Szabó deixou o FC Porto por causa de um murro e pôs o SC Braga à Arsenal

por LMn

Por António Simões

Com o FC Porto a jogar em Braga, o que aqui lhe vamos contar é a maravilhosa (e dramática, sobretudo por aquilo que aconteceu aos filhos futebolistas…) história de vida de Joseph Szabo, o treinador que deu ao FC Porto o primeiro título de campeão da Liga. De lá saiu por causa de soco a um dirigente (a razão dele é um espanto para se descobrir adiante, metendo sacos de equipamentos numa ambulância…) e, indo para o SC Braga, pô-lo a jogar com camisolas como as do Arsenal…

Joseph Szabo nasceu a 11 de maio de 1896 em Gonyu, aldeia de pescadores nas margens do Danúbio. Aos quatro anos, a família mudou-se para Gyor, não muito longe dali, para que o pai pudesse trabalhar numa das fábricas que por lá abrira – e foi num bairro miserável de operários que descobriu o dom para a bola:

– Aos 14 anos comecei a trabalhar no ofício de torneiro mecânico, qualquer hora livre era para jogar futebol de calções de banho, não tinha outros.

Ainda antes dos 20 anos, o Ferencvaros desafiou-o para Budapeste, prometendo-lhe emprego numa fábrica de munições. Aceitou, encantado, e pouco depois já estava a jogar na seleção da Hungria como médio-centro:

– 13 vezes fui internacional, com o Béla Guttmann. O Guttmann tinha grande pontapé, quase todos os domingos marcava o seu golo – por causa da perseguição aos judeus, de um dia para o outro, ninguém mais o viu por Budapeste.

Szabo nada recebia para jogar futebol apesar do deslumbramento que lhe saltava, cada vez mais, dos pés:

– Tinha o ordenado da fábrica de munições e ajudinhas especiais do diretor. Não, não era dinheiro, eram só umas dispensas por favor, para alguns treinos, alguns jogos, sobretudo no estrangeiro.

Do jogo em Lisboa com o Benfica marcado por «violências e incorreções» à ida a Sintra «montado num burro»

Sendo a estrela que iluminou o caminho à vitória do Ferencvaros no campeonato de 1925,  o Szombathely pediu que lhe emprestassem Szabo para reforçar a sua equipa numa digressão pela Europa que passava por Portugal. O primeiro desafio em Lisboa foi contra o Benfica e ele recordou-o, divertido, numa entrevista a Alfredo Farinha em A BOLA:

– Aquilo foi uma ladroeira! Logo nos primeiros momentos, o árbitro marcou penálti sem sabermos porquê. Falou em português, não entendemos nada. Fomos para o ataque e… 10 minutos depois outro penálti, ainda mais estranho. Queríamos entrar na área e… cheta! De maneira nenhuma. O árbitro não deixava. Então, começámos a atirar de longe. Marcámos de 18 metros, de 20, de 22, de 30 metros – e ganhámos por seis ou sete! Não entrámos na grande área, mas não foi preciso.

Foi em dia de natal esse Szombathely-Benfica e acabou em 6-0. Mário de Oliveira contou-o na sua História do Sport Lisboa e Benfica: «Os húngaros já tinham batido o Império e o Belenenses por 5-0 e 2-1 e o onze húngaro, forçado pelo ardor posto na luta pela equipa rubra, a cuidar da defesa, desorientou de modo a recorrer a violências e incorreções que o árbitro não puniu devidamente. Jorge Tavares foi expulso por agressão em resposta à violência de um adversário; e Mário Montalvão não pôde alinhar na segunda parte por haver sido atingido, brutalmente, com um pontapé. O capitão do Szombathely viu-se obrigado a mandar sair um dos seus jogadores, a meio do segundo tempo. Não admira, pois, que tenhamos perdido por 6-0». Ou seja, se houve, como Joseph Szabo afirmou, dois penáltis a favor Benfica (que em jogo teve, entre outros, Francisco Vieira, Luís Costa, José Pimenta – não pôde ter Ribeiro dos Reis devido a «compromissos militares), nenhum deles deu em golo.

Ao Benfica seguiu-se embate com a seleção de Lisboa – e nova vitória do Szombathely por 3-2. Espanto foi o que sucedeu depois contra o Sporting (nesse Sporting de Cipriano dos Santos, Jorge Vieira, Serra e Moura, José Manuel Martins, Filipe dos Santos):

– É verdade, perdemos enfim, perdemos 2-1. Coisas do futebol, foi o nosso mau dia – e já estávamos cansados de tantos jogos seguidos.

