TONYA

por Luís Serpa

TONYA

Tenho sessenta anos e vivo na casa onde nasci. É uma vivenda de dois pisos. Em baixo: sala de jantar, sala de estar, cozinha, despensa, casa de banho de hóspedes, quarto da criada e respectiva casa de banho. Em cima: três quartos, duas casas de banho, um hall grande em torno do qual se dispõem os quartos. Arrumações em cima e em baixo. A casa é espaçosa sem ser enorme, confortável, um grande terraço dá-lhe uma vista magnífica para o mar, ao qual o olhar chega depois de atravessar parte da cidade. Pouco tempo após a morte dos meus pais — foram os dois com um pequeno intervalo —, acrescentei-lhe uma cave com uma divisão especial para vinhos, temperatura e humidade controladas, rouparia, uma suíte que serve de quarto de passagem, biblioteca, arquivo e fourre-tout, como dizem os franceses.

Tonya tem quarenta anos e vive aqui há vinte. Viaja mais do que eu: é antropóloga, faz investigação no terreno, dá conferências e formação nos quatro cantos do mundo. Eu pouco saio. Sou engenheiro civil, faço cálculos e projectos para os arquitectos que mos pedem, para uma ou outra autarquia. No princípio da minha vida profissional viajava bastante. Agora posso seleccionar os projectos e a ter de sair só aceito encargos que me permitam vir dormir a casa todas as noites.

Não falei ainda do vasto jardim nem do carvalho que lá está há mais de um século. Já lá vamos. Não tenho cães nem gatos. Nunca precisei de me sentir o Napoleão fosse de quem fosse e não gosto de seres que ou são mal-educados ou são desprovidos de vontade. Aos gatos, não atribuo nenhuma virtude mágica em especial. São mamíferos e desenvolveram características que lhes permitem viver e prosperar num determinado ambiente. Se há magia, é na evolução, não nos bichos.

Tonya veio viver para aqui quando começou o curso. Era filha de uma vaga amiga ou familiar de Paula, a minha mulher. Já não estamos casados. Paula morreu cedo e triste, coisa a que não consigo esquivar-me. Nem ao carvalho, de resto. Mas esse vejo-o todos os dias e não se mexe. Era professora de Psicologia. (Na universidade em que Tonya estudava, inevitavelmente. Só temos uma universidade na nossa cidade. Já lá vamos.)

Para mim, o confinamento obrigatório não foi uma mudança radical de estilo de vida e de início até o acolhi bem. Estou sozinho. Tonya foi apanhada pela suspensão das viagens aéreas numa ilha qualquer do Pacífico Sul, onde orienta uma pesquisa, ou coisa que o valha. Conseguiu in extremis arrendar uma casa na cidade, antes de os voos serem suspensos e os hotéis fecharem. Tem Internet e falamos duas vezes por dia. A diferença horária é de dez horas: temos a noite e o dia trocados. As minhas saídas eram poucas, mas regulares: café de manhã, compras, copo antes do jantar, uma aguardente depois. Nunca lhes atribuí importância nenhuma: uma forma de a casa respirar, suponho; expirava-me e inspirava-me, reflexa e regularmente.

Quando não está no estrangeiro, Tonya trabalha na faculdade e pouco pára por aqui. A vaziez da casa não me exaspera. É assim que a vejo desde miúdo, porque sempre vivi nas suas margens. Depois da revolução, os meus pais deixaram de ter criada e passei a dormir no respectivo quarto, que deixava para ir ao liceu e pouco mais. Fiz o curso em Lisboa e quando comecei a trabalhar viajava frequentemente. Só depois de os meus pais morrerem me vi a habitar a casa, deixei de distinguir os espaços entre «onde posso estar sozinho» e «onde não posso estar sozinho». Na adolescência e nos anos que se lhe seguiram, a minha mãe chamava-me «O morcego». Depois morreu. Enfim, o meu pai foi primeiro, com um cancro. A mãe a seguir, de tristeza. Nunca conseguiu viver sem o marido e não era aos sessenta e muitos que ia começar. Só então me «mudei para casa» — a expressão é de Paula, que já estava comigo, mas ainda não vivia lá. Era da minha idade, trinta e alguns. Conhecêramo-nos na faculdade — antes de ir para Antropologia, fizera um ano ou dois de Engenharia. Depois, decidiu que o mundo não era feito de linhas rectas projectadas nem de cálculos de resistência de materiais e mudou para a nossa cidade, nesse tempo pouco mais de uma vila à beira-mar, anestesiada pelas mudanças que a modernidade lhe impusera e às quais se esquivara com uma agilidade invejável. O governo resolveu criar ali uma universidade para reter a gente nova autóctone e chamar a de fora. Olhando para trás, é fácil reconhecer que teve razão. Aposta ganha. Paula foi nos primeiros anos, começou e acabou o curso, foi ficando-se, como ela dizia. Víamo-nos regularmente e íamos para a cama irregularmente. Acabei o curso primeiro, voltei para a casa dos meus pais, ela começou a vir dormir mais vezes ao «quarto de baixo», como lhe chamava a minha mãe. Andámos assim meia dúzia de anos. Eles partiram e, um ano depois, entrou ela.

