Ronaldo vs Messi: Um duelo entre o inato e o adquirido que marca para sempre a história do futebol

por LMn

Qual dos dois o melhor? A eterna pergunta que paira sobre o futebol mundial há quase 15 anos.

Por Cátia Leitão

O trabalho e o talento são fatores determinantes no futebol e são regularmente evocados quando falamos da maior rivalidade do desporto-rei: Cristiano Ronaldo e Lionel Messi.

A pergunta ‘qual dos dois o melhor?’ tem sido perpetuada ao longo de mais de uma década. Muitos têm opinião, mas será mesmo possível responder a esta questão? Jogadores totalmente diferentes, com uma leitura de jogo diferente e com um posicionamento diferente, mas que brilham nos relvados. Trabalho versus talento. Ronaldo vs Messi.

O início de CR7: O menino querido da família

Na temporada de 1993/1994 chegou ao Andorinha um jovem franzino chamado Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro. Foi ali, neste pequeno clube da Madeira, que se deu início, a uma das mais frutificas carreiras do futebol mundial.

Apesar de alguns lhe reconhecerem talento, a família, pouco ligada ao futebol, não imaginava que ali estava um diamante por lapidar.

“Tenho uma memória muito forte de quando tinha 7 anos. Tão forte que, quando fecho os olhos, imagino-a e emociono-me. Tem a ver com a minha família. O meu pai estava sempre lá para me ver, mas a minha mãe e as minhas irmãs não se interessavam minimamente por futebol. Todas as noites, o meu pai tentava, durante o jantar, convencê-las a irem ver-me e elas diziam ‘está bem’, mas não pareciam convencidas. Ia sempre olhando para a bancada antes do jogo e via sempre o meu pai sozinho, de pé. Até que um dia – nunca mais me vou esquecer desta imagem – enquanto aquecia, vi a minha mãe e a minha irmã lá sentadas. Pareciam… Nem sei como dizer. Cómodas? Nem aplaudiam nem gritavam, só me acenavam, como se fosse um desfile ou assim. Notava-se que nunca tinham ido ao futebol. Mas estavam ali. E só isso me importava. Senti-me tão bem nesse momento. Significou muito para mim. Algo mudou em mim. Senti-me orgulhoso”, começou por revelar no texto que escreveu para o Player’s Tribune em 2017.

Oriundo de uma família pobre, Cristiano Ronaldo sentia ali que tinha o apoio da família. “É certo que não tínhamos muito dinheiro nessa altura e a vida não era fácil na Madeira. Jogava com botas velhas do meu irmão ou dos meus primos. Mas quando és criança não queres saber de dinheiro. Só queres sentir-te de determinada maneira. E, naquele dia, senti-me assim. Senti-me protegido e querido. Como dizemos em português, menino querido da família”, acrescentou.

Mas o talento de Cristiano Ronaldo já era visível naquele tempo e, alguns anos depois deste episódio, o madeirense acabaria por rumar ao continente para vestir a camisola do Sporting. Tinha apenas 12 anos quando deixou o conforto da família e da ilha da Madeira para correr atrás do sonho. E ainda bem que o fez.

De leão ao peito, Cristiano Ronaldo começou a encantar e, aos 18 anos, já era grande demais para Alvalade. No jogo de inauguração do estádio dos leões, frente aos ingleses do Manchester United, um treinador chamado Alex Ferguson assistiu a uma bela exibição daquele jovem.

Rendido ao talento do jogador madeirense, o plantel do Manchester United chegou mesmo a pedir a contratação deste ao treinador. E Alex Ferguson conseguiu.

Já em Manchester, Cristiano Ronaldo pediu a camisola 28, com o número que usava no Sporting. Mas, Fergie entregou-lhe a mítica camisola 7, que antes tinha pertencido a lendas do clube inglês como David Beckham, Cantona, George Best e Bryan Robson.

Começava aqui a história de mais uma lenda do Manchester United.

Em 2007/2008, o jovem internacional português venceu aquela que foi a primeira (de muitas) Liga dos Campeões. Na primeira época de CR7 em grande plano, o internacional português venceu ainda a Bota de Ouro para melhor marcador europeu com 31 golos apontados e a primeira Bola de Ouro.

Um ano depois a sua carreira já pediu outros voos e foi assim que CR7 deixou Inglaterra para rumar ao Real Madrid. Aí alimentaria uma rivalidade épica com Lionel Messi.