De Lisboa lançou-se o Szombathely a Setúbal para defrontar o Vitória – e Szabo lembrou-o:

– As estradas… meu Deus… Os solavancos eram tão grandes que as cabeças batiam nas capotas. Decidimos apear-nos dos carros e ir a pé. Depois, também nos deram passeio a Sintra, fomos todos montados a burro…

 

 

Depois do jogo no Funchal, a carta que chegou a Budapeste mudou-lhe a vida

A etapa seguinte foi a Madeira e o esplendor do Szombathely (e de Joseph Szabo) foi igual ao que fora em Lisboa e em Setúbal:

– Não muito depois do nosso regresso a Budapeste chegou uma carta ao clube com o meu nome. Era de um dirigente do Nacional a desafiar-me para o Funchal. Fiquei atrapalhado porque estava em vésperas de casar, a minha mulher até já estava à espera de bebé. Arrisquei, aventureiro: pedi apenas que me dessem o que pudessem e desse para não vivermos mal, à míngua.

Szabo fez do Nacional campeão da Madeira de 1926/27. Saltou para o Marítimo. A caminho de três anos no Funchal, a seleção do Porto lá foi jogar contra a seleção da Madeira – e ele foi jogador e treinador. O Porto perdeu por 5-1, na sua baliza estava Mihaly Siska (húngaro que viera para o FC Porto como dentista, mas que, no fundo viera para jogar futebol, recebendo, clandestinamente, 500 escudos por mês para isso) – e ainda no portaló do barco, atirou o murmúrio a um outro portista:

– Temos de levar Szabo para nosso treinador.

Nos 13-0 ao SC Braga (com oito golos de Valdemar Mota) ao ator do Sporting que lhe evitou o primeiro Campeonato de Portugal

Não demorou a convencer-se o presidente do FC Porto. Urgel Horta (o médico que depois também seria deputado da União Nacional de Salazar) a oferecer-lhe 500 escudos por mês para render Alexandre Cal (que, nessa época de 1927/28, fora eliminado, em estrondo, do Campeonato de Portugal, pelo Salgueiros)– e Joseph Szabo disse sim. Com uma nuance, ao contrário do que fazia na Madeira, vinha sobretudo para treinar não vinha para habitualmente jogar e treinar.

A estreia oficial foi pouco auspiciosa, porém: da primeira jornada do Campeonato do Porto, saiu com derrota no Lima com o Leixões, por 3-1. Acertou o passo à dança, ainda foi campeão. O Campeonato de Portugal começou com 13-0 ao… SC Braga, no jogo em que Valdemar Mota marcou oito golos – e na eliminatória seguinte perdeu com o Sporting por 3-2, os dois golos do FC Porto também foram de Valdemar, os três do Sporting foram de Oliveira Martins, que ganharia muito mais fama, depois, como ator – protagonista  de filmes que fizeram história: Maria do Mar, Pupilas do Senhor Reitor, Rosa do Adro, Fátima Terra de Fé, Varanda dos Rouxinóis.

 

Foi fazer estágio ao Arsenal com dinheiro de um dos seus jogadores e veio de lá obcecado com sexo (e outras coisas…)

Em 1931/32, Joseph Szabo conquistara o seu primeiro título nacional ao bater, na finalíssima do Campeonato de Portugal, o Belenenses por 2-1 – e, em  1934/35, fez-se a primeira edição do Campeonato da Liga. O FC Porto ganhou-a, a festa fê-la na última jornada, contra o Sporting, no Lumiar. mesmo não podendo contar com Pinga, a estrela que trouxera do Funchal, nesse desafio. Notável contador de histórias, a propósito de Pinga revelou-o:

– O gajo quase fez com que eu perdesse a minha mulher. No FC Porto eu era tudo: treinador, jogador, massagista, guarda-noturno, inspetor, vigilante – vigilante para ter a certeza de que os jogadores não andavam nas malandrices. Antes de um jogo importante, percorri todos os lugares por onde poderiam estar, mas só perto das cinco da manhã encontrei o Pinga, num baile. Levei-o para casa, mas fiquei de atalaia em frente à porta até às sete da manhã, não fosse ele voltar a sair. O pior é que ao chegar a casa, quem é que convencia a minha mulher de que eu não tinha andado na pândega? Foi o diabo, o caso esteve muito sério, até se chegou a falar em divórcio…»

