Sinais de vida

por João Miguel Henriques

Paira no ar um sentimento de vida de nova, de renascimento, tão natural nesta altura do ano. As festividades pascais, a natureza a despertar da longa hibernação de inverno, uma ou outra restrição que se pretende aliviar, não obstante todas as recomendações em contrário, enfim, isto no fundo anda tudo ligado (como dizia o outro) e aqui e ali vamos encontrando sinais de vida que nos fazem ter esperança num futuro mais normal a médio prazo.

O sector da cultura é um bom exemplo disso. Não vale a pena estar a repetir o quanto criadores e agentes culturais sofreram no último ano. Seria bem preferível destacar como o sector de certo modo se conseguiu reinventar de forma a preservar a sua existência e garantir ao público confinado uma oferta cultural diversificada e de qualidade. As ideias e iniciativas nos últimos tempos foram sem dúvida de louvar e em certa medida conseguiram em parte compensar um pouco daquilo que se deixou de realizar. Ainda assim, mais tarde ou mais cedo o ecrã terá de devolver espaço ao regresso de eventos e formatos presenciais, pois é díficil (ou no mínimo deprimente) imaginar um mundo sem palcos, salas de cinema ou espaços de exposição. É verdade que provavelmente nada será como antes do bicho, mas se de futuro programas culturais presenciais puderem pelo menos coabitar com os inevitáveis espaços online, já nos poderemos dar por satisfeitos.

Destacamos por conseguinte três eventos de Primavera organizados e/ou apoiados por Instituto Camões e Embaixada de Portugal em Budapeste. Entre 23 de Abril e 30 de Maio tem lugar a OFF Biennále, o maior acontecimento de arte contemporânea da capital húngara. Criado em 2014 por um pequeno grupo de profissionais ligados ao meio artístico, e procurando sobreviver sem apoios estatais, o evento tem ganho ao longo dos anos uma importante projecção internacional, com a missão de fortalecer a independência e vitalidade do sector artístico local e promover o debate sobre as mais prementes questões sociais, políticas e ambientais. No âmbito do projecto „Transperiphery Movement”, será apresentado em 2021 o vídeo Red Horizon, da autoria da artista portuguesa Mónica de Miranda e criado especialmente para a OFF Biennále. O filme estará em projeção no Fészek Művészklub de Budapeste, estando também prevista para finais de Maio uma sessão de debate com a artista, em formato a definir.

Como já vem sendo tradição, no dia 5 de Maio as Embaixadas de Angola, Brasil e Portugal em Budapeste, em colaboração com o Instituto Camões, o Departamento de Português da Universidade Eötvös Loránd e o Consulado Honorário de Cabo Verde, assinalam o Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na CPLP com um vasto e diversificado programa de intervenções e actividades em formato online, através da plataforma Zoom. Após as saudações iniciais da Directora do Departamento de Português da Universidade Eötvös Loránd, a Prof. Ildikó Szjii, do Decano da Faculdade de Letras da mesma universidade, o Prof. Dávid Bartus, e do Senhor Embaixador de Portugal em Budapeste, Jorge Roza de Oliveira, seguir-se-á um painel de palestras subordinadas ao tema „Interculturalidade – Influências Culturais Mútuas”. Da parte da tarde está programada uma sessão de culinária lusófona, durante a qual o público terá a oportunidade de assistir ao vivo à confeção de pratos típicos das gastronomias angola, brasileira, cabo-verdiana e portuguesa, esta última representada pelo inevitável e fiel amigo bacalhau. De Angola chegam-nos depois ritmos e danças a cargo de Pedro Vieira Dias Tomás, conhecido no meio artístico como “Mestre Petchú”, com a apresentação da sessão „A evolução da dança, da Massemba à Kizomba”. O programa contará ainda com uma conversa informal com jovens estudantes lusofalantes a viver em Budapeste, moderada por Mónica Silva. Além destes programas em direto e online, a plataforma Vimeo da CPLP na Hungria disponibilizará ao longo do dia outros conteúdos de acesso livre, com destaque para algumas curtas-metragens do mundo lusófono.

Por fim, referência para o recém-inaugurado Budapest Photo Festival, cuja edição de 2021 inclui uma mostra de fotografia portuguesa contemporânea, com inauguração marcada para o dia 19 de Maio. Com seleção e curadoria de Rui Prata, responsável pelo Imago – Lisboa Photo Festival, a Galeria Dokubrom acolherá a exposição de obras de alguns dos mais interessantes nomes da fotografia portuguesa de hoje. Mas sobre isso haverá ainda tempo para escrever, que isto é só para abrir o apetite a quem, como nós, tão saudoso anda da Budapeste de outros tempos, a fervilhar de cultura e troca de ideias.

Sinais de vida, assim esperamos, para animar o corpo e levantar o espírito.

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