Rui Mayer da GALP à MOL

por LMn

Rui Mayer, Advogado, Licenciado em Direito e Mestre em Direito Internacional e Relações Internacionais , começou a sua atividade profissional na Partex (1982), continuou na Neste Oy da Finlândia, Petrogal – GALP, entre outras e agora em Budapeste na MOL*

A LM N pediu a Rui que escrevesse as suas impressões sobre a sua vida na capital da Hungria…

Desembarquei em Budapeste no dia 17 de junho de 2019 para, aos 61 anos de idade, enfrentar um novo desafio profissional.

Apesar de gostar de viajar (alguém uma vez me descreveu como “viajante apaixonado”), e de tanto por motivos pessoais como de trabalho ter tido ao longo da vida a possibilidade de conhecer umas dezenas largas de países em cinco Continentes, nunca aqui tinha estado, salvo por umas escassas horas no mês anterior para uma entrevista, e por isso não tinha formado expetativas claras sobre a cidade e o país.

Como se tratava de começar uma nova etapa, e que se tudo corresse bem iria passar por aqui os próximos 5 anos da minha vida, nas semanas anteriores a minha vinda tinha procurado adquirir alguma informação sobre a Hungria, a sua cultura e História, Infelizmente, o que se consegue encontrar em Lisboa sobre Budapeste e a Hungria é relativamente limitado, e por isso não consegui adiantar muito. Por isso a minha primeira fonte acabou por ser a Wikipedia –  e sempre é melhor do que nada…

As primeiras impressões após a chegada foram muito positivas, embora centradas nos aspetos que mais chamam a atenção dos turistas – a beleza do rio e das pontes, a monumentalidade das colina do Castelo e Gellért, em Buda, os Boulevards de Pest a fazer lembrar Paris ou Viena, a zona monumental junto ao Parlamento e a Basílica, o antigo bairro judeu, as Termas… e por toda a parte o visível mas ainda incompleto esforço de recuperacão de edifícios nobres antigos que estavam degradados, a que se vão juntando edificações e urbanizações modernas, renovando algumas áreas importantes da cidade.

E um certo cosmopolitismo resultante de uma localização privilegiada no Centro da Europa e de um passado ligado a época de ouro do Império Austro-Húngaro, a eficiência da rede de transportes públicos, o dinamismo comercial sobretudo centrado no aproveitamento do turismo, as zonas modernas cheias de edifícios de escritórios e centros comerciais… enfim,
aquilo que normalmente impressiona quem por aqui passa três ou quatro dias e siga depois para outras paragens.

Ao fim de alguns dias, procurando começar a criar uma rotina mais compatível com uma estadia longa e centrada na realidade de uma vida profissional, comecei a aperceber-me da forma como a cidade está estruturada em função de uma realidade histórica multissecular que vim a reconhecer ser muito própria e distintiva da Hungria.

Por exemplo, tirando as ruínas romanas de Aquincum e mais uma meia dúzia de edifícios e alguns monumentos construídos mais tarde, praticamente não existem vestígios do que teriam sido Buda e Peste antes do Sec. XVIII, apesar de a Hungria ter sido até ao final do Sec. XV uma das principais potências europeias.

Fiquei a saber que tal se deve aos quase 180 anos de ocupação otomana nos Séculos XVI e XVII. Por outro lado, a reconquista do território foi causa do desaparecimento de muito do que os otomanos teriam construído, de onde resulta que Budapeste acaba por ser uma cidade muito mais moderna do que se poderia esperar, tendo em atenção a sua localização privilegiada no Centro da Europa.

Depois, a constatação clara de que entre a partir de finais do Séc XVIII e até aos finais da Ia Guerra Mundial a cidade viveu um período de crescente prosperidade, evidenciando, para além da existência de uma aristocracia numerosa, o desenvolvimento e crescente relevância de uma classe média/alta culta de profissionais e artistas, que originou uma elite sofisticada e cosmopolita.