Fui muito feliz com Paula. Ainda hoje sou, de certa forma, mas é uma felicidade triste. Melancólica. Ela vive na minha memória e em Tonya, quando fazemos amor ou nos dizemos «Olá!» assim que entra em casa vinda de uma das suas viagens. «Olá!» Tonya é alemã e costuma dizer que a nossa língua comum é o silêncio. Era aluna de Paula e, quando esta soube que precisava de uma casa, disse-lhe — depois de me perguntar — que o quarto da empregada estava livre. (As coisas têm uma prodigiosa capacidade de mudar de nome, não têm? Um nome não é parte integrante da coisa, ao contrário do que muita gente pensa. É parte de quem o pronuncia.)

Tonya é uma mulher brincalhona, divertida, espiègle como diria um francês. Veste o silêncio como se fosse uma gabardina. Gosto do termo espiègle, porque me faz pensar em espiga e era assim que eu a via. Uma espiga loira, baixa e magra, agitada pelo vento, mas segura ao caule. A primeira vez que fizemos amor, Paula ainda estava viva. (Pouco antes de morrer, disse-me: «Trata bem da Tonya, prometes? Ela gosta muito de ti.» Nesse dia, confirmei aquilo de que desde muito suspeitava.)

Os dias de confinamento são pesados. Não têm futuro, só passado e um bocadinho de presente, por ocasião das conversas por computador com a minha espiga direita e loira. Uso «presente» nos dois sentidos: o cronológico e o de dádiva. Fazemos amor duas vezes por dia, como o fazemos quando ela está cá. Habitualmente, as ausências são curtas: uma semana, às vezes dez dias. O computador é um mal menor, preferível à masturbação solitária. (Como se houvesse masturbações solitárias… Não há. As minhas, pelo menos, parecem-me um desfile de todas as mulheres que amei e quero amar, passando à minha frente sentadas num autocarro, umas atrás das outras. Não é que tenham sido muitas. Não foram. Mas trocam de lugares, reaparecem, às vezes fico dias sem as ver, outras é só uma a ocupar os bancos todos do autocarro.)

Fiz um acordo com Tonya: o sexo é para se fazer, não para ser falado. Cada um faz o que quer (ou pode), desde que o outro não saiba e desde que não o magoe. A fidelidade é ao casal que nós formamos, não à outra metade dele. Nem sempre foi assim. Quando a conheci, Tonya tinha uma relação entusiástica, mas tecnicamente débil com a luxúria. Mais entusiasmo do que saber. Era preciso explicar-lhe tudo.

— Põe uma almofada debaixo do rabo.

— Uma almofada debaixo do rabo?

Punha, sorria de alto a baixo e dizia:
— Que bom!

Ou quando estava por cima de mim:

— Não subas e desças. Isso é coisa de actriz porno. Anda para trás e para a frente.

Às vezes, ajudava-a pondo-lhe as pernas por cima dos meus ombros e puxando-lhe pelos tornozelos. Depois, virávamo-nos, mas sem mudar de posição. Uma rotação de noventa graus que nos punha no mesmo plano. Continuava a puxar-lhe pelas pernas, às vezes mais devagar, outras mais depressa ou com mais força. Tonya aprendia depressa, soltava-se, tomava a iniciativa. Para alemã era baixa, tinha o corpo seco da espiga, o ventre sorridente e acolhedor como o futuro da criança que nunca quis ter.

