Rui Nogar (Moçambique)

por João Miguel Henriques

quando aconteço me dando em poemas
julgo-me adúltero já doutros poetas

as mesmas palavras com que me venço
são aquelas que a qualquer se rendem

e o ritmo em que me sego e me colho
vem já do berço da comum sementeira

sei lá quantos outros em mim respiram
quantos eus por aí germinam

e já nem sequer me intimidam
nos versos antes de mim mesmo devassados
outras cancelas já velhas de inspiração

quero-me até cada vez mais comungado
na subtil reconquista de nós próprios

só me repugna e me atormenta
a íntima heresia involuntária

de me ver traído crucificado
num milímetro que seja
de cumplicidade memorial

e desde já perante vós me penitencio
oh poetas e amantes
que meus versos decantarão
para que saibam agora todos
nos limites deste poema ainda
que nada falece da minha lavra
que minhas ideias e meus escritos
mais vos pertencem que a mim próprio

e ainda vos digo ora também
que lúcido e pleno me devolvo
nesta humilde entrega total

para que libertem os meus poemas
em milhões de outros poetas

 

Escritor e político moçambicano, Rui Nogar, pseudónimo de Francisco Rui Moniz Barreto, nasceu a 2 de fevereiro de 1935, em Lourenço Marques (atual Maputo), Moçambique.

Fez os estudos primários e secundários em Lourenço Marques e começou a trabalhar como empregado comercial e funcionário de agência de publicidade. Para além disso, exerceu vários cargos como o de deputado da Assembleia Popular, Diretor do Museu da Revolução, Diretor Nacional da Cultura e Secretário-Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos. Desde 1964 era militante da Frelimo e foi preso pela PIDE por fazer parte da organização. A obra Silêncio Escancarado (1982) resultou de uma recolha de textos escritos no tempo em que esteve preso.

Poeta, contista, declamador, Rui Nogar colaborou em publicações de imprensa, como Itinerário, O Brado Africano, A Voz de Moçambique, Caliban e África. A sua obra está incluída em várias antologias nacionais e estrangeiras, como Poetas Moçambicanos (1960), Resistência Africana (1975) e No Ritmo dos Tantãs (1991).

Rui Nogar morreu em Lisboa, em 1994.

 

 

Também poderá gostar de

O nosso website utiliza cookies para melhorar a sua experiência de navegação. Aceitar Ler Mais

Privacidade