Táxis e outras nobrezas

por Luís Serpa

Li recentemente um texto sobre táxis que me fez pensar nos táxis em que já viajei. Estava em Marrocos quando o li e a primeira memória, ainda fresca, foi a de Mohammed, o “meu” táxi de Casablanca.

Há dois anos tinha que ir para o aeroporto e fui com o Mohammed. Já tínhamos preparado a corrida, combinado que ele me encontraria num sítio qualquer e o preço. Quando nos encontrámos faltavam-me dez ou quinze dirhams (em duzentos, creio), já não me lembro porquê, mas ele concordou em levar-me. Chegados ao aeroporto, viu que eu esvaziava a carteira para lhe pagar, e disse-me “não me dês tudo o que tens, guarda alguma coisa para ti, podes querer beber ou comer enquanto esperas pelo avião”. Dei-lhe o dinheiro todo, claro. E guardei o número de telefone dele. Desta vez, telefonei-lhe para me vir buscar e paguei-lhe com juros, muitos juros, os dez dirhams da outra

O carro de Mohammed estava ainda pior do que há dois anos, cheio de ferrugem e buracos – mas como ele me disse no caminho “não importa com o que vais, importa com quem vais”. É uma grande verdade, Mohammed.

Os meus táxis favoritos, de longe, muito longe, são os do agora Congo, então Zaire. Aí importava com o que ias: os carros eram monumentos à engenharia ocidental (normalmente francesa) e ao engenho dos proprietários, eram peças de arqueologia industrial, milagres em quatro rodas. Uma vez, em Kolwezi, entrei num cujo “depósito” de gasolina era um jerrycan de 5 litros colocado entre os pés do passageiro da frente. Os bancos eram as molas originais, suponho, com um cobertor por cima. Mal cheguei à cidade troquei de táxi – para descobrir, duas horas e muitas andanças depois, que neste o “depósito” (um jerrycan igual) estava colocado no sítio da bateria, ao lado do motor (a bateria estava no porta bagagens, e os cabos atravessavam alegremente todo o veículo). Os bancos eram semelhantes, mas disso apercebi-me imediatamente – os cobertores nunca eram muito espessos, verdade seja dita. Os sul-africanos, incrédulos, pediram ao senhor para os deixar tirar fotografias. Ele deixou, orgulhoso.

Os chauffeurs de táxi zairenses são os melhores do mundo, qualquer que seja o critério pelo qual os avaliemos: têm uma cultura política equivalente à de futebol dos nossos – numa viagem de meia hora fica a saber-se quem é quem, quem é caro e quem não é, quem está com ou contra quem; e quantas vezes uma hora de conversa com as personalidades citadas durante a viagem confirmou tudo o que o (ou, mais frequentemente, os) condutores interrogados nos tinham dito. Eram uma fonte de informação insubstituível.

Mas não é só na política que eles são bons: desafio qualquer condutor do mundo a fazer mais quilómetros com uma dada quantidade de gasolina do que um chauffeur zairense – o que, para além das evidentes vantagens ambientais, dá origem à condução mais suave, menos abrupta, com menos solavancos que jamais me foi dado experimentar.

Na Rússia os táxis funcionavam como mini-autocarros – o preço era por pessoa, e não por trajecto. Andavam sempre cheios a abarrotar, claro. Frequentemente, o cheiro a álcool era tal que uma pessoa pensava que tinha entrado numa destilaria de vodka. Normalmente, os condutores eram brutos como as casas – mas um dia encontrei um com quem discuti Dostoievsky a viagem toda. Comprei-lhe os lugares todos do carro, para podermos falar à vontade e no fim fomos beber um copo, os dois. Quando o deixei estávamos os dois perdidos de bêbedos – ele levou-me até ao porto gratuitamente, ainda hoje não sei como o carro não saiu da estrada algumas cinquenta vezes, naquelas estradas geladas e cobertas de neve.