 

Paula ainda era viva. Chegava a casa cansada, vinda da faculdade, e ia directamente para o duche. Agora, sei que ela sabia tudo. Mais: tinha sido ela a organizadora daquilo e os meus esforços para esconder a tarde de sexo que passara com Tonya parecem-me o que são na realidade: ridículos. Patéticos.

Ando pelo mundo como um Meursault capaz de introspecção.

Um dia, ensinei Tonya a fazer uma felação como deve ser: com a língua tanto como com os lábios, em conjunto. O sexo é uma actividade racional cujo objectivo é levar-nos a uma profunda perda de razão. Nada que ver com o amor. Enfim, às vezes tem, mas é uma relação ténue e sem causalidade: não é porque te amo que te quero; ou, pelo contrário: amo-te, mas não te desejo. Ou: amo-te e quero-te. Todas as combinações são possíveis. Cervantes andou lá perto: «Amor y deseo son dos cosas diferentes; que no todo lo que se ama se desea, ni todo lo que se desea se ama.» A minha avó ensinou-me que não se deve misturar o sexo, o amor e o casamento. Nem sequer é muito original, é preciso dizê-lo. Surpreendente é ter-mo dito a mais de meio do século XX. Antes do romantismo e da esperança de vida se terem prolongado algumas décadas, era a norma. Ninguém sonhava com casamentos por amor e para sempre. A avó era uma senhora muito católica, de boas famílias, nascida no final do século XIX. Enviuvou, vestiu-se de preto e que eu saiba nunca mais teve homem na vida.

Efabulações: é-me totalmente indiferente se teve ou não mais homens. Quando a conheci (isto é, quando veio viver para esta casa), já andava pelos quase setenta. Morreu dez anos depois. Aterrorizava-me: praguejava como uma carroceira e benzia-se logo a seguir, coxeava porque tinha sido atropelada e usava a bengala tanto para nos bater (mais ameaçar do que bater) como para andar. Não autorizava a entrada a seres do sexo masculino na cozinha. Dizia-me (teria eu oito ou nove anos):

— A cozinha não é para homens. Vai-te embora daqui.

— Mas, avó, eu só quero um copo de água.

— Pedes-me e eu levo-to. Um homem não entra na cozinha. — Claro está, dizia isto porque sabia que eu não teria coragem de lhe pedir fosse o que fosse fora das horas estabelecidas: pequeno-almoço, lanche matinal, almoço, lanche da tarde, jantar.

Oito ou nove anos depois, eu começava a dar os primeiros passos nos terreiros erógenos das cachopas da vizinhança, mas foi já mais velho — teria dezoito ou dezanove anos, pouco antes de conhecer Paula — que ouvi o conselho. Levei meia vida a percebê-lo:

— Ó homem, tu não tens juízo nenhum.

— Avó, estou apaixonado pela… — Seguia-se um nome, que variava trimestralmente.

— Apaixonado! Apaixonado! — O tom de desprezo que ela dava à palavra é irreproduzível. Como se estivesse a falar de um palhaço a candidatar-se a um lugar de importância social ou política. — Apaixonado!

— …

— Arranjas uma mulher séria para te casares, que te trate bem, goste de ti, te faça o almoço e o jantar e te cosa a roupa; depois apaixonas-te à vontade por quem quiseres. E no fim arranjas uma ou duas para fazer disparates. Apaixonado! Tem juízo, homem. Vá, agora deixa-me ir para a cozinha fazer o jantar.

Saía da sala e ainda ouvi um último: «Apaixonado!» Levei muito tempo a perceber o bem fundado daquele conselho e nunca o pus em prática: apaixonei-me por Paula, que não tratava de mim, não cozinhava e não sabia sequer por que lado se pegava numa agulha. E quando a rapariga «para fazer disparates» entrou na minha vida, apaixonei-me por ela também. Isto é, aquilo que para mim é «apaixonar-me»: nunca consegui declinar a palavra sem ouvir a minha avó:

— Apaixonado! Tem mas é juízo, homem.