Em 2018 deixou Madrid, onde ganhou tudo e mais alguma coisa, para vestir a camisola da Juventus.

O início de Messi: Um pequeno grande talento

Com seis anos, Lionel Andrés Messi Cuccittini chegou às camadas jovens do Newell’s Old Boys na Argentina. Mas o pequeno génio não crescia e, de acordo com o biografia ‘Messi, o miúdo que não podia crescer’ do jornalista Luca Caioli, precisava da administração diária de uma injeção de hormonas de crescimento. O tratamento custaria mil euros por mês, um valor demasiado elevado para os pais.

O Newell”s Old Boys (NOB), clube onde começou a jogar com seis anos, não podia pagar o tratamento. Nem o River Plate que mostrou interesse no jogador. Era preciso uma alternativa fora do país e foi aí que surgiu o Barcelona, o clube que se predispôs a pagar o tratamento hormonal.

Em 2000, com apenas 13 anos, e tal como aconteceu com Cristiano Ronaldo, Messi deixou a família e o país-natal para rumar aos espanhóis do Barcelona. “Foi muito difícil, foi uma mudança muito grande. Quando cheguei ao Barcelona não pensava em ser o melhor do mundo. Cheguei com o sonho de poder ir para a equipa principal, mas nunca imaginei o que viveria depois”, admitiu Messi ao Barça Magazine no ano passado.

O investimento do Barcelona acabou por compensar e, com 16 anos, o jovem argentino estreou-se pela equipa principal dos blaugrana… no Porto.

Na inauguração do Estádio do Dragão a 16 de novembro de 2003,  o jovem foi lançado Frank Rijkaard. A derrota catalã (2-0) passou para segundo plano porque nascia ali uma lenda do futebol mundial. Messi entrou à passagem do minuto 74, por troca com Fernando Navarro. Com o número 14 nas costas.

no dérbi catalão frente ao Espanyol, em pleno Estádio Olímpico Luís Companys. O Barcelona acabaria por vencer por 1-0 e Lionel Messi entrou para o lugar de Deco, internacional luso-brasileiro que curiosamente também tinha jogado no encontro particular na estreia do Estádio do Dragão.

Crescia assim uma longa ligação entre Messi e Barcelona que, até aos dias de hoje, ainda não teve final – apesar de ter estado perto disso no verão passado.

Os confrontos

A rivalidade entre Cristiano Ronaldo e Lionel Messi é mítica e provavelmente será eterna. Há muitos anos que os dois brilham nos relvados europeus e dividem os prémios individuais do futebol mundial.

O MESSI BAIXA NO TERRENO, FAZ ASSISTÊNCIAS, MARCA E FINTA. É UM JOGADOR COM OUTRA CRIATIVIDADE – JOÃO ALMEIDA ROSA

Para responder à eterna questão, o SAPO Desporto falou com João Almeida Rosa, treinador, comentador e analista de futebol, que admite que é difícil escolher um dos dois e lembra que “são dois jogadores, em termos futebolísticos, totalmente diferentes.”

“Começaram os dois por ser extremos por isso têm esse ponto em comum, mas depois as evoluções foram opostas. O Cristiano passou a ser cada vez mais um avançado, que é a posição que ocupa no momento, e é um jogador que tem capacidades excelentes na finalização porque tanto marca de pé esquerdo como de pé direito ou de cabeça, como dentro da área ou fora”, recordou o comentador do SAPO Desporto.

Por outro lado, Messi “passou a ser cada vez mais um médio ofensivo, que gosta de baixar no terreno, que gosta de jogar entrelinhas e que acaba por dar mais ao jogo na medida em que não faz apenas golos – não que o Cristiano Ronaldo faça apenas golos mas, na minha opinião, é um jogador menos completo nesse sentido. O Messi baixa no terreno, faz assistências, marca e finta. É um jogador com outra criatividade.”

Apesar de toda a rivalidade, já poucos se lembram do início. O primeiro embate entre Cristiano Ronaldo e Lionel Messi aconteceu a 23 de março de 2008, quando o Manchester United visitou o reduto do Barcelona para as meias-finais da Liga dos Campeões. Neste confronto número 1, os dois saíram a zeros, assim como as respetivas equipas. Já na segunda mão, os ingleses acabariam por levar a melhor e seguiram para a final da Champions, onde bateram o Chelsea.

Estes foram os dois primeiros jogos entre Ronaldo e Messi de uma história que conta já com 36 confrontos: seis na Liga dos Campeões, 12 na La Liga, cinco na Taça do Rei, cinco na Supertaça de Espanha e dois em amigáveis pelas respetivas seleções.

O saldo destes encontros dá vantagem ao argentino que soma 16 vitórias (44%), nove empates (25%) e 11 derrotas (31%).

Apesar disso, um dos mais marcantes encontros entre o português e o argentino aconteceu há pouco mais de um mês e terminou com a vitória de… Cristiano Ronaldo.

A 8 de dezembro de 2020, a Juventus de Ronaldo venceu o Barcelona de Messi por 3-0, com dois golos do internacional português em partida da fase de grupos da Liga dos Campeões.

Dois anos e meio depois – com a saída de Ronaldo para a Juventus, – os dois melhores do mundo voltaram a medir forças. Há 15 anos que dominam o futebol mundial e ainda não largaram o trono. No entanto, alguns vaticinam que poderá ter sido uma das últimas danças, nesta reedição da final de 2015 entre catalães e italianos.

Ronaldo acabou por ser o homem golo, com dois golos apontados na sequência de duas grandes penalidades. Messi esteve muito em jogo, ensaiou muitas tentativas à baliza, mas não teve a sorte de encontrar o caminho das redes.

O melhor marcador

João Almeida Rosa esclarece que, efetivamente, a grande semelhança entre os dois jogadores “é a aptidão para o golo que os dois têm, mas mesmo a forma de chegar ao golo é quase sempre diferente. O Messi marca quase sempre de pé esquerdo, enquanto o Cristiano é mais plural na forma como marca.”

A verdade é que, no passado domingo, 10 de janeiro de 2021, Ronaldo marcou o 759.º golo da sua carreira em jogos oficiais e está muito perto de entrar (ainda mais) para a história do futebol.

Com o golo frente ao Sassuolo, CR7 igualou o recorde de golos em jogos oficiais detido por Josef Bican. O avançado checo terá marcado mais de 805 golos ao longo da sua carreira, mas tendo apenas em conta os golos marcados em jogos oficiais – recolhidos pela Rec. Sport.Soccer Statistics Foundation (RSSSF) – e usando o mesmo critério para o capitão da Seleção Nacional, Cristiano Ronaldo está a um golo de se tornar no maior goleador de sempre.

Mas estes recordes têm dado muito que falar, face à incerteza de alguns dos valores e nem a FIFA nem a UEFA conseguem dizer, por exemplo, quantos golos exatamente marcaram Bican e Pelé, jogador que também já foi ultrapassado por CR7.

Apesar disso, Cristiano Ronaldo já é o melhor marcador da história da Liga dos Campeões (135 golos), do Real Madrid (450) e da Seleção de Portugal (102).

Por seu lado, Lionel Messi é o sexto no ranking de melhores marcadores da história do futebol com 719 tentos. Para chegar aos números de Cristiano Ronaldo, o argentino precisa ainda de ultrapassar Gerd Müller (727 golos), Romário (747) e Pelé (757).

No entanto, o número de golos pode não ser o suficiente para sustentar qual dos dois é o melhor jogador do futebol atual, como defende João Almeida Rosa. “Às vezes, por o Cristiano marcar golos com os dois pés e de cabeça, diz-se que ele é um jogador mais completo, mas na minha opinião, só é um finalizador mais completo. De forma geral, considero o Messi mais completo porque não se limita à finalização nem ao último terço. É capaz de baixar mais no terreno e, estou convencido, que se fosse preciso o Messi podia jogar em mais posições”, refere.

O CRISTIANO SEMPRE FOI UMA PESSOA QUE PROCUROU MUITOS DESAFIOS

Os títulos

Falar em Cristiano Ronaldo e em Lionel Messi, além de ser falar em talento, é também falar em títulos e prémios arrecadados ao longo dos anos em que dividem o estrelato do futebol mundial.

Por ter passado por vários campeonatos europeus, Cristiano Ronaldo tem uma maior diversidade de títulos quando comparado com Messi, que apenas representou o Barcelona. Apesar dessa diferença entre a carreira dos dois, João Almeida Rosa considera que esse não é um fator determinante na criação de um bom jogador.

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