De prémio pela vitória no campeonato da Liga, Szabo pediu ao FC Porto que lhe pagassem um estágio em Londres, no Arsenal. O clube estava sem dinheiro e para lho dar organizou-se uma sessão cinematográfica – e Jerónimo Faria, um dos seus jogadores (e comerciante endinheirado), abriu a subscrição pública que se lançou para o mesmo efeito com oferta de seis contos. Quando ela fechou ainda faltavam nove contos à soma do gasto – e esses nove contos que lhe faltavam também foi o Jerónimo a entregar-lhos:

– … mas, no caso, já só, por empréstimo, apenas. 

Assim foi para Londres, encantado ficou com os treinos sob ordem de George Wilson, o sucessor de Herbert Chapman – e, no regresso ao Porto, ouviu-se-lhe em clamor:

– Lá, a disciplina é de ferro. O treinador entra no balneário, se não como um semideus, pelo menos como pessoa que é obedecida. Entre ele e os jogadores há a diferença que existe entre um general e um soldado. É o que vai começar a haver no FC Porto.

Szabo passou a viver obcecado com o «sexo dos jogadores», passou a multá-los em «10 per cente» do ordenado nos atrasos (mesmo de um minuto) nos treinos quase pela madrugada – e até instaurou coima de um por cento a quem, nas peladinhas, chutasse isolado e falhasse o golo! Outra das inovações ficaram os jogadores a conhecê-la, logo no primeiro treino da nova época:

– … pô-los a correr, sem lhes permitisse que parassem, da Constituição à Circunvalação, sete quilómetros.

 

 

Com os jogadores a fugirem para a festa, mandou chamar a ambulância levou os equipamentos lá dentro – e deu soco ao dirigente que lhe chamou maluco

Dos footings à maratonista foram-se queixando, cada vez mais os pupilos à direção – que começou por consenti-los, mas, depois, achou que talvez fosse melhor não, obrigando-o a encurtá-los.

Os treinos continuou a dá-los, mesmo em alguns dias mais frios, naquele seu jeito que fez história, histórias nesses seus tempos de FC Porto: de tronco nu, meias caídas sobre as alpercatas, apito pendente de um cordão ao pescoço, sempre a movimentar-se, sempre a gesticular, soltando os seus brados característicos, num português algaraviado (e às vezes enganado…):

– Chegava a parecer impossível como tinha resistência e capacidade para fazer o que fazia, dia a dia, mês a mês, treinos assim tão intensos—

O FC Porto venceu o Campeonato do Porto de 1935/36 – marcado por  8-1 ao Académico, 7-1 ao Boavista e ao Salgueiros e 10-0 ao Leixões. Esse foi o jogo do fecho – e da festa. Os jogadores correram para o balneário, vestiram-se à pressa – e precipitaram-se para a cidade em busca de outras festas. Joseph Szabo atrasara-se no campo e, ao entrar, viu equipamentos espalhados pelo chão – e nem vivalma já por ali. Irritado, mandou chamara a ambulância que lá estava – e pediu que o levassem à sede, a ele e às camisolas, aos calções, às chuteiras que arrumaram em dois ou três sacos.

Vendo-o chegar de ambulância e sacos às costas, um dirigente, desmanchando-se em gargalhadas, disse-lhe que só de um maluco se poderia esperar coisa assim – e Szabo deu-lhe um murro. Puseram-lhe processo disciplinar a correr, lamentou-se:

– Chamar mi maluco porquê cuidei dê património dê clube? Nã podia admiti…

Começara o campeonato da I Liga de 1935/36 perdendo em Lisboa com o Sporting por 3-2, batera a Académica por 5-1, à terceira jornada empatou 2-2 com o Benfica – e despediu-se. Despediu-se por se sentir agastado com o processo – mas pior:

– … por a direção ter revogado a ordem que permitia os footings da Constituição à Circunvalação.