As memórias aparecem como uma bola a rolar por uma escada abaixo e eu olho para elas, vejo-as chegar e ir de degrau em degrau, como se não fossem minhas. Alguém viveu isto por mim. Alguém está fechado nesta casa, alguém um dia trepou àquele carvalho e gritou:

— Paula, faz-me uma felação! Tonya, faz-me um bico! Tu, Luísa, tu, Rita, tu, Ilse, tu, façam-me um broche! Paula! Tonya! Quero um broche! Um bico! Uma felação! Quero uma boca nesta pila!

Passei muito tempo em cima da árvore. Gritei até ficar sem voz, mas ninguém me deve ter ouvido. Foi depois de ver um filme de Fellini. Saí do cinema impressionado e quis experimentar a loucura do tio que queria uma mulher. Tinha duas em casa e provavelmente uma ou outra num lugar qualquer, não seria justo gritar «Voglio una donna!» como o outro. (Digo que ninguém ouviu, porque a casa estava vazia. Nem uma nem outra lá estava. Nas traseiras da casa passa uma ruela, só esporadicamente utilizada. As probabilidades de ter sido ouvido são muito baixas. Até na loucura deve haver método.)

Chegou a noite. Tonya desperta para o seu dia de confinamento e eu continuo o meu, moeda de duas caras ou duas coroas. Só agora percebo quanto me falta a saída vesperal, o pequeno copo de aguardente que tomava antes de encontrar Tonya na cama, nua à minha espera, a agarrar-me no membro ainda mole e a dizer-me: «Dá cá a palha, vou aspirar tudo o que bebeste.» Ou: «Uma transfusão dessa aguardente saber-me-ia muito bem.»

O sexo por computador tem piada quando é uma escolha, quando sabemos que vai terminar em breve. Agora não. Deito-me, aponto a lente da câmara para a minha cara e falo para onde quer que Tonya tenha escolhido. Por vezes, a vagina, outras um seio ou os dois, os lábios. O corpo feminino é tão mais rico do que o masculino. Arquipélago versus península, televisão em cores versus televisão em preto-e-branco, montanhas versus planícies secas e chatas. Masturbamo-nos os dois tentando sincronizar-nos, como se estivéssemos um no outro e não simplesmente um com o outro.

Tonya sabe que deve vir-se primeiro. «Prioridade às senhoras, meu amor.»
Pode um amor ser o que não é? Pode. Tanto como não ser o que é. A verdade é que definir o amor me parece uma perda de tempo. Não sei o que é. O que sinto por Tonya, o que sentia por Paula é diferente do que sinto pela senhora da padaria. Talvez o amor seja a diferença entre dois estados e não um desses estados.

Ensinei Tonya a percorrer-me o corpo com os bicos das mamas, só os bicos, muito ao de leve, uma pena — duas —, por vezes humedecendo-me com a língua, devagar, Tonya, devagar.

— Mas eu quero-te dentro de mim!

— Só depois de te vires. Continua.

Enfiava-lhe o dedo grande do pé na vagina, Tonya «passeava os passarinhos pelo quintal» até não poder mais e sentar-se em mim como se me desse uma palmada.

Fazer-lhe amor permitia-me separar o sentimento da sensualidade. Cresciam as duas, mas eu só percebia uma.

Paula adoeceu e morreu muito depressa. Cancro no pâncreas. Recusou ser tratada.

— Isto não tem cura e tu não ficas sozinho.

Seis meses depois:

— Trata bem da Tonya. Ela gosta muito de ti. Trata-a como me trataste a mim. Amo-te. Adeus.

 

 

II

 

Percebo pouco de palavras. Sou um homem de números e de sentidos. Gosto do que faço: pensar, calcular e concretizar. As palavras escapam-se-me, não sei por onde andam nem para onde vão. Sei, contudo, apreciar-lhes a beleza. Bourlinguer, por exemplo, é uma palavra bonita. La bourlingueBourlingueur. Confinamento é feio. O conteúdo é odioso, o continente feio. Confinar. Confinado. Tem con e finado. Em francês, con significa cona e estúpido. Fechado numa cona, estúpido. Morto. Fechado em casa e, mesmo quando se sai, tudo está fechado. Conas fechadas, estúpidos fechados. A vida fechada. Como se cona, estupidez e morte fossem a mesma coisa. Serão?

Não sei. Pouco importa. Sei que detestaria estar fechado numa cona (e morto muito menos, claro), porque o melhor dela é tudo o que a rodeia. O corpo no qual se inscreve, a cabeça que a governa. Já a estupidez não tem cona. Não se pode foder a estupidez, nem fazer-lhe minetes. E se se pudesse, não seriam bons.

