REPORTAGEM: Crise do caju traz de novo a fome à Guiné-Bissau

por LMn | Lusa
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A guineense Maria Esperança Fernandes tem muitas bocas para alimentar, mas está cansada de procurar alternativas à venda do caju, amontoado em casa porque ninguém compra, e a fome já é uma realidade na família.

A viúva, produtora em Mansoa, na região de Oio, centro-norte da Guiné-Bissau, diz que, de vez em quando, não tem outra hipótese senão vender o caju a 150 ou 200 francos CFA (entre 0,22 e 0,30 euros) um preço muito inferior aos 350 francos CFA (0,57 euros) estipulados pelo Governo.

“Às vezes vendo um saco [de caju] para conseguir três ou quatro mil francos CFA [4,5 ou sete euros] para comprar um saco do arroz”, diz, manifestando, no entanto, a revolta por ter de vender ao desbarato a fonte de sustento das 14 pessoas da família, incluindo seis crianças.

Sobre a hipótese de trocar caju por arroz, a resposta é pronta: “Não consigo e não vou fazer isso. Tenho fome, é verdade, mas não vou fazer isso. De vez em quando desenrasco e vendo 10 quilogramas para arranjar 2 mil francos CFA (3,5 euros) para comprar o arroz e depois labuto para comprar outros ingredientes para fazer a comida”.

Além da dificuldade em alimentar a família, Maria Esperança diz que “nem sabão para lavar a roupa das crianças” consegue comprar e antecipa já um novo problema: “Tenho de arranjar dinheiro para pagar a matrícula das crianças, estamos no meio do ano letivo, não consigo”.

Leandro Pinto Júnior, diretor da ONG guineense Cooperativa Agropecuária de Jovens Quadros (Coajoq), uma Organização Não-Governamental que trabalha na região de Cacheu, no norte da Guiné-Bissau, diz à Lusa que “os agricultores estão a sofrer” porque este ano não conseguiram fazer a pré-venda da castanha de caju, que consiste em comercializar pequenas quantidades para custear as despesas de preparação dos pomares.

Além da conjuntura internacional e da quebra na procura, o dirigente atribui a crise à campanha eleitoral para as legislativas de 04 de junho último, que “prejudicou a comercialização” do caju, o que “poderá motivar a fome nas comunidades rurais”.

Namir Agostinho Bontche, produtor na Ponta Gardete, região de Biombo, a cerca de 10 quilómetros de Bissau, confirma: “Nos anos anteriores já tínhamos vendido toda a nossa castanha neste momento”.

“Até já se tinha iniciado aqui a compra em que algumas pessoas vendiam por 150, 200 francos CFA por quilograma, mas de repente parou”, diz, referindo que está “à espera do Governo porque eles é que decidem tudo”.

“O nosso apelo é para que o Governo arranje soluções para que os empresários possam comprar a nossa castanha”, diz.

Até lá, limita-se a apanhar o caju e a arrumá-lo em casa porque “não há comprador”, o que “torna difícil arranjar dinheiro para comprar arroz” para alimentar a família de mais de 20 pessoas.

“Estão a vender o arroz muito caro no mercado”, lamenta Namir, que paga 21,5 mil francos CFA (33 euros) por um saco de 50 quilos e se for o de “boa qualidade” pode chegar aos 24 mil (37 euros).

Apesar das dificuldades, este guineense, de 29 anos, tem esperança num futuro melhor e sonha ser músico. Diz com orgulho que já estuda música e canta no coro da igreja protestante.

Binta Sissé, produtora rural em Farim, na região de Oio, junto à fronteira com o Senegal, também tem “20 e tal” bocas para alimentar e queixa-se que “só uma pessoa não é capaz de aguentar essa gente toda”.

“Na época da apanha do caju toda a gente fica contente, mesmo aqueles que não têm propriedades do caju. Este ano estamos todos a chorar”, conta a guineense, para explicar a situação de “muita dificuldade” na região de Oio: “Nem temos o que comer. Se almoçares, não jantas”.

Binta diz que há quem chegue a oferecer apenas 75 francos CFA (0,11 euros) por quilo de caju.

Mussa Cissé, igualmente produtor em Farim, tem as mesmas queixas: “A situação é péssima”, “extremamente difícil” e há já “problemas de fome”, diz, explicando que fez a colheita do caju, mas não tem quem compre.

Este guineense já tentou a sorte “no outro lado da fronteira”, mas não conseguiu vender “por causa das apreensões por parte dos agentes de comércio, guardas nacionais”, que “não permitem nada”.

Mais de 80 por cento dos cerca de dois milhões de guineenses dependem direta ou indiretamente da produção da castanha de caju, principal produto de exportação do país.

O líder da coligação Plataforma Aliança Inclusiva (PAI) – Terra Ranka, Domingos Simões Pereira, vencedor com maioria absoluta das legislativas, definiu entre as prioridades do próximo Governo resolver o problema da fome que se faz sentir no país devido à fraca campanha de comercialização da campanha de caju.

Enquanto a resposta política não chega, Binta Sissé não esconde a revolta e resume o sofrimento da população: “um chefe de família chega a ter 100 sacos de castanha ‘deitados’ em casa e as crianças com fome, porque não há comida”.

“Isso é muito grave […] tens crianças a chorar, a pedir-te dinheiro para comprar comida”.

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