Será que o português “Toca Alegre a Sua Gaita de Fole”?

por Pál Ferenc

Quando tinha começado estudar português, faz bons 50 anos, meu avó dizia-me jocosamente “Vígan dudál a portugál” (‘O português toca alegre a sua gaita de fole’). O bom velho gostava de dizer provérbios e frases feitas, assim na altura não prestei atenção a esta frase que soava muito bem em húngaro devido a rima interna.

Mas mais tarde, quando topei com esta frase nos textos de escritores destacados, a popularidade desta frase espicaçou a minha curiosidade. Assim, encontrei a frase por exemplo no diário de 1979 (20 de abril)  do escritor e poeta húngaro, Gyula Illyés:

Lutava com o sono por volta das três da madrugada. O meu cérebro, revirado por pesadelos, há já algumas horas que pretendia encontrar uma rima melhor para estes dois versos tolos, ouvidos algures na infância: O português toca alegre a sua gaita de fole. Quis achar uma rima melhor e após duas horas de cavilações se deu esta: O português sempre bebe alegre.

Outro poeta e prosador húngaro, da primeira metade do século XX, Dezső Kosztolányi, no seu artigo intitulado “Leio em português”, de 1923, faz também uma referência a esta frase:

Palavra de honra: naqueles tempos eu não falava português. Não sabia senão uma coisa dos portugueses, mas esta de fontes históricas dignas de fé: que tocam alegres a sua gaita de fole.

E esta frase também figura na novela intitulada Os Cavaleiros, de 1897, de Kálmán Mikszáth, escritor realista do século XIX:

Nas outras mesas jogavam tarokk […] Neste jogo eram permitidas todas as formas de anomalias, diplomatiquices, artimanhas, porque aqui o que importava mais era a virtuosidade e não a cobiça. Um cavaleiro é que percebe essas diferenças finas. Dizia-se tudo, naturalmente, em linguagem florida. O pateta que pôs todas as cartas, resmungava coçando a cabeça: “Onde afogar-me?” (o que queria dizer que não tinha “single”) e diziam também “O português toca alegre a sua gaita de fole”, quando aparecia o naipe desejado.

Lendo estas referências, surge logo a questão da origem desta frase. A resposta vem de um blogue português que, num pequeno poema, citava uma frase francesa:

Com o Terreiro do Paço
E o Rio Tejo, o mundo, ao fundo.
– Comment ils sont toujours gais, les portugais,
Diz a guia, do vinte e sete,
Que vai da Graça aos Prazeres…

A frase francesa ”Comment ils sont toujours gais, les portugais” é do famoso humorista francês Alphonse Allais (1854–1905) e surge numa das popularíssimas operetas de Charles Lecocq, de temática Portuguesa e intitulada Le Jour et la Nuit, numa canção cantada pelo primeiro-ministro Português, Calabazas, no segundo ato da opereta.

As operetas de Charles Lecocq gozavam de enorme popularidade entre o público húngaro, sobretudo a opereta cómica intitulada La Fille de Madame Angot que em 1875 foi estreada na Hungria, com o título Angot asszony lánya, no teatro Népszínház de Budapeste. A opereta Le Jour et la Nuit foi estreada com o título Húngaro Nap és Hold (‘Sol e Lua’), em 1896, mas não atingiu a popularidade daquela.

Dado que La Fille de Madame Angot foi muito mais popular que a opereta Le Jour et la Nuit, surge a pergunta como é que se popularizou tanto esta canção de Calabazas e com ela esta frase? Como explicação, um historiador de música informou que, naqueles tempos, muitas vezes uma canção popular de uma opereta aparecia noutra, para atrair mais o público. Em todo o caso, parece provável que esta canção de Calabazas se tenha tornado um êxito daqueles tempos, e a frase ”O português toca alegre a sua gaita de fole” passasse de boca em boca, como uma frase que soava bem.

Deste jeito foi que o escritor Kálmán Mikszáth deve ter conhecido frase que incluiu na sua acima mencionada novela como uma ”frase de situação” que os jogadores de tarokk utilizavam como uma frase popular na época, que na realidade nada tinha a ver com os portugueses.

Para perceber a imagem que os húngaros tinham de Portugal e dos portugueses no final do século XIX, podemos consultar a obra de dois escritores populares da época: um é o já citado Kálmán Mikszáth, escritor realista e o outro Mór Jókai, romancista romântico de fantasia prodigiosa.

Nas obras do primeiro, além da ”frase de situação” já citada, encontrámos apenas uma referência ao calçado da rainha portuguesa, na novela intitulada Todos dão um passo:

Diziam que as botas de caça do príncipe de Gales, os sapatinhos finos das ladys e misses Dudley, assim como o calçado da bela rainha Portuguesa foram manufaturados por este senhor Kolowotki.

Nas obras do outro escritor, Mór Jókai, encontrámos mais referências aos portugueses. Nos seus romances intitulados O Rei-corsário e Os que se morrem duas vezes pode-se ler sobre acontecimentos da época dos Descobrimentos e das touradas; noutros, como Um aventureiro famoso do século XVII, desfilam embaixadores, príncipes, rainhas e princesas portugueses, mas não aparece nenhum Português alegre ou jocoso.

Kosztolányi, na sua obra mencionada fala dos portugueses e da sua língua. Diz que é uma língua admirável: ”Mais meiga que o italiano, mais terna que o espanhol. É um latim apetecível.” No trecho do romance de Dezső Pataki, intitulado Anton Ixel e publicado em 1937 na revista literária Ocidente (Nyugat), uma casa onde acabaram de fazer a limpeza compara-se às botas cintilantes de um general português. E, finalmente, um escritor da atualidade, Zoltán Egressy, na sua peça teatral intitulada Portugal, diz que Portugal, país aonde o personagem principal da obra quer ir um dia, é um país belo, amigo e levemente triste:

       Menina: E o que é que queres fazer em Portugal?

       […]

       Rapaz: Quero vê-los. É um povo bom. Foram eles que inventaram o chá, por exemplo. E a jarra e o leque.

       Menina: Como foi que os inventaram?

       Rapaz: E a almofada e o fogo de artifício…

       Menina: Também o fogo de artifício?

       Rapaz: É. São bons rapazes. Gostam de todos.

Resumindo, podemos dizer que esta frase que tradicionalmente aparecia na língua húngara como uma ”frase de situação”, foi emprestada de uma canção em voga e passou a ser usado como uma curiosa ”palavra proverbial”, sendo a tradução feliz de uma falsa estereotipia étnica francesa. Mas no meio Húngaro, que na altura do seu aparecimento não tinha relação direta com os portugueses para poder avaliá-los, perdeu este carácter e, conservando a referência aos portugueses, passou a ser uma “frase de situação” que exprime uma alegria e otimismo.

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