Estou fechado em casa. Tonya está fechada noutra casa. O silêncio é a nossa língua comum, porque sei o que ela pensa: pouco mais ou menos a mesma coisa que eu, sem as elucubrações sobre a cona, a que ela chama «vagina» nos dias bons e «rata» nos maus.

— A minha rata quer comer-te.

— Não sou um queijo.

— És melhor do que queijo, és a armadilha.

Nenhum de nós sabe quando a rata terá a sua armadilha, de que tanto gosta.

O sexo por computador interposto é possível porque o sexo se faz com a cabeça; e é uma mentira, porque sem corpo não fica senão a representação desse corpo. É como foder um fantasma que se conhece bem, por dentro e por fora. Mas fantasma: só existe na minha cabeça, na minha memória.

A cidade está vazia. É uma cona seca. As cidades são feitas de gente. O que nos leva a gostar de uma cidade são as pessoas que nela conhecemos, aquelas com quem nos cruzamos nas ruas, o casal que encontramos num bar e com quem trocamos palavras de circunstância, os restaurantes aonde alguém a quem perguntámos nos aconselha a ir, as livrarias que visitamos para ir comprar um livro e folheá-lo no café ao lado. Só depois vêm as paredes, os prédios, os monumentos. Paris tem uma rua chamada Rue Daguerre, que em duzentos metros concentra França. Queijaria, mercearia, café, livraria, restaurante… Mas que seria disso tudo sem as pessoas? Que seria disso tudo se os estores estivessem corridos como de certeza agora estarão? Sem pessoas, a Rue Daguerre só vive na minha memória, como as mamas de Tonya, as pernas de Paula quando me apertavam como um glaciar esmaga as pedras que encontra no caminho.

Estar confinado é isto: percorrer as ruas do passado. Não ter futuro. Cona que se recusa. Mulher que não te quer.

Da minha janela, vejo o carvalho, se quiser vê-lo. Na maior parte dos dias não quero. Quando era miúdo, espetei uma série de pregos no caule para fazer uma escada. No dia em que subi já lá não estavam, devem ter sido engolidos. Tive de ir buscar uma escada. Tinha ido com Paula e Tonya ao cinema, e depois do filme elas foram beber um copo. Eu fui gritar para o carvalho. Onde se sentem primeiro as hesitações do amor, as suas bifurcações? Na pila? Na cabeça? Nas duas ao mesmo tempo?

Quando voltaram para casa, já eu estava no escritório, punheta batida. Mas desta vez o autocarro só tinha duas passageiras e entraram juntas porta adentro.

 

Em si mesma, a história do vírus é-me indiferente. Vírus há muitos, como chapéus. O que me intriga, interessa, fascina é estar a assistir, da minha casa perdida nos limites da cidade, ao primeiro episódio de histeria colectiva global. Nada escapa à globalização, nem o irracional. Os palermas do altermundialismo deveriam pensar nisto: o Homem não é como fruta no supermercado. Não se pode escolher só a boa. Vem tudo junto e não se pode separar. O Homem de hoje não é muito diferente daquele que na caverna de Platão via as sombras. Ou daquele de que fala Eliot, que não pode suportar muita realidade. Somos propensos ao medo e ele espalha-se pelas fibras ópticas. Todos iguais, no fundo. Nós e os que nos precederam, caçavam mamutes, temiam o Adamastor ou mandavam queimar bruxas. Comento isto com Bill, amigo do Facebook. Digo-lhe:

— Nas histerias colectivas, as pessoas aceitam o colectivo, mas recusam a histeria.

Bill responde-me que não é histérico.

— Eu não sou histérico!

Como os malucos dizem à entrada do manicómio que não são loucos e os presos no presídio que são inocentes.

