São Martinho da Savaria

por Arnaldo Rivotti

São Martinho nasceu no ano 316, na cidade de Savaria, que era a capital da Panónia Prima, que incluía parte da Hungria, Croácia, Eslovénia e Eslováquia. Savaria, hoje designada por Szombathely (Hungria) foi fundada durante o reinado de Cláudio e localizava-se numa importante encruzilhada entre a rota do âmbar que ligava a Itália à Hungria. São Martinho foi um soldado romano, que depois de ter recebido o batismo e renunciar à milícia, fundou um importante mosteiro no lugar de Ligugé, na região de Tours em França. Mais tarde foi eleito Bispo. Faleceu a 8 de novembro de 397.

O Verão de São Martinho

A lenda mais conhecida indica que São Martinho de Tours regressava de Itália no seu cavalo, num dia muito frio, com muita neve e vento. Envergava uma capa vermelha, que os soldados romanos então usavam. Durante o caminho encontrou-se com um mendigo, vestido com roupas velhas e rotas, cheio de frio que lhe pedia esmola. Com a sua espada, cortou o seu manto ao meio para partilhar com o pedinte e resguardá-lo do frio. Num repente, as nuvens e o mau tempo desapareceram. Parecia que era Verão! Foi como uma recompensa de Deus a Martinho por ele ter sido tão bondoso. Nessa mesma noite, Martinho sonhou com Jesus vestido com a metade da sua capa e que, apontando para um grupo de anjos, lhe disse: “Foi São Martinho quem me agasalhou”. Foi por isso que todos os anos, nesta altura do ano, mesmo sendo Outono, durante cerca de três dias o tempo fica melhor e mais quente: é o Verão de São Martinho.

No dia de São Martinho vai à adega e prova o vinho

Em Portugal, o dia de São Martinho é comummente associado à celebração da maturação do vinho do ano, sendo tradicionalmente o primeiro dia em que o vinho novo pode ser degustado. É tradição fazer-se um grande magusto, castanhas assadas sob as brasas da fogueira (às vezes figos secos e nozes), e beber-se uma bebida alcoólica local chamada água-pé, resultante da adição de água ao bagaço da uva, ou jeropiga (um licor doce obtido de forma muito semelhante, que inclui ainda aguardente). Um ditado típico português relacionado ao dia de São Martinho diz o seguinte: “No dia de São Martinho, vai à adega e prova o vinho”.

Mas porquê o dia 1 de novembro e o dia 11 de novembro? Haverá ligação entre ambas as datas?

Primeiro convém lembrar que o 1 de novembro, habitualmente apelidado o Dia de Todos os Santos no calendário cristão – e que originou o termo Halloween (pela contração do inglesismo All Hollows Eve, ou seja, a Véspera de Todos os Santos) -, é um dia ao qual estão enlaçadas inúmeras crenças: a maioria delas relacionada com o mundo dos mortos (veja-se por exemplo a superstição da Santa Compaña ou da Procissão das Almas, muito comum no norte do país, ou a Festa da Cabra e do Canhoto realizada ainda hoje em Cidões.

José Leite de Vasconcelos, autoridade no estudo da etnografia portuguesa, afirmou que o magusto representa um sacrifício em honra dos mortos, explicando que em tempos, nalguns locais, era tradição acender as fogueiras e preparar, à meia-noite, uma mesa com castanhas para os mortos da família irem comer.

O magusto é, obviamente, um momento de algazarra comunitária, que agrega aldeões em torno do mesmo espaço. Para a gente que lá vai, essa é a última oportunidade de conviver alegremente com a vizinhança, porque a partir daqui entramos na fase escura do ano, quando as noites se tornam maiores do que os dias, o frio apela à recolha, e a natureza repousa de toda a dádiva a que se entregou nos meses das colheitas. Daqui para a frente, o homem resguarda-se. É a espera que tem de acontecer até a terra estar novamente preparada para dar vida às sementeiras.

Ou seja, quer o 1 de novembro, quer o 11 de novembro, mencionam esse elo transcendente que liga duas dimensões: a dos vivos e a dos mortos. Mais uma vez, porquê?

Já falámos neste espaço, em variados textos, acerca do significado da noite de Halloween. Apesar de todo o comercialismo que circula em torno da famosa Noite das Bruxas, há um valor simbólico que não podemos dissociar desta festividade, e esse não é propriamente americano. Ou é americano, mas por influência europeia, nomeadamente pela emigração irlandesa para o novo continente.

Na realidade, para as regiões europeias de cultura marcadamente celta, a passagem do 31 de outubro para 1 de novembro não era nem mais nem menos do que uma passagem de ano (os celtas dividiam-no em duas estações: a do frio e da noite, por um lado, a do calor e do dia, por outro). A noite do 31 de outubro era assim tida como um tempo de transição, espécie de tempo ausente, em que ainda não se era parte de uma época ou de outra, acreditando-se assim que seria precisamente nesta altura que os portões que separavam o mundo dos vivos do mundo dos mortos se abriam. Essa é a razão para todos rituais que aludem aos defuntos, gestos esses que também podem ser vistos nas mais comerciais máscaras de Halloween. A cristianização destes ritos dos mortos aconteceu posteriormente, com o aparecimento do Dia de Finados fixado a 2 de novembro.

Como é que de 1 de novembro se saltou para 11 de novembro, então? Pois aí teremos de recorrer à história do tempo, nomeadamente à Bula Papal do ano de 1582, onde se decidiu que nesse ano, para se retiraram dez dias ao calendário, do dia 4 de outubro se passasse diretamente para 15 de outubro – isto aquando da aplicação do calendário gregoriano em Portugal e Espanha (e que nessa época eram um só).

Assim, nas regiões em que o magusto era tradição secular, houve uma possível deslocação de dez dias nas festas, passando estas de dia 1 de novembro para dia 11 de novembro, com o intuito de as fazer corresponder ao calendário original. Ao novo dia 11 de novembro corresponderia então a antiga passagem de ano celta, arrastando consigo inúmeras tradições de cariz pagão, também elas cristianizadas mais tarde com a atribuição desta data a São Martinho de Tours e da Savaria, um dos grandes impulsionadores da fé cristã em solo europeu.

Concluindo, há uma forte probabilidade de termos no magusto a nossa antiga passagem de ano. Um resíduo pagão que partilhamos com o norte de Espanha, que é como quem diz, com a Espanha de geografia atlântica.

 

Fontes: wikipedia, patrimonio.pt, https://www.portugalnummapa.com/agua-pe/

Crédito das imagens: Wikipedia e https://capeiaarraiana.pt/

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