Referências

por Frederico Raposo

Podia começar o dia e decidir apenas viver
Sair um pouco de mim, permitir-me espaço, dar mais um passo
Podia abrir a porta, deixar que a luz entre e depois ir ao seu encontro
Podia ir tranquilo, em paz, caminhar na ponte que tanto adoro
Ir à porta de ferro que lá se encontra, solucionar como se abre
Confirmar que para lá, existe um admirável mundo novo à minha espera
Podia também subir à mais alta colina, e cheirar
Cheirar o vasto mundo que os olhos alcançam
Podia ali alicerçar uma nova igreja, um templo aos sentidos
Podia ser jardineiro e agricultor, mesmo que já o tenha sido
Mas desta vez cultivar apenas sonhos e futuros pensamentos
Levá-los com a ponta da caneta à branca folha que os espera
Poderia num só dia ver o sol que se levanta e o que se põe
E no mesmo dia ainda, a lua, as estrelas e todo o firmamento
Talvez nessas colinas descobrir gigantes moinhos girando com o vento
E sem espada nem armadura, carregar a valentia contra eles
Ou poderia apenas sentar-me a sós, neste verde banco de jardim
E deixar que os sentidos me levem longe a navegar
Talvez por este rio abaixo, que sei que por teimosia e esperança
Me levaria, impulsionado pela saudade, aos rios da minha terra
Rios que provavelmente me contariam grandes e pequenas histórias,
Histórias de tágides, de fados, de amores naufragados, de destinos e pescarias
Talvez ouvisse em primeira mão a mais comovente de todas
A da gaivota que no cimo de uma vela erguida procurava companheira
E por entre os gemidos da lusa guitarra, que como ondas que se atiram
A virtuosas e solenes Paredes, num perpétuo movimento me iam embalando
Voltaria entretanto a esta cidade onde vivo, que me acolheu como sua
E mais uma vez admiraria os majestosos edifícios adornados de estátuas
Estátuas a que dei vida e aventuras, e ainda que apenas na minha mente
Acredito que para elas, inertes e aparentemente paradas no tempo isso já seja viver
Beberia entre amigos em lugares de índole duvidosa, lugares perto da terra e por baixo dela
Que os deuses do vinho não se preocupam em que templo os bebemos
Apenas que com a nossa própria loucura os saudemos em respeito e em louvor à sua própria
Que o que nos une, deuses e humanos, é este Desassossego com que nascemos e vivemos
E ainda que o nosso corpo morra, muitas vezes essa loucura desassossegada permanece,
Permanece naqueles que nos viveram, que nos sentiram, nos que se deixaram contagiar por ela
E assim são, sem saberem, a extensão desta continuidade histórica que todos os dias criamos
E a todas as pessoas que passariam por mim, iria saudar, mesmo que ignorado, sorriria de volta
Ao Gabor da Tabacaria acenaria com um “szia!” Pois nem o vento que não se vê, é nos indiferente
E a cortesia, tão vista com desdém, acredito ser a graça com que nos trata os que vêm mais além
Voltaria então ao verde banco em frente da grande árvore do jardim, a de folhas vermelhas
Onde por certo estaria num repouso procrastinador este corpo sonhador
Talvez ao abrir os olhos estivesse sentada a meu lado uma rapariga de verde turbante
Com o dom de ter no ombro um fruto seco desenhado. seria bolota? Ou avelã?
De certo haveria uma lenda, um conto, que contasse a tinta derramada no ombro nu
E talvez eu já não quisesse sair dali, e não penso no banco onde me sentava, mas no olhar
No doce voraz olhar, que me deixaria preso, incapaz escapar, refém do Pleno que sentia
E seria ao olhar, bem fundo nos seus olhos que veria, além de todo o Sonho que vive em mim
A certeza de que a Beleza é o sentimento que mais nos move e no amor a ilusão da sua pertença.

Budapeste, 14 de junho de 2021

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