Somlyó György (1920-2006) – Poeta Húngaro

por Pál Ferenc

Entusiasmado e dedicado tradutor de Fernando Pessoa, Somlyó György foi também um poeta importante. Esta semana entregamos ao leitor dois poemas em prosa – fábulas dele, traduzidos por Ernesto Rodrigues.

FÁBULA DA FLOR
Mese a virágról

Vou e venho no quarto, ajoelho na cadeira frente à secretária, folheio um
livro, acendo um cigarro, bebo um trago, procuro palavras. . .
A grande peónia rosa está imóvel no vaso.
Pego no casaco, saio de casa, corro para o trabalho, o que, afinal, creio
ser o meu trabalho, regresso.
A peónia ali está, voltada para mim, olha-me na sua grande cabeça de
pétalas.
Olha-me, incessantemente. Não se aborrece. Toda aberta, é como um
olho esbugalhado, como um altifalante, como a gigantesca rosácea de Notre-
-Dame. . .
Como exprimir-me?
A peónia não deseja exprimir-se. É igual a si mesma, sem mais. Por
isso, é tão linda.
Mas é pura sensibilidade. Se me aproximo dela, basta fina ondulação
de meus passos no soalho para que tremam as pétalas.
Aspiro à vida das plantas? À consolação da inconsciência, o não-
-humano?
Não. Serei só assim, eu mesmo, evidentemente, como ela.
Não gostaria de ser flor, como ela. Só homem, como a flor é flor.
A grande peónia rosa. . .

FÁBULA DO POETA E DO CRÍTICO
Mese a költőről és a kritikusról

. . . Como se fosse possível dizer a Magalhães: vá e descubra o Estreito
de Magalhães. . .
Quando só ele sabia, ele cria saber, e também ele sabia mal, onde devia
procurar.
(Colombo, até morrer, nunca acreditou ter descoberto a América.)
Que ideologias, que bitáculas mostraram de antemão as rimbaudianas
saídas da alma para o infinito, os arquipélagos dantescos da imaginação, o
mundo cavernoso da consciência de József Attila?
Quanto mare incognitum ainda, quantos cabos das tormentas, quantos
oceanos tenebrosos, quantas regiões além-Tule, quantos, das trevas, supersticiosos
mares que jogam em verde diabólico?
Experimentaram já todos desenhar o próprio mapa? Explorar os estreitos
que ligam a todos os mares do mundo? Não será isto que procuramos
desde a memória da poesia, quebrando-nos em recifes de emoções, congelando
em preconceitos, sob o sol paralisante das crenças, entre as massas flutuantes
da incomunicabilidade? Deixai os poetas cumprir suas expedições. Que delas
morram, se necessário, das suas expedições. Mas não de não poderem partir lá
para onde oscila a bússola dos seus nervos.
Que aproveitem, para os seus trabalhos, o radar e os impulsos eléctricos
das máquinas novas, mas deixai-lhes ter ao lado, com a precisão do radar,
seus duvidosos astrolábios; no tempo da cibernética, os cálculos ingénuos das
premonições – porque há lugares aonde só estas nos conduzem.
(Mesmo se os Colombos nem sempre sabem o que descobrem.)
Deixai os poetas resolver suas viagens de várias incógnitas e muitos
riscos. E limpai-lhes o porto, se regressarem.
Porque as suas vidas estão em jogo. As naus do rei. A fama do império.
As especiarias dos senhores e as jóias das senhoras. Mas as suas vidas.

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