StayAway custou “perto de 400 mil euros”. App quer rastrear 6,5 milhões de portugueses

por LMn

Em entrevista ao ECO, o administrador do INESC TEC Rui Oliveira fala sobre o desafio de lançar a aplicação StayAway Covid em Portugal e de como medir o sucesso no rastreio digital à Covid.

Cerca de três semanas depois do lançamento, a aplicação de rastreio portuguesa StayAway Covid já superou o milhão de downloads. O número é quase 10% da população de Portugal, mas representa mais de 15% dos 6,5 milhões de portugueses que o INESC TEC calcula terem um telemóvel capaz de correr a app.

Rui Oliveira, administrador do instituto, esteve envolvido em todo o processo de desenvolvimento da aplicação, que usa o Bluetooth dos telemóveis para detetar contactos de risco com pessoas diagnosticadas com Covid-19. O aplicativo é endossado pelo Governo português e pela Direção-Geral da Saúde.

Em entrevista ao ECO, o responsável fala do desafio que foi lançar esta aplicação móvel e assegura que a StayAway não teve financiamento público. Porém, não esconde o risco de prejuízo caso o investimento não venha a ser compensado de alguma forma, apontando, por exemplo, para ressarcimento por via da FCT.

Ao dia de hoje, não há qualquer financiamento público. Mas não quer dizer que não venha a haver.

Rui Oliveira

Administrador do INESC TEC

Agora que a aplicação StayAway foi lançada, qual foi o maior desafio de todo este processo?

Foi andar à velocidade que nós queríamos e que as pessoas queriam que nós andássemos. Foi essencialmente a rapidez.

O lançamento foi adiado várias vezes. Ou melhor, a expectativa era uma, mas nem sempre iam ao encontro da expectativa.

Quanto é que custou esta aplicação? E houve financiamento público envolvido no desenvolvimento?

Ao dia de hoje, não há qualquer financiamento público. Mas não quer dizer que não venha a haver. Eu explico já. Fazendo uma estimativa de tudo quanto foi gasto em termos de custos — não posso falar de outra coisa –, estamos a falar de perto de 400 mil euros. É um projeto desta ordem de grandeza. Nós somos uma unidade de investigação da FCT [Fundação para a Ciência e a Tecnologia]. No caso do INESC TEC em particular, somos uma instituição sem fins lucrativos e que vive de projetos. Um terço do nosso financiamento é nacional, um terço vem de projetos europeus e um terço vem de contratos diretos com a indústria.

Mas concretamente em relação a esta aplicação — estimou em 400 mil euros –, estamos a falar de que tipo de despesa? Pagar aos programadores que a desenvolveram?

Exatamente. Essencialmente recursos humanos. Também tivemos gastos de criação de toda a imagem, de toda a parte de comunicação. Ainda hoje estamos a enviar suporte de imagem para centenas de instituições e empresas no país, para fomentar a divulgação. Portanto, há também esses custos de suporte.

Qual foi a origem do financiamento? Não é dinheiro público, mas qual é a origem?

Este dinheiro é nosso. O dinheiro que foi gasto ao dia de hoje é 100% do INESC TEC. Mas gostaria que isto ficasse muito claro: como isto não virá da Europa (não virá de um projeto europeu), como isto não virá de um contrato com uma empresa, há duas formas de compensar este custo — porque, mais uma vez, somos uma instituição sem fins lucrativos e ou compensamos isto ou vamos ter prejuízo, e esse prejuízo vai repercutir-se em recursos humanos. Ou arranjamos forma de ser ajudados por mecenato, que é algo que temos evitado, pela sensibilidade da aplicação e do tema. A alternativa é, como laboratório associado do Estado que somos, sermos ressarcidos por parte da FCT. Mas é uma decisão que, obviamente, não nos compete a nós.

Também ainda não ficou muito claro porque é que o INESC TEC ficou com este projeto. Como é que isto acabou por cair nos braços do INESC TEC?

No início de abril, o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior lançou o repto a todas as instituições de investigação, inclusivamente acompanhado de uma call da FCT para projetos, para que ajudassem com soluções para combater a pandemia. O INESC TEC mobilizou-se desde o primeiro dia, com variadíssimos projetos. Um dos quais foi este. O ministro visitou-nos exatamente para conhecer o nosso leque de propostas de projetos e isto foi-lhe apresentado. Na altura não se discutiram questões de dinheiro porque não era esse o foco da reunião desse dia. Era muito mais: “nós acreditamos que isto pode ajudar e funcionar”. Fomos encorajados e desde aí que isto passou a ser um projeto do INESC TEC.

Então o Governo deu logo o apoio desde a primeira hora.

Diria, apoio entusiástico. Tanto quanto é possível, no meio de toda a nossa ignorância sobre esta doença, dizer: “achamos que isto tem potencial”. Mas esse apoio houve desde o início.

Neste momento, a aplicação tem mais de 925 mil downloads [18 de setembro]. Há sempre quem a desinstale e há até quem a instale várias vezes. Tem ideia de quantas pessoas neste momento em Portugal têm efetivamente a aplicação ativa nos telemóveis?

Os dados que nós temos, e são muito aproximados, dizem-nos que andaremos entre 85% e 90% desse número. Não falo sequer da parte da desinstalação, mas da utilização ativa da aplicação.

Como é que medem o sucesso da aplicação? Qual é a métrica?

A métrica, para mim — só consigo ver uma — é a dos casos de pessoas infetadas que são reportados, porque nos diz que temos pessoas a colaborar. Neste momento, para nós, para a equipa do INESC TEC e ISPUP, já tudo valeu a pena, porque temos mais de três dezenas de pessoas que já submeteram o código e, portanto, já é mais do que compensador. Agora, também devo dizer que, obviamente como cientistas, queremos medir. É uma medida que estamos ainda a estudar num consórcio de 15 instituições europeias que se reúnem todas as quartas-feiras, às duas da tarde de Portugal, para avaliar as métricas e começar a recolher essas métricas. São métricas e números que gostaria de poder relatar lá mais para o final do ano.

Neste momento, para nós, para a equipa do INESC TEC e ISPUP, já tudo valeu a pena, porque temos mais de três dezenas de pessoas que já submeteram o código e, portanto, já é mais do que compensador.

Rui Oliveira

Administrador do INESC TEC

Fonte: Ecosapo.pt

Também poderá gostar de

O nosso website utiliza cookies para melhorar a sua experiência de navegação. Aceitar Ler Mais

Privacidade