Era já fevereiro, fevereiro de 1936, quando Eduardo Dumont Villares colocou Magyar Ferenc no seu lugar, apanhando-se a Szabo a mágoa em fogacho:

– Não, eu não era só treinador, não tinha sido só jogador e treinador, eu treinava, eu jogava, eu ajudava a conservar o campo, ajudava nas massagens, ia cuidar dos atletas das outras modalidades, por isso o jantar era muitas vezes à meia-noite e, no dia seguinte, às sete da manhã já estava no campo, pronto para cruzar o campo da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, para dar pontapés aqui, pontapés ali, ensinar os rapazes e os senhores como chutar bem, quando ainda era treinador e jogador, trabalhava mais do que os próprios jogadores, mas era assim, só assim que eu era feliz…

 

O FC Porto arrependeu-se, marcou assembleia para autorizar o seu regresso, o Sporting antecipou-se

Em Braga já havia o Liberdade Liberdade Football Club, o Sport Clube de Braga, o Estrela Football Club – e, por janeiro de 1921, fundou-se o Sporting Clube de Braga. O nome não se escolheu em vão: havia entre quase todos os seus fundadores simpatia pelo Sporting Clube de Portugal – e, por isso, também foi de verde e branco que, logo depois, se lançou ao primeiro «jogo a sério», contra o Algés e Dafundo, no campo do Colégio do Espírito Santo.

De verde e branco (umas vezes com mais verde que branco) e calções pretos continuava o SC Braga (que também entrara com donativo na subscrição para o seu estágio em Londres) – e mal soube da notícia da sua polémica saída do FC Porto, desafiou-se Szabo para Braga. Aplicando-lhe os «métodos do Arsenal», logo se lhe notou o seu fulgor. Ao invés, sem ele, entraram os portistas em travessia de deserto – e quando Camilo Moniz, um dos jogadores do primeiro título de Campeão de Portugal em 1921, assumiu a presidência do FC Porto achou que era hora de Joseph Szabo voltar. Preparou Assembleia Geral para o autorizar, mas já não foi a tempo, Joaquim Oliveira Duarte anunciou-o treinador do Sporting a 27 de fevereiro de 1937, oferecendo-lhe condições nunca vistas em Portugal:2000 escudos por mês de ordenado, 50 escudos por cada empate, 100 escudos por cada vitória, 1000 escudos pela conquista do Campeonato de Lisboa, 2000 pelo Campeonato de Portugal e 3000 pelo Campeonato da Liga.

(Um par de botas de futebol custava, então, 70 escudos, umas sapatilhas de ginástica 50 – e as bicicletas compravam-se a prestações mensais de 50 escudos, os mais altos funcionários públicos tinham salário de 700 escudos. Um rádio Garod custava 1750 escudos, só algum tempo depois é que correria, pelos jornais, publicidade ao «modelo mais barato do mercado»: os «receptores Phillips 141» – com imagem de Fernando Pessa, «o locutor português da BBC» – a 750 escudos, cada.)

Viera do Académico do Porto, nessa meia época no Lumiar não conseguiu mais do que apanhar os cacos que encontrara à chegada – ainda assim levou o Sporting à final do Campeonato de Portugal de 1936/37, perdendo-a para o… FC Porto. Na véspera Szabo não deixara que se perdesse o seu futuro: recebera Fernando Peyroteo à experiência, ficara encantado com ele – correndo à sede do clube então montada no glamour do Palácio Foz a recomendar à Direção que assinassem tudo o que fosse de assinar na hora, que Peyroteo era um diamante como nunca vira – e ele, o Peyroteo, recordou-o na sua biografia:

– Pediram-me que comparecesse na AFL imediatamente, assim fiz, foi-me presente, para assinar, o contrato. Sem o ler, sem fazer perguntas — tal como prometera a Queiroga Tavares no dia da chegada — assinei-o. Elaborado como estava, só dava garantias a uma das partes — ao Sporting! — embora, na aparência, me fossem conferidos alguns direitos. Por ficar preso ao clube até 1939 recebi de prémio a quantia de 500 escudos. Fixou-se um ordenado mensal de 700 escudos mas, segundo creio, o contrato incluía uma cláusula que permitia ao Sporting baixar aquela verba no caso de eu me empregar. O senhor Francisco Franco administrava um fundo especial, denominado Caixa dos Leões (que era uma quotização dos carolas) e dela saíam quantias destinadas a reforçar os ordenados de alguns jogadores. Aos que mereciam, o senhor Francisco Franco dava, por fora, 200 ou 300 escudos mensais. Felizmente, nunca me faltou com esse subsídio extraordinário…

 

 

Treinava de chicote na mão, mas também era capaz de ficar a massajar com álcool o Peyroteo que pusera de rastos (ou a ligar-lhe os pés por ele, nervoso, não ser capaz…)

