Sobre as traduções de Pessoa de Nemes Nagy Ágnes

por Pál Ferenc

Fragmento do estudo Pessoa na Hungria, publicado na coletânea de estudos intitulada De Camões a Saramago, Projeção  secular de Portugal na Hungria (Budapest, Eötvös Kiadó, 2013)

Fernando Pessoa começa a ser conhecido na Hungria em meados dos anos 60. A sua primeira divulgadora foi a poetisa Ágnes Nemes Nagy, traduzindo quatro poemas do autor, que saíram no número 8 de 1964 da revista de literatura mundial Nagyvilág.

Ágnes Nemes Nagy, na breve introdução que fez, fala de um conhecimento indireto e que adveio da ”popularidade súbita e quase pasmosa” de Pessoa já nos anos 50 a chamar a sua atenção para a obra do poeta Português. A poetisa deve ter conhecido Pessoa por interposto de Armand Guibert, dado que os poetas húngaros de então obedeciam a uma orientação maioritariamente francesa. Na revista, após um resumo biográfico, seguem a análise da obra dos três heterónimos e de Pessoa “ele mesmo” e os poemas propriamente ditos.

Os poemas traduzidos são: Önlélekrajz (Autopsicografia), Sebestyén, Portugália királya (D. Sebastião, Rei de Portugal), Ez a régi szorongás (Esta velha angústia), o erradamente intitulado “fragmentos da Tabacaria” (Részletek a Trafikból) e Kálvária, VI. stáció (Passos da Cruz, VI). Estes poemas, sendo as primeiras traduções de Pessoa para Húngaro, apresentam alguns problemas.

O primeiro problema é o subtítulo de Esta velha angústia, dito fragmento de Tabacaria. O segundo problema é a fidelidade formal das traduções: em nenhum dos poemas se conserva a forma original. Os versos iâmbicos, de 7 sílabas e rimas cruzadas, passam a versos trocaicos, de 8 a 9 sílabas e rimas ímpares. Os versos de Passos da Cruz são de 11 sílabas e rimas abba abba cdd ccd a, em Húngaro, abab cdcd eef gg’f’; as rimas evidentes transformam-se em meras assonâncias, aliás, característica tradicional das traduções poéticas Húngaras. Alterar o número de sílabas não é, porém, um descuido, mas antes o resultado da diferente contagem de sílabas, já que, entre nós, cada vogal representa uma sílaba – ou seja, em Húngaro, cada verso de Pessoa tem mais sílabas. Assim, em Passos da Cruz, só a tradição métrica do soneto terá impedido versos de 13 ou mais sílabas.

Pál Ferenc

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