O mesmo princípio vigora nos “taxis co” da Martinique (“co” é a abreviatura de colectivo), mas aí a viagem é uma festa, com as pessoas a entrar e a sair de cinco em cinco metros, todo o mundo em animada discussão, incluindo o condutor; por vezes, no intervalo dos diálogos, ele até olha para a frente e consegue sistematicamente evitar as cabras, galinhas, cães e gatos que se lhe atravessam à frente (os peões desviam-se sozinhos).

Pensei também nos táxis em que nunca andei: os chapas de Moçambique, por exemplo (uma vez contei vinte e sete pessoas, vinte e sete, num minibus de nove lugares, incluindo condutor). Enfim, exagero, talvez, mas se não eram tantas eram pouco menos: só nove ou dez estavam sentados nos sítios que os fabricantes tinham previsto para vidros e janelas, com as pernas para dentro e os rabos todos de fora, como sacos de batatas. A certa altura o Governo moçambicano resolveu implantar o respeito pelos sinais de trânsito e multar os condutores que passassem com o sinal vermelho. Foi o levantamento geral – um dos chauffeurs, numa entrevista à televisão, justificava a sua recusa perante tão bárbara e violenta regra dizendo, com uma convicção incomparável, “eles têm de perceber que nós estamos a trabalhar!”

Deixo de fora outros táxis, mais próximos, mas não menos exóticos: os de Londres, por exemplo, nos quais se tem a impressão de estar a ser conduzido por um chauffeur privado (nos cabs. Os minicabs são outra história, mais banal); os de Paris, que me fazem pensar nos seus colegas portugueses com um pouco de patine em cima. Ou aqueles que são a minha nemésis taxística, os de Genebra, cujo preço – mesmo para a mais pequena das corridas – equivale à primeira prestação de um automóvel novo.

II

Escrevi o texto supra em 2008. Desde aí, muitos táxis se vieram juntar à lista: o Aléxis, na cidade de Panamá, com quem percorri a cidade durante quatro meses, quase todos os dias. Lembro-me do seu pudor, da amizade real que nos ligou, da empatia. Nunca soube a idade dele. Percorremos a cidade de Norte a Sul, de Leste a Oeste, estivemos juntos nos maiores engarrafamentos que alguma vez vivi, emprestámo-nos dinheiro um ao outro, almoçámos juntos dezenas de vezes… Ou o Maciel, em S. Luis, outro homem bom, que via na televisão os programas da National Geographic e no dia seguinte me fazia perguntas sobres os países de que os programas falavam. Era uma daquelas pessoas que nos fazem odiar os sistemas políticos que não dão educação a quem a merece. Convivemos quotidianamente durante cinco meses e ainda hoje penso nele, na sua gentileza, na sua condução, tão suave, tão cuidadosa.

E para terminar, uma história recente em Palma:

O táxi pára, o chauffeur diz-me masquerilla, assim, sem mais: masquerilla. Fechei a porta e vim-me embora. Não nasci para receber ordens de taxistas. Fui gratificado: o que apanhei a seguir respondeu a uma inocente pergunta minha sobre a marcha do negócio e contou-me a vida toda, desde os sete anos – o pai pô-lo a guardar porcos – até hoje, que já devia estar reformado mas não está: a mulher não o suporta e ele não a suporta a ela, o que explica que aos sessenta e oito anos continue a conduzir um táxi (que agora não sabe como há-de pagar, porque o comprou mesmo antes do vírus). No entretanto fiquei a saber o que ele faria à jovem acrobata que no cruzamento faz acrobacias com o namorado (ou melhor: «o que ela me faria, que estou com sessenta e oito anos»).

Chauffeur de táxi é uma profissão nobre, como barman, cozinheiro… ele há tantas. São profissões que ocupam um espaço grande na vida de um desenraizado: são elas as primeiras que nos ligam à terra onde estamos, ou aonde acabámos de chegar.

Luís Serpa, Palma, 12/06/2021

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