Na temporada de 1937/38, a sua primeira completa no Sporting, começaram a notar-se mais vincados os efeitos da «revolução Szabo»: juntou ao título de Campeão de Lisboa, o de Campeão de Portugal – e Peyroteo também contou como foi esse seu primeiro dia como jogador do Sporting, jogador de Szabo. Equipara-se em silêncio, escutando apenas o coração que arfava, à saída da cabina, a surpresa, o treino não se fez no campo de futebol, com bola, como se fazia em Luanda:

– Para começar, demos, em marcha forçada, três voltas ao Jardim do Campo Grande e na ponta final, desde o lago até à cabina, o trajeto foi feito em corrida lenta. Os meus camaradas suportaram o treino com a maior naturalidade, porque já estavam habituados. Quanto a mim, só posso dizer que ao sentir no corpo as primeiras gotas de água do chuveiro, tive a sensação de ser agredido à pedrada. Se não fosse a vergonha tinha-me sentado no chão e deixado correr a água do duche até morrer afogado. Com os meus 19 anos, cheio de orgulho e vaidade, não gostava de servir de bobo. Reagi e deixei perceber que estava pronto para outro passeio igual, mas, na realidade, preferia atirar-me para o chão e ficar ali algumas horas a descansar. Sentia tantas dores nos músculos das pernas que mal podia com o peso dos pés e estes, por sua vez, causavam um mal-estar insuportável.

Joseph Szabo, pressentindo o estado em que deixara Peyroteo, pediu-lhe que não saísse da cabina, que esperasse por ele – e quando todos os outros seus pupilos já tinham partido, massajou-lhe as pernas com álcool. No dia seguinte, nova estopada de nove quilómetros. No final da semana, contabilizou 54 quilómetros de corrida. Bola? Quase não a cheirara. Sábado, com os restantes companheiros, cumpriu outro ritual:

– Fomos todos tomar um banho de imersão aos balneários do Poço do Borratém. Água a 30 graus e, depois, massagem do treinador, para recompor os músculos que tinham sido massacrados durante toda a semana.

Eram assim os métodos de Szabo. Treinava de chicote na mão, preparava os pupilos como militares a caminho da guerra mas também era capaz de impulsos de ternura, como o que aconteceu na estreia oficial de Peyroteo, em outubro de 1937, nas Salésias, contra o Benfica. Nem o chá de tília que lhe tinham aconselhado lhe amansara os nervos, tinha os dedos em frenesim e o coração ainda mais:

– Estava tão perturbado que foi necessário ‘mister’ Szabo ligar-me os pés — trabalho que eu fiz sempre antes dos treinos! Todos falavam, as piadas vinham de todos os lados e só um homem se mantinha calado: o treinador. Quando faltavam apenas 10 minutos para entrarmos em campo, Szabo fez diversas recomendações sobre a táctica a empregar e disse: ‘Muita atenção, sinhores. A avançado-centro jogar Férnando. Rapaz novo não ter experiência dê jogo. Sinhores mais vélios ajudar para ele, bem dê clube! Não fazerem malandragem! Não ter graça nenhum! Brincadeira custar 10 per cente para sinhores’.

Depois, mais um último aviso, se lhe soltou:

– Sinhor Férnando não perturbar com jogo. Não ter importância nenhum jogar mal. Gajos ir dizer para si coisas feias. Não engolir a isca, Férnando. Fazer dê conta ter algodon nos ouvidos. Não esquecer principal papel dê avançado centro: caréga Maria!!!

«Caréga Maria» era, na gíria de Szabo, atirar ao golo.

No Sporting, Joseph Szabo ganhou (entre várias outras coisas mais) os campeonatos nacionais de 1937/38, 1940/41, 1943/44 e a Taça de Portugal de 1940/41. Como deixara de ter o apoio incondicional de Joaquim Oliveira Duarte, Amado de Aguiar, o novo presidente, achou que sim, que já ninguém lhe suportava bem os «maus fígados e as tentações de ditador», abrindo a temporada de 1944/45 com Joaquim Ferreira (que haveria de ser assassinado no Parque Eduardo VII após a conquista da Taça de Portugal) a treinador.

