Santa Apolónia carmim, São Carlos azul: que história contam as novas cores dos edifícios de Lisboa

por LMn

Santa Apolónia está a ser pintada de vermelho. O Teatro São Carlos e o Palácio de Queluz são agora azuis. Há uma maior preocupação com as cores originais dos edifícios. A História da conservação e restauro percorreu já um longo caminho e hoje dá às cores o poder de contar histórias – e às pessoas de as ouvirem.

Por Ana da Cunha

Dos celtas aos fenícios, gregos e cartagineses, romanos, islâmicos e espanhóis. Lisboa já viu muito: batalhas travadas, embarcações partidas, terramotos sofridos. Mas o tempo deixou vestígios. E o tempo tem cores. E as cores… contam histórias. “As paredes de um edifício antigo não são só um tempo, e o tempo deixa vestígios”, diz José Aguiar, arquiteto especialista em cor.

Os edifícios de Lisboa estão a regressar às suas cores originais. Santa Apolónia vai perder a sua fachada azul. O Teatro São Carlos já não é amarelo, e o Palácio de Queluz também já não é cor-de-rosa. Qual a história por detrás destes edifícios? E porquê esta nova preocupação com as cores que pintam a cidade?

Em Santa Apolónia, os vestígios foram encontrados e as suspeitas confirmadas: uma fotografia de 1967 mostrava que as suas fachadas eram vermelhas, não azuis. “Era um vermelho óxido de ferro, um pigmento muito usado nos barcos e nos comboios. Pode haver aí uma ligação mecanicista às máquinas”, especula José Aguiar. “Vermelho faz lembrar a arquitetura do ferro, a revolução da máquina”, argumenta Vanessa Rodrigues, conservadora-restauradora a realizar a sua tese de doutoramento sobre a cor azul no património.

Nos anos 1990, esse vermelho seria substituído pelo azul. “Talvez se tenha procurado uma harmonia por adjacência com o mar e com o céu”, diz Aguiar. O retorno do vermelho a Santa Apolónia, pelo atelier de arquitetura Saraiva e Associados (S+A) para a construção do novo hotel The Editory Riverside, foi aprovado pela Infraestruturas de Portugal, que detém o edifício, e o licenciamento passou pela Câmara Municipal de Lisboa (Santa Apolónia não é monumento nacional, mas imóvel de interesse público).

De acordo com os arquitetos, esta é a cor “que melhor valoriza a estrutura do desenho da fachada porque destaca os elementos de cantaria que se encontravam diluídos na cor anterior”, explicam. Esta mudança permite ainda que a estação ganhe relevo numa cidade policromática, acrescentam.

A dita “autenticidade”, como Aguiar e os demais especialistas lhe chamam, está a ser resgatada em Lisboa, como se pode ver pelas novas (velhas) cores de alguns edifícios. “Quando vejo um edifício com 700 anos, um edifício com tinta acrílica, como plasticina, a experiência visual ressente-se. Hoje, temos mais cuidado com a forma como vemos e damos a ver património”, diz o arquiteto.

Isso não foi suficiente para que a Direção-Geral de Património Cultural (DGPC), que intervém nos processos de conservação e restauração dos monumentos nacionais, desse o seu parecer positivo quanto à alteração da cor. Foi preciso que José Aguiar e João Pernão, os dois da equipa da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa (FAUL), entrassem em cena, elaborando o relatório que concluía definitivamente que a cor original do Teatro São Carlos era, de facto, o azul e não o amarelo.

“O azul era uma cor muito difícil de usar, que se duplica na segunda metade do século XIX”, conta Aguiar. “Sabemos que, em Roma, no período Barroco, o azul horizonte foi uma cor muito utilizada. Roma era uma cidade medieval, e queria dar-se uma ideia de maior distância e de maior profundidade”.

Este azul “distante, profundo” não está longe do que havia no Palácio de Queluz quando o edifício foi construído em 1747. Se bem que este era um azul “mais claro, mais ténue”, um “azul esmalte” que nesse tempo era conseguido através de um “pó de vidro azul misturado com a cal”, explica José Aguiar.

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