Torre Bela é um escândalo mundial (mesmo que a BBC não tivesse notado)

por LMn

Por Daniel Deusdado – DN

Poderia ter acontecido noutro sítio? Há algo de muito errado a passar-se em Portugal e Espanha. Pode parecer demagógico trazer as touradas para o assustador crime da Torre Bela, mas talvez esta cultura de morte ajuda a entender quem são estas pessoas, quais os seus “hobbies” e porque aquele massacre lhes pareceu normal – ao ponto de tirarem fotografias em frente das centenas de animais mortos.

Não faço de conta que existe um certo extremismo sobre o tema da proteção animal. Mas sejamos francos: já estamos num tempo em que mais vale o exagero da proteção animal do que o contrário. E este caso é exemplo disso. É um crime que revela o cúmulo massivo de falhas educacionais na relação pessoas-natureza. Para estes caçadores o ecossistema é elástico e infinito. E não lhes ocorre a ideia de qualquer dolo nos seus atos.

É exatamente por isso que as touradas são tão relevantes nesta discussão – pela questão da dor e desrespeito pelos animais. Pelo precedente sistemático. Pela aquiescência com a “legitimidade do espetáculo”.

Provavelmente, por razões essencialmente culturais e direito das minorias, não é possível acabar com o sofrimento de um animal numa arena. Daqui a umas décadas ninguém compreenderá como é que a nossa geração o admitiu tanto tempo. Mas isso é uma outra conversa. No momento presente há, no entanto, uma decisão que podemos tomar: travar o processo de assimilação da violência contra os animais. A Torre Bela é um marco. A origem está na “escola” da indiferença. Onde? A televisão.

Nos três anos em que fui diretor de programação da RTP1 não houve tema e decisões mais polémicas do que as ligadas às touradas. Quando tomei posse, em abril de 2015, a estação pública fazia regularmente uma dezena de transmissões anuais (num dos anos foram emitidas 14 touradas).

Decidi em 2015 fazer uma redução significativa: quatro touradas no primeiro ano e três como regra nos seguintes. Porquê? Um canal público, sobretudo em temas fraturantes como este, tem de representar o conjunto da sociedade – sem esmagamento de maiorias ou minorias. Não seria sensato eliminá-las sem um maior consenso na sociedade portuguesa, como faria se seguisse apenas a minha vontade. Um compromisso.

Pessoalmente respeito a liberdade dos aficionados irem às touradas se a lei não o impede (via Parlamento). O que rejeito, sim, é o efeito normalizador do sofrimento animal via espetáculo doméstico de milhares de portugueses. O cavaleiro e o forcado como símbolos da supremacia e coragem humana (num jogo de faz-de-conta). O touro, a besta. Preto, como o estereótipo da malignidade a abater. No tempo da televisão a preto e branco, o sangue a escorrer pelo seu dorso era ainda mais “invisível”.

Somos filhos de décadas desta mentira televisiva, perpetuada agora por via mediática. Não por acaso, os filhos do iluminismo português, os liberais do século XIX, aboliram o espetáculo em muitas cidades, sobretudo a Norte, por não dignificar a sociedade humana que pretendiam construir.

Pelo contrário, a Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC) tem mantido a liberdade das transmissões de touradas em canais de sinal aberto, sem sequer exigir, pelo menos, transmissões depois das 22h30. Isto contraria completamente a tendência mundial. Entre 2015 e 2018 acumulei o cargo de diretor da RTP1 e RTP Internacional. Nesta última, nunca programei touradas. Pura e simplesmente, elas eram proibidas na esmagadora maioria dos países para onde a RTP Internacional é transmitida, via parabólica ou cabo. Já agora: não contesto a existência de canais pagos na televisão por cabo sobre o tema. É a liberdade de expressão a prevalecer enquanto for esse o entendimento do Parlamento. Portanto, o tema não é liberdade de expressão. É “touradas em televisões de sinal aberto”, sobretudo no serviço público.

Daí a minha posição: sem se eliminar a tourada – enquanto espetáculo de televisão que fomenta a normalização da morte animal aos olhos das crianças, adolescentes e adultos -, não mudaremos a perceção sobre o que é um crime contra os animais. Nascemos e crescemos sem compreendê-lo. Por isso o massacre da Torre Bela é mais “tourada” do que “caça”. O que esteve ali em causa foi o turismo cinegético de pessoas que não compreendem o seu papel no mundo e de como o prazer de usufruto deste planeta tem limites.

Não deixo de lamentar que a caça – mesmo que em alguns casos justificada por razões económicas -, se mantenha como “desporto” ou “passatempo”. A existir, deveria ser guiada por princípios de equilíbrio ambiental, devidamente monitorizado pelo Ministério do Ambiente. Só que não é a pequena caça que está aqui no centro desta infâmia. É o massacre exposto. Isto poderia acontecer em que países civilizados do Ocidente? Portugal foi colocado ao nível dos países-territórios das caçadas africanas, de portas abertas, por necessidade extrema, para fomentar este tipo de turismo.

Uma breve nota sobre o outro problema: o projeto fotovoltaico que vai ocupar a Herdade da Torre Bela. Perguntem a qualquer ambientalista se preferem energia solar ou animais fora do seu habitat. Obviamente nem é preciso dizer. Com tanto sítio para colocar estes projetos, isto é um crime duplo contra a Natureza, também pela destruição do ecossistema em redor.

Os donos da Torre Bela, ou atuaram com negligência grosseira (são tão incompetentes que não podiam prever o resultado final), ou agiram com dolo eventual. Quer isto dizer que venderam o acesso a tantos caçadores, durante tantas horas, que o resultado não poderia ser outro. Agora, isso significa que tipo de crime? Simbólico. As leis estão velhas.

Na Torre Bela, os turistas da morte divertiram-se, sem culpa nem remorso. Portugal e Espanha tornaram-se numa vergonha mundial. Com ou sem BBC. Segue-se o mundo inteiro.

No nosso caso, “melhor destino turístico do mundo”, se continuarmos a destruir a Natureza assim, acabaremos iguais aos países onde não queremos de forma nenhuma pôr os pés. O que a foto da Torre Bela anuncia ao mundo – tal como os incêndios massivos -, é que está sistematicamente a ocorrer a destruição natural de um país maravilhoso. Prémios? Para quê?

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