A filha fugiu da Rússia a pé (e não foi só isso que lhe deu a odisseia), o filho foi atropelado depois de sofrer quatro golos do Sporting

Despedido do Sporting, Joseph Szabo regressou a SC Braga – e a história marcou-a de pronto ao convencer os seus dirigentes a mudarem-lhe o equipamento, a passarem a usar o que o Arsenal usava (o Arsenal não deixava, pois, de ser o seu fascínio, o seu farol).

Não, não foram muitos os meses que Szabo se manteve em Braga porque, a troco de 1500 escudos por mês, Cesário Bonito pô-lo de novo a treinador do FC Porto. Estava já  na Constituição a apanhar cacos de uma derrota com o Sporting quando recebeu mensagem de um campo de refugiados de Itália, era da filha Margarida da Glória. Ela nascera em Cedofeita mas antes ainda dos dois anos os pais mandaram-na para Szombatheby, para ser criada pelos avós, lá a apanhara a guerra entre russos e alemães.

– Com a cidade toda destruída, consegui agarra um dos muitos cavalos já sem dono que erravam pelos campos e montada nele fiz corrida de 100 quilómetros até alcançar Iudenburgo, na Áustria: foram três dias por searas sem fim, de noite acoitava-me numa moita, com um ou outro camponês trocava marcos por um copo de leite, um naco de pão. Em Zellwog fui detida pelas avançadas cossacas. Queria atingir Portugal, vir para junto do meu pai, da minha mãe, dos meus irmãos. Os russos meteram-me num comboio, disseram-me que era para voltar à terra dos meus avós, eu pensei que me iam mandar para a Sibéria. Com medo, eu e mais três raparigas e um rapaz, tentámos outra fuga – centenas e centenas de quilómetros a pé. De noite assaltávamos comboios de mercadorias em busca de comida. Quando passámos a fronteira da Áustria para a Itália fomos presos – e levados para um campo de concentração da Cruz Vermelha. Lembrei-me do passaporte português, pedi ajuda ao sr. cônsul. Não tinha que vestir, nem que comer – ele vestiu-me e calçou-me, matou-me a fome, escreveu ao meu pai. Após de três meses de cativeiro, embarcaram-no no Chasseral e cá estou, enfim…

Margarida da Glória Szabo aportara a Lisboa dois dias antes de fazer 17 anos. Juntando-lhe foto dela abraçada ao pai à boca do cais, contou a odisseia um um repórter do Diário Popular aos primeiros dias de Janeiro de 1946. (Acabou por emigrar para o Canadá, radicou-se em Toronto, e Georgina Teresa, a outra filha de Szabo que, naturalizado português passou de Joseph a José, foi campeã de Portugal de ténis…)

Quando Peyroteo se espantou por Szabo dizer o que disse ao filho que acabou numa cadeira de rodas

Sem nunca não largar o seu espírito, o espírito de «maníaco do trabalho», capaz de, por isso, insultar jogadores e dirigentes no seu português mascavado e picante – sobre esse «mau génio de mister Szabo» também Fernando Peyroteo levantou ponta ao véu:

– Uma vez, ao referir-se ao seu filho, ao José, que nesse tempo fazia parte do Sporting , criticando-o, por má tarde na baliza, disse tanta barbaridade que dizer tais coisas do filho era ofender-se a si próprio. Quando lhe chamámos a atenção para isso respondeu: Sinhores fazer favor: respeitem treinador. Eu fala com Zé, não chamar família que estar sossegada a casa, no trabaio. Não ter nada que ver uma coisa com outra. família de tudo ser sagrada, guarda redes não, OK?

Continuou, igualmente, a não permitir que os jogadores solteiros fumassem, obrigando-os a tratar os casados por senhores – e antes de se deitar a passar, ele mesmo, pela casa dos pupilos para ter a certeza de que não andavam na «malandrice do noite»…

Barrigana, o guarda-redes que o Sporting cedera ao FC Porto quando Andrasik fugiu do Porto com medo de ser preso pela PIDE por espionagem contra Hitler, sofreu quatro golos do Benfica no penúltimo dia de 1945 – e para o desafio seguinte Szabo pôs José Szabo, o filho, no seu lugar. Sofreu dois golos da Académica, quatro golos do Olhanense, três do Elvas

– e mais três do Sporting a 27 de janeiro de 1946, dois de Peyroteo, um de Armando Ferreira. Mas drama bem pior do que esses 11 golos em quatro jogos foi o que lhe sucedeu no dia seguinte: atropelado numa rua do Porto, não morreu, mas ficou impedido de voltar a jogar futebol. Pior ainda: acidente de carro em 1955 deixou-o sem uma perna, numa cadeira de rodas…)

 

 

O filho mais novo estava a nascer estrela em Braga e chamado à guerra colonial foi abatido em Angola

Do FC Porto resvalou Szabo para o Olhanense, o Portimonense, o Oriental, regressando, pelo caminho, ao SC Braga – e em 1953/54 foi do Atlético de novo para o Sporting como treinador de campo de Tavares da Silva eganhou o Campeonato e a Taça de Portugal. (Esse campeonato não foi apenas mais um campeonato, foi o campeonato do tetra.)