Mas nota-se que este período teve uma interrupção brusca, provavelmente pelos efeitos da  Guerra Mundial, do Tratado de Trianon (que ainda hoje é um tema de conversa recorrente em qualquer reunião), da  crise económica da década de 1930 e finalmente da II Guerra Mundial, que causou danos em 85% dos edifícios da cidade, que no entanto não são hoje em dia visíveis diretamente mas sim apercebidos pelo desenvolvimento de múltiplas áreas, onde as preocupações arquitetónicas relativas à reconstrução e realojamento da população de construção foram orientadas por critérios de economia, rapidez e facilidade de construção, e por uma orientação ideológica que privilegiava a estandardização e o igualitarismo, de que resultaram muitas áreas formadas pela repetição de grandes blocos geométricos, provavelmente funcionais mas desinteressantes.

Instalei-me numa das colinas de Buda para iniciar esta nova etapa da minha vida. E passei então a procurar pontos de apoio para criar as rotinas necessárias a resolver as situações correntes da vida diária. Isso levou-me a mergulhar de outra forma na sociedade, e a descobrir alguns aspetos que passam despercebidos a quem por aqui passa rapidamente, ou a encontrar respostas talvez mais esclarecidas para algumas questões que normalmente os turistas tendem a resolver através de percepções resultantes de aparências captadas pelos sentidos, já que normalmente não tem oportunidade para procurar a realidade através da análise de informação factual.

Apercebi-me, por exemplo, de que os húngaros parecem retraídos e discretos, sobretudo quando comparados com os europeus meridionais, em que nós Portugueses nos integramos – mas parece-me que tal resulta de uma história de muitos séculos em que o país foi governado por outros, e em que por umas razões ou outras era mais seguro aos húngaros não demonstrar iniciativa, o que se continua de certa forma a verificar atualmente por uma questão de inércia.

Mas isso não os impede de terem orgulho no seu país, apesar de recorrentemente lamentarem a injustiça de que se crêem vítimas – e lá está o tema de Trianon – a terem de se contentar com um território de cerca de 30% do que sentem deveria ser, e de uma boa parte da nação Magiar viver fora das atuais fronteiras.

Penso, aliás, que o sonho de reverter essa injustiça não desapareceu, e que está bem patente em muitos monumentos existentes em várias cidades. Por exemplo no monumento existente em Székesfehervar está colocada uma frase que é uma demonstração eloquente desse estado de espírito: “Credo in unum deum, credo in unam patriam, credo in unam iustitiam divinam aeternam, credo in resurrectionem Hungariae!”.

Aos poucos tenho vindo a identificar outras características do povo húngaro – o respeito pelas regras, que se vê por exemplo na forma como os peões aguardam disciplinadamente nas passadeiras até que o semáforo fique verde, um certo respeito pelo espaço alheio que leva a que o contacto físico com estranhos seja coisa que justifica pedidos de desculpa, e alguma dificuldade de comunicação em certos locais, já que por ser totalmente ignorante em língua húngara tenho de me servir do inglês para resolver todas as necessidades da vida. Este é um problema – nem toda a gente fala inglês, e sobretudo fora de Budapeste essa situação agrava-se.

Mas em toda a parte encontrei sempre alguém pronto a ajudar, e em último recurso alguma imaginação e linguagem gestual (verdadeira “body language”, diga-se), sempre permitiram resolver qualquer situação mais complicada – até mesmo com a polícia.

E por falar em polícia, pode dizer-se que Budapeste é uma cidade perfeitamente segura, a qualquer hora e acredito que em qualquer lugar, apesar de ser relativamente raro encontrar-se agentes policiais em circulação – mas também é verdade que quando é preciso que apareçam, aparecem sem dificuldade.

Dificuldade real, para mim, de facto tem sido a língua, cujo desconhecimento me impede por exemplo de ler jornais ou de assistir aos noticiários da TV. Não posso por isso fazer uma ideia minimamente informada sobre os grandes debates nacionais. Mas não desesperemos – ao fim de dois anos, já consigo agradecer e pedir por favor, dizer (pelo menos segundo creio) que não sei falar Húngaro, contar de 1 a 10 e identificar os dias de semana.

* MOL (Empresa de Petróleo e Gás da Hungria  ) uma das maiores empresas húngaras com forte presença na região

https://mol.hu/hu/

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