tinha uma fonte por baixo, e foi-lhe buscar vestidos para a trazer para a côrte. Uma preta vinha á fonte com um pótinho de barro e viu na agua a cara da menina; pensando ser a sua cara, quebrou o pote dizendo:

— Uma cara tão linda não vem á fonte!

A mãe batia-lhe, e ella repetia sempre o mesmo; a mãe chamava-lhe tola, até que lhe deu um odre para ir á fonte, porque assim não o quebrava. A preta foi, e lavou a cara, e olhando para cima viu a menina, e foi a casa chamar a mãe. A mãe veiu e perguntou á menina como é que ella tinha ido para ali. Ella contou, e a mãe chamou a menina e começou a dar-lhe matadellas na cabeça, e vae senão quando mette-lhe dois alfinetes reaes nas fontes, d’onde a menina se tornou em pombinha branca e voou por esses áres fóra. A preta pôz a filha no logar da menina; veiu o príncipe e ficou espantado de a vêr tão negra. Ella respondeu-lhe:

— Os ardores do sol, o vento e a chuva me enegreceram.

O principe ficou pelo que ella dizia, levou-a para o palacio, e estava já para recebel-a, quando lhe veiu uma grande doença, que não lhe sabia nada com fastio. O jardineiro viu uma pombinha, que fallava e dizia:

Eu ando de galho em galho,

De flôr em flôr,

Ai que dôr!

E a pombinha voava e tornava a dizer:

Eu ando da ortelã para o loureiro,

Á roda da minha horta;

Como irá o principe

Com a sua esposa preta Carlota?

O jardineiro foi contar tudo ao principe, que mandou untar todas as arvores de visco, para apanhar a pombinha. Apanhou-se a pombinha, e a preta logo desejou os figados d’ella. O principe não quiz que ella se matasse; indo-lhe a fazer festa, ao passar a mão pela cabeça da pombinha achou os dois alfinetes e puchou-os; ella tornou-se outra vez na menina, e o principe muito contente casou com ella, e mandou matar a preta e a mãe da preta.

(Ilha de S. Miguel — Açôres.)

In Contos_Tradicionaes_do_Povo_Portuguez

Crédito da imagem: https://www.atef.pt/

 

“Contos Populares da Hungria” A Pequena Noz (A kicsi dió) – TV Episode 1980

Directed by Marcell Jankovics, Elek Lisziák. With György Bánffy

 

Dedico este encantador conto ao meu neto Bernardo. Bem-vindo ao mundo!

 

Também poderá gostar de

O nosso website utiliza cookies para melhorar a sua experiência de navegação. Aceitar Ler Mais

Privacidade