Na época seguinte voltou a ser despedido a meio – foi para o Caldas, pô-lo na primeira divisão. Voltou a andar por Braga, ainda treinou o Leixões, o Torreense, o Barreirense – e em dezembro de 1962 era de novo técnico do Portimonense. A notícia só lhe chegou brutal dias depois: na noite de 17 para 18 de dezembro, Daniel Novak Szabo (que no SC Braga, na terceira vez do pai em Braga, se revelara auspicioso, um craque) morreu em Angola. Era sargento miliciano, vira um companheiro ferido ao longe, correra para lá, para o trazer às costas a socorro – foi assim que uma bala do MPLA o atingiu.

Oito dias antes chegara-lhe de lá, das matas de Quicabo, carta do Dany que dizia:«Tenho viagem marcada para 5 de julho. Talvez já possa fazer o próximo campeonato, pois nem resistência, nem ginástica me faltam. Por isso, aguente o Portimonense na segunda divisão que, para o ano, o pai e eu levamo-lo à primeira divisão. Não se ria que estou a falar verdade…»

Essa carta, a carta que, como num triste pressentimento, fechava como nenhuma outra que de lá mandara com:

«Adeus, meu pai – Dany»

foi publicada em A Bola de 27 de dezembro de 1962. Na reportagem de Mário Zambujal que fazia a manchete do dia, a José Szabo apanhou-se o coração num destroço por entre as lágrimas:

– Que bom rapaz era, o meu Dany! E que grande jogador ainda podia ser! O melhor jogo que ele fez foi em Braga, contra o Sporting, antes de embarcar para Angola. Marcou Seminário de tal forma que o peruano nem se viu e depois o Seminário até disse, numa entrevista, que nunca encontrara pela frente um defesa tão difícil de passar como o meu Dany, o meu querido Dany… Ele ia ser o amparo da família, o nosso protetor, meu e da mãe, na velhice. E agora, que vai ser de nós…

Quis morrer em Alvalade, mas antes disso o arquiteto da Taça das Taças tirou Szabo da «miséria» (arrepiante o modo como o contou em A Bola)

Ainda combalido pelo destino cruel, Szabo trocou o Portimonense pelo Vila Real, já lá não estava quando claro ficou que a ressaca da vitória do Sporting na Taça das Taças de 1964 deixara o leão de cabeça à toa. O francês Jean Luciano tomara o lugar de Anselmo Fernandez, o arquiteto que levara o clube à sua principal vitória internacional – e que Anselmo teria ficado como sempre estivera: sem receber um tostão de ordenado, mas não quiseram. O Sporting entrou em dezembro com seis pontos em sete jogos. Derrotado pelo último classificado, Luciano foi suspenso de funções pela direção. Os jogadores foram contra e assinaram um bloco documento exigindo que o treinador regressasse ao seu convívio. Luciano não regressou, os diretores suplicaram a Anselmo Fernandez que voltasse ele a treinador, voltou como uma condição:

– Sim, mas só se se for buscar José Szabo para meu treinador de campo.

Anselmo Fernandez fê-lo por sentimentalismo por o saber na «mó de baixo» e comovido Szabo afirmou, então, em A Bola a Carlos Miranda:

– Chamam-me velho, calcule… Só se ser dos meus cabelos brancos, eu não ser velho, eu não me trocar por muito rapazinho novo que não vale um chavo, não vale a cinza do meu cachimbo. E a experiência, senhore?E os 87 títulos que eu tenho, senhore?Eu ter 68 anos, eu trabalhar no campo, eu chutar a bola… Ainda no sábado, quando regressava de jogo de reservas houve um furo no automóvel, eu fui a pé, estrada fora para Vale de Lobos, subi duas serras, nem um carro só, carago, me deu boleia. Andei e não tive medo, não fiquei doente. Eu não sou velho, os tempos é que são outros, já não há educação. Nem memória. Este ano, mandei telegramas a todos os clubes que tinham vaga de treinador e nem um me respondeu. Que falta de delicadeza, senhore… Estava desempregado, à rasca. Gastei até ao último pataco. Quando chegou a chamada do Sporting, tinha levantado o último dinheiro que havia no banco. Mas não foi só pelo dinheiro que o Sporting veio na melhor altura, foi pela alegria de alguém, afinal, julgar que Szabo ainda não morreu… Nos primeiros dias, houve dificuldade, mas não maldade. Tive de fazer sentir que era o treinador, que não vinha para abraços. Tudo se compôs, a equipa está com pernas, agora…

Em julho de 1965, Guilherme Brás Medeiros assumiu a presidência do Sporting e à chefia do futebol regressou Jaime Duarte. Uma das suas primeiras ações foi desafiar Anselmo Fernandez para treinador de facto, com contrato verdadeiro. Ofereceram-lhe 15 contos de ordenado, aceitou enfim remuneração do clube:

– Só recebi um mês, porém. Para a Taça Cidades com Feiras, fomos a Bordéus. Ao almoço, o vice-presidente Pereira da Silva mostrou-me, embevecido,  carta de captação de simpatia aos emigrantes com assinaturas de onze jogadores que mandara para França. Perguntou-me a opinião, respondi-lhe que a ideia era gira, sim senhor, mas que, achando que o treinador era eu e não ele, não percebendo, por isso, por que estavam lá as assinaturas daqueles onze e não de outros, no fim do jogo conversávamos. Ganhámos por 4-0 e mal cheguei a Lisboa, apresentei a carta de demissão, nunca mais voltei ao Sporting…

Com Anselmo Fernandéz saiu Joseph Szabo também – e estando-se já em 1966 chamaram-no para selecionador de Angola. Mal aterrou em Luanda, ele e Anna Noavk, a mulher, fizeram peregrinação em dor ao cemitério onde se enterrara Daniel.

Retornando, tempos depois, a Lisboa – e, dizendo que queria morrer em Alvalade, pediu que o deixassem ficar no Lar do Clube. Deixaram – enquanto pôde Szabo foi ajudando nos treinos das camadas jovens do Sporting. Morreu a 17 de Março de 1973. A assisti-lo estivera até ao fim c vida Arménio Ferreira, o Arménio Ferreira que viera de Angola para jogar futebol no Sporting, médico do clube se tornara, sendo também  um dos fundadores do MPLA, um dos movimentos que se lançara à luta pela independência de Angola, à guerra onde Daniel Szabo morrera…

Títulos de José Szabo:

 

FC Porto

Campeonato da I Divisão (1): 1934–35

Taça de Portugal (1): 1931–32

Campeonato do Porto(6): 1930–31, 1931–32, 1932–33, 1933–34, 1934–35, 1935–36

 

Sporting CP

Campeonato da I Divisão (4): 1937–38, 1940–41, 1943–44, 1953–54

Taça de Portugal (2): 1940–41, 1953–54

Campeonato de Lisboa(6): 1937–38, 1938–39, 1940–41, 1941–42, 1942–43

Taça Imperio (1): 1943–44.

 

Clubes de José Szabo:

 

Nacional: 1926/27

Marítimo: 1927/28

FC Porto: 1928/29 a 1934/35

SC Braga:  1935/36 a 1936/37

Académico do Porto: 1936/37

Sporting: 1936/37 a 1944/45

SC Braga:  1944/45 (II divisão)

FC Porto: 1945/46 a 1946/47

Olhanense: 1947/48

Portimonense: 1948/49 (II Divisão)

1949/50: Oriental (II Divisão)

SC Braga: 1950/51 e 1951/52

Atlético: 1952/53

Sporting: 1953/54 e 1954/55.

Caldas SC: 1955/56

SC Braga: 1956/57 (II Divisão)

Leixões: 1957/58 (II Divisão)

Torreense: 1958/59

Caldas SC: 1959/60 (II Divisão)

SC Braga:1960/61 (II divisão)

Portimonense: 1961/62 e 1962/63 (II Divisão)

Barreirense:1962/63 e 1963/64

Vila Real: 1964/65 (II Divisão)

Sporting: 1964/65.

Fonte: https://www.abola.pt/
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