Sebastião Alba (Portugal / Moçambique)

por João Miguel Henriques

O que não se disse das paisagens

O que não se disse das paisagens
e elas incluem dos teus olhos:
o vocábulo de trigo, as folhas cedidas ao ritmo
nascendo com a canção, de espiga
em espiga; doce rudeza. Contacto.

O que não se disse das paisagens:
colinas em acordo
a abrir os vales aos sonos que coleiam
(ou a cacofonia dum casco nas pedras?)
e aninham o sorriso
no teu colo; a flauta; o ouvido sobre a saia.
O que não se disse da (in)corpórea
música, e se disse.

 

Escritor português naturalizado moçambicano, Sebastião Alba, pseudónimo de Dinis Albano Carneiro Gonçalves, nasceu a 11 de Março de 1940, em Braga.

Em 1949, partiu para Moçambique, para Tete, onde foi viver com os pais e irmãos, passando a viver, nos finais dos anos 50, em Quelimane. Aos 21 anos desertou do Contingente Militar Geral (em Boane) e no segundo dia de fuga foi preso e torturado durante dois anos.

Manifestando o seu apoio à FRELIMO, após frequentar um curso de Formação em Inhanbane, exerceu o cargo de administrador da província da Zambézia que abandonou alguns meses depois. Estabelecendo-se em Maputo, tomou contacto com intelectuais e personalidades políticas importantes, como Marcelino dos Santos, Rui Nogar, Sérgio Vieira, Honwana, entre outros.

Desiludido com a situação política em Moçambique, regressou a Portugal, em 1983. Após vários problemas familiares e com o álcool, Sebastião Alba resolveu ir sozinho para a sua cidade natal e, por decisão própria, passou a viver na rua.

Colaborou na revista Caliban e no Correio do Minho e publicou as seguintes obras: Poesias (1965), O Ritmo do Presságio (1974), A Noite Dividida (1982), O Limite Diáfano (1996), e a antologia Uma Pedra Ao Lado Da Evidência (2000, livro póstumo).

A 14 de outubro de 2000, Sebastião Alba morreu atropelado em Braga. A 7 de outubro, quase como pressentimento, tinha escrito ao amigo Vergílio Alberto Vieira: “Se um dia encontrarem morto “o teu irmão Dinis”, o espólio será fácil de verificar: dois sapatos, a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia não entenderá.”

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