Ruy Belo (Portugal)

por João Miguel Henriques

Mas que sei eu

Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?

Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono

Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha

qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha

 

Ruy Belo foi um dos mais importantes poetas e ensaístas portugueses do pós-guerra. Nasceu a  27 de fevereiro de 1933 na cidade de São João da Ribeira, Rio Maior, e faleceu repentina e demasiado prematuramente em Queluz, a 8 de agosto de 1978, com apenas 45 anos.

Estudou direito na Universidade de Coimbra, concluindo o curso em Lisboa em 1956. Partiu depois para Roma, onde se doutorou em direito canónico pela Universidade S. Tomás de Aquino (Angelicum), com uma tese intitulada “Ficção Literária e Censura Eclesiástica”.

Regressou a Portugal e em 1961 ingressou na Faculdade de Letras de Lisboa, com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian para pesquisa académica, tornando-se ainda professor de Língua e Literatura Portuguesas em Madrid entre 1971 e 1977.

Mais tarde, ainda que tenha trabalhado no então Ministério da Educação Nacional, a sua oposição ao regime de Salazar, a participação na greve académica de 1962 e a sua candidatura a deputado, em 1969, pela Comissão Eleitoral de Unidade Democrática, tornaram-no perigoso demais para a conjuntura política do país, levando-o a ser vigiado pelo governo e a ser-lhe recusada a candidatura a lecionar na Faculdade de Letras de Lisboa.

Foi diretor da Editorial Aster e chefe de redação da revista Rumo, estreando em livro com os volumes Aquele Grande Rio Eufrates (1961) e O Problema da Habitação (1962), assim como a reunião de ensaios Poesia Nova (1961), seguida de Na Senda da Poesia (1969). Publicou ainda Boca Bilingue (1966), Homem de Palavra(s) (1969), Transporte no Tempo (1973), País Possível (1973), A Margem da Alegria (1974),Toda a Terra (1976) e Despeço-me da Terra da Alegria (1978). Traduziu  Antoine de Saint-Exupéry, Montesquieu, Jorge Luís Borges e Federico García Lorca.

A reunião dos seus poemas, organizada em três volumes sob o título Obra Poética de Ruy Belo, foi lançada em 1981, três anos após sua morte, e aos poucos passou a afirmar-se criticamente como uma das obras mais importantes da poesia portuguesa contemporânea.

 

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