Sári e Zsuzsa

por João Miguel Henriques

São duas faces de uma mesma moeda. Duas peças de uma mesma engrenagem de trabalho doméstico. Estas duas irmãs de meia-idade, viajam à vez, da aldeia de Szék, na Transilvânia, para a capital Budapeste, para revezadas estadias de um mês trabalho. Duas dignas representantes dos Sículos da Transilvânia, esse enigmático povo que as incidências da história votaram a uma certa reclusão e desconfiança. Sári e Zsuzsa são irmãs, imigrantes temporárias numa cidade onde todos falam a sua língua embora muito poucos entendam realmente a sua natureza. O País dos Sículos é de certa forma aquele território mágico e fabuloso onde muitos húngaros acreditam conservar-se ainda a verdadeira alma nacional, embora na verdade só quem lá nasceu e cresceu lhe conheça as danças e e caminhos. Parece-me por vezes algo de que a Hungria necessita para certos fins de afirmação política e nacional, com bandeira azul e amarela bem hasteada, embora na verdade até seja bom que continue lá longe, numa estranha Roménia da qual jamais poderá  libertar-se.

Mas com Sári e Zsuzsa, a alma sícula vem realmente a Budapeste, mais propriamente a nossa casa, naqueles trajes tradicionais de múltiplas camadas, que eu não me canso de admirar, com certa perplexidade. Têm as duas rituais semelhantes, embora personalidades um pouco distintas. Sári é a viúva, alguns anos mais velha, mais calculista e desconfiada. Zsuzsa mais alegre e expansiva. Imaginemos esta última a entrar em casa, aceitando de imediato o café que lhe oferecemos por cortesia. Senta-se à mesa da cozinha e põe-se a conversar. Nada contra, atenção, para mim é lição gratuita de língua húngara, prática oral com adicional desafio de compreender um sotaque que entendo diferente do habitual. Passados alguns minutos, certinho como o destino, retira das profundezas das saias e saiotes, onde proventura se ocultam ainda tesouros dos tempos otomanos, a carteira com fotografias da família. Já os conhecemos a todos, embora seja difícil lembrar os nomes. Falamos da vida da aldeia, de casamentos, bebés e também de desventuras. Pergunta-nos em que igreja casámos, e ao ouvir que foi apenas pelo registo civil fecha-se-lhe a cara em sinal de desapontada reprovação. Fala-nos também da gastronomia e em certa ocasião ensina-nos até a confeccionar a famosa puliszka transilvana, um pesado prato de polenta com banha e toucinho, que o marido lhe exige diariamente para pequeno-almoço. Se eu lhe desse torradas com manteiga, matava-me, acrescenta ela com uma gargalhada. Depois do café, com o vagar com que pela manhã a neblina se dissolve nas veredas de Szék, vai mudando de vestimenta, ali mesmo na sala, trocando na cabeça um lenço por outro, e também a saia com que chegou por uma outra supostamente de trabalho, embora em tudo semelhante. Trabalha quase sempre em silêncio, pausando apenas quando do telemóvel uma musiquinha folclórica a avisa que alguém lá da aldeia lhe está a ligar. E todos os dias assim, praticamente de manhã à noite, regressando sozinha ao quarto alugado algures numa cidade de vício onde é olhada com estranheza. Até que um dia será rendida pela irmã, viajando na direcção oposta (será que se encontram?), e a imaculada aldeia de Szék voltará a receber a sua filha, num regaço que é vale protegido por colinas contra as investidas do tempo.

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