 

O problema é o risco, «gerir o risco». O problema é a morte. Desapareceu do radar, a morte é uma inconveniência, uma maçada, uma avó bêbeda que se hesita em trazer à sala quando há visitas. Tão limpa, tão rara, tão ausente. É preciso gerir o risco, não vá ele trazer inopinadamente a velhota já grossa para o meio das visitas. Para o Bill, é fácil, claro. Tem mais certezas na cabeça do que tem cabelos. Não há dúvida que ali penetre — nem dúvida nem pente, de resto. O homem é a personificação daquele verso de Blake: «Tudo aquilo em que se pode acreditar é uma imagem da verdade.» Só que para ele não é uma imagem: é a verdade, em três dimensões e numa mistura de granito, bronze, basalto e aço inox. Nem uma bomba atómica ali entra. A cabeleira protege-o da realidade, mantém-na à distância, carapuça bonita e loira. As pequenas gostam: não é só o riso que as leva à cama, as certezas também são muito eficazes para o efeito. Já alguém com dúvidas seduziu uma mulher? Isso e a música. Bill é músico, conhecido na praça, está sempre a ser entrevistado nas televisões. Nunca percebi por que carga de água lhe fazem perguntas sobre tudo menos sobre a única coisa de que ele pode falar decentemente. A mim, ninguém pergunta nada; ainda bem, não sou conhecido, mas tenho tanta autoridade para falar de vírus, do presidente dos Estados Unidos ou da cor da Fanta Laranja como ele para falar de tudo e mais alguma coisa. Isto não é para dizer que deviam entrevistar-me, é para dizer que não deviam entrevistar o Bill. Os músicos que falem de música e dos seus engates, se quiserem. Para o resto, deixem-nos em paz. Quem diz músicos diz actores, escultores, performers (não perguntem) ou o resto da fauna. A única excepção a esta regra é Leonard Cohen, mas esse não era artista. Era um homem e por isso podia falar da humanidade e de tudo o que lhe apetecesse ou lhe perguntassem. E talvez Hemingway também. E Mark Twain. São pessoas que viveram. Enfim, não interessa. Que se lixe a vida e a leve a morte. Paula morreu, tenho de viver com isso, quer queira quer não. Presentemente, a minha vida é Tonya e pergunto a mim próprio quanto tempo vai durar. Por enquanto, não preciso de comprimidos, ao contrário da maioria dos meus amigos, cuja troca de números de telefone agora se resume a números de vendedores clandestinos de pílulas azuis. Que será de nós quando o sexo desaparecer?

— Haverá uma nova superfície para o nosso silêncio se manifestar —responde-me.

Paula morreu em casa. Estava morfinada havia semanas, esqueleto coberto de pele. Quando me falou pela última vez, já mal a consegui ouvir.

— Ela gosta muito de ti.

Como não tínhamos filhos nem ela irmãs, não houve partilhas. Fiquei com tudo o que lhe pertencia. Pus as coisas num dos quartos de cima, no qual só a mulher-a-dias entra e hoje é conhecido como «o quarto da Paula». Livros, cadernos, discos, roupa, meia dúzia de objectos. Tonya pergunta-me:

— Quando eu morrer, vais fazer o mesmo com as minhas coisas?

— Quando tu morreres, a casa será tua. Farás tu o que quiseres.

— Quando tu morreres, nada será meu.

— Quando eu morrer, miúda, tu poderás finalmente viver.

— Cala-te e come-me.

— Ainda é cedo, nem jantámos sequer.

— Nunca precisaste de horários, não é agora que vais começar.

 

Tonya era pequena, encaixava-se em qualquer espaço. Meço quase uns vinte centímetros mais do que ela e encaixo-me naquele corpo como as tardes de domingo nas semanas.

 

III

Paula era psicóloga, dava aulas de Psicologia Social na faculdade. Pergunto de mim para mim o que diria deste pânico cego. Sei a resposta:

— Acreditas demasiado na razão e no teu solipsismo para poderes perceber estes movimentos colectivos. O gregarismo tem vantagens e, como tudo, tem inconvenientes. O medo é útil até um certo ponto e paralisa-te para lá dele. Multiplica isso por milhões de pessoas: a paralisia anula por completo a utilidade. O medo é como os venenos: depende da dose. Quando entras nestes fenómenos colectivos, torna-se impossível controlar a quantidade. O medo de um alimenta-se do do outro. Como diz uma professora da Universidade de Houston:1 «A ansiedade é contagiosa.»

— Sim, mas neste caso as pessoas estão a prejudicar-se, estão a suicidar-se.

— Estão? Tens a certeza? Um toxicómano também está a suicidar-se? Um alcoólico está a suicidar-se? Um aventureiro está a suicidar-se?

