Quase Primavera

por João Miguel Henriques

Muito céu azul, boas temperaturas e no ar aqueles cheiros a anunciar a estação mais esperada. Quero acreditar, como sempre, que Março afugentou definitivamente mais um Inverno. Sei porém que nestas latitudes os Invernos não se dão assim por vencidos e quando menos se espera faz-nos ainda o frio uma última e inesperada visita. Vem sempre da Sibéria, como dizem. Lembro-me de certo nevão em Abril que me ensinou a duvidar dos indícios da Primavera. Mas parece que estamos mesmo quase, senão vejamos:

