Reinaldo Ferreira (Portugal/Moçambique)

por João Miguel Henriques

O futuro

Aos domingos, iremos ao jardim.
Entediados, em grupos familiares,
Aos pares,
Dando-nos ares
De pessoas invulgares,
Aos domingos iremos ao jardim.
Diremos, nos encontros casuais
Com outros clãs iguais,
Banalidades rituais,
Fundamentais.
Autómatos afins,
Misto de serafins
Sociais
E de standardizados mandarins,
Teremos preconceitos e pruridos,
Produtos recebidos
Na herança
De certos caracteres adquiridos.
Falaremos do tempo,
Do que foi, do que já houve…
E sendo já então
Por tradição
E formação Antiburgueses
– Solidamente antiburgueses -,
Inquietos falaremos
Da tormenta que passa
E seus desvarios.

Seremos aos domingos, no jardim,
Reaccionários.

 

Nascido em Barcelona, a 20 de Março de 1922, Reinaldo Ferreira, de seu nome completo Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira, era filho do jornalista Reinaldo Ferreira, o celebrado Repórter X.

Tendo vindo para Moçambique (Lourenço Marques) em finais do ano de 1941 e aí feito o sétimo ano dos liceus, por lá se conservou, com raras e breves escapadas à Metrópole, até Junho de 1959, data do seu falecimento. Em Março desse mesmo ano declarara-se-lhe um cancro de pulmão que quase fulminantemente o arrebatou.

A pouco mais do que isso se resume a biografia de Reinaldo Ferreira, se por biografia entendermos o conjunto de acidentes que mais vulgarmente dão nas vistas. Biografia, portanto, como tantos, quase a não tem ou a tem predominantemente interior. Obra também a não deixou publicada, tendo os seus poemas sido mais postumamente reunidos no volume Um voo cego a nada, supostamente planeado pelo poeta ainda em vida. Por ironia do destino, o que mais alargou as fronteiras do seu nome foi o que de menos valor ele nos legou: colaboração em algumas revistas musicais, letra de uma ou outra canção de grande êxito, teatro radiofónico, pouco mais.

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