— Estão, mas tira o suicídio da equação. Viver é uma longa forma de suicídio. Explica-me o prejuízo que estão a infligir-se.

— Em 1977, uma senhora chamada Frieda Gehlen2 publicou um artigo no qual tentava explicar as razões das histerias colectivas. Comparou duas possibilidades: a resposta a um stresse ou uma «mania» à qual as pessoas aderiam inconscientemente — repito, a adesão era inconsciente — esperando obter uma vantagem qualquer, mesmo insignificante ou imaginária. Neste caso, a «vantagem qualquer» é a vida — a própria, a dos mais velhos ou a dos filhos. Pensas realmente que é com argumentos racionais que combates isto?

 

O dia cai e tenho de interromper a conversa com Paula. Não me apetece fazer amor, nem cozinhar, ler, ver televisão — não tenho, mas se tivesse não quereria vê-la, decido — nem falar. Nem trabalhar, sequer. Mando uma mensagem a Tonya:

— Se comparares com muitos outros episódios de histeria de massas que ocorreram ao longo da história, verás que este foi relativamente benigno. Ou melhor: achatou a curva das consequências. Vão sentir-se durante muito tempo.

— ?

— Desculpa, enganei-me. Estava a pensar noutra coisa. Vou fazer um jantar enorme, ler e dormir. Hoje, terás de fazer sem mim.

— Não te preocupes, também não tenho vontade de nada. Estou farta. A tribo que a Ana estudou era canibal ainda há bem pouco tempo e ela suspeita de que de vez em quando ainda comem um gajo qualquer da tribo ao lado. Hoje, pensei que se calhar eram mais razoáveis do que pensamos. Boa noite.

 

Uma coisa é estar fechado porque se quer, outra completamente diferente é estar fechado porque os nossos semelhantes no-lo impuseram. A palavra-chave é «semelhantes», como diria Samuel. Oiço a Ressurreição de Mahler e o cérebro limpa-se-me, fica oco como gostaria que fosse sempre. Estar fechado é um paradoxo: fica-se cheio de vazio. Fica-se oco, cheio de uma coisa qualquer que não se sabe o que é.

À medida que os dias passam, as noites transformam-se num inferno. Sempre dormi bem, mas agora passo noites inteiras em claro, Tonya ou não-Tonya. Diminuímos bastante o ritmo das nossas «cenas», como ela lhes chama.

— Hoje, quero uma cena diferente. Vamos fazer sem imagem, só com som.

No dia seguinte:

— Agora, fazemos o contrário: só imagem.

 

O som funciona melhor do que a imagem. Até para o silêncio há limites.

Paula nunca gritou muito. Um orgasmo nela era como um pneu a esvaziar-se. Uso a imagem propositadamente: quando acabávamos, parecia um pneu furado. Um dia, disse-lho e ela começou a dizer «furar» em vez de «foder», «comer», «ir para a cama». Isso permitia-lhe brincar quando estávamos acompanhados. «Aposto que tenho um pneu que se vai furar não tarda.» «Hoje de manhã, o pneu do carro furou-se. Ainda bem que aprendi a mudá-los num ápice. Dá-me cá um gozo…» Certa vez, um amigo nosso disse-lhe:

— Estás sempre a ter furos nos pneus. Por onde é que andas com o carro?

— Nem tu fazes ideia dos caminhos por onde me perco.

Nesse dia, acabou-se a conversa dos furos, pelo menos quando tínhamos gente à volta. Pergunto a mim próprio por onde andará hoje, que só tem a minha memória — e a de quem a conheceu, claro — para se «perder».

Ao contrário de Tonya, Paula era alta. Portuguesa, de tão mulher. Havia mais sensualidade num dos seus dedos do que em muitos corpos que conheci. Foi com ela que me habituei a fazer amor todos os dias, duas vezes por dia. Era um amor rápido, vinte minutos, meia hora. Às vezes era igual, outras não. Era sempre bom. A minha avó enganava-se de quando em quando. Eu também. Não era só a inteligência de Paula, a sua sensualidade, o seu sentido de humor, a sua vitalidade que me faziam gostar tanto de a furar. Não havia nada que não gostasse de fazer com ela: conversar, passear, comprar livros, ir jantar fora, tomar banho, esperá-la na pastelaria em frente da universidade quando por acaso tinha vontade disso. A pastelaria estava cheia de alunos e alguns sabiam que era o marido de Paula Gouveia. Nunca mais lá voltei, nem quando Tonya vai dar uma aula ou fazer uma palestra. O tempo é composto por camadas geológicas que não se misturam, mesmo que coexistam. Não: o tempo é composto por camadas geológicas que não devem misturar-se. Na verdade, acabam sempre por amalgamar-se e tudo o que consigo é separar as franjas: não ir esperar Tonya à pastelaria, não ir com ela à praia onde pela primeira vez fiz amor com Paula e onde, anos mais tarde, lhe disse que talvez não fosse má ideia casarmo-nos.

— Curioso, estava precisamente a pensar o mesmo.

Mas isto são só as franjas, eu sei. Impossível fugir à realidade nesta enorme caixa de ressonância, dela separada por um conjunto de normas absurdas. Enfim, digo que são absurdas mas, na verdade, não sei o que são. Numa democracia, o governo deve fazer o que o povo quer. Uma democracia é — entre outras coisas — dar ao povo o direito de se enganar. Antes um erro em liberdade do que uma boa decisão totalitária.

— A sério? — Paula pergunta-me com o olhar sardónico que me atraiu quando nos conhecemos. — Vais acabar a dizer que as sociedades precisam de um chefe? De um comandante? — O pai dela havia sido comandante da marinha mercante e tinha uma certa tendência para pensar que uma sociedade deveria ser gerida como um navio, opinião que eu contestava energicamente.

— Porra, Paula, cala-te. Deixa-me pensar.

— Não sou a Paula, querido. Sou a Tonya. Estás a trocar os nomes, mas não me importa. Pensa. Compreendo que para ti não seja fácil. Um misantropo humanista entra num bar…

Há duas semanas que não fazemos amor, Tonya e eu. Há uma que nem sequer nos falamos. O confinamento invade-nos, rói-nos por dentro como aquelas formigas que na madeira vão traçando túneis separados. Por fora, a madeira não muda, mas de repente juntam-se e o edifício desaba. Conseguiu um voo para finais de Maio, meados de Junho o mais tardar. Faltam três ou cinco semanas.

Que encontrará nesta casa? Que acontecerá às coisas de Paula?

 

IV

 

Tonya:

A prova de que tenho uma vida é que as mulheres da minha vida passam a vida a fugir de mim. Tenho uma vida ciumenta, é o que isso quer dizer. Mas se na minha vida não há lugar para ti, que se foda a minha vida. Ser amado por ti é uma sorte que não mereço, mas que agradeço todos os dias. Já te vi nua, vestida, ansiosa, saciada, sorridente e decepcionada. Já te vi pelas frinchas todas que uma pessoa tem. Já te vi como se fosses eu. Quero amar-te e foder-te, ouvir-te e ver-te. Quero te na minha vida e que nunca dela saias, sem te, sem hífen, sem nada entre nós. Amo-te até «amo-te» perder a cor, de tão esfregado, limpo, rasgado, raspado até não ser mais do que a essência de «amo-te», aquilo que dele resta depois de ser repetido um milhão de vezes.

Monologar para ti é melhor do que dialogar com quem quer que seja outro, e se pudesse foder-te com palavras, foder-te-ia até acabarem as letras do alfabeto, de todos os alfabetos de todas as línguas do mundo. Se pudesse foder-te com silêncios, o silêncio desapareceria e o mundo transformar-se-ia num interminável trovão. Se pudesse dizer-te quanto te amo, esgotaria todos os dicionários do mundo. É sempre a ti que volto, a ti que regresso, como se fosses o princípio e o fim, como se o que começou em ti acabasse em ti forçosamente, como se a nascente e a foz do rio fossem a mesma coisa.

Só que isto não é um rio: não tem margens.

Fui o primeiro a dizer «amo-te» e tu foste a primeira a calá-lo. Continuo a dizê-lo e tu a senti-lo. O fim deste fim está próximo — tudo é breve, num amor como o nosso, que não tem tempo. Tudo será amanhã, tudo foi ontem. Só nos falta o hoje, porque no-lo roubaram.

Felizmente, teremos tempo para lhes roubar o tempo que nos roubaram.

FIM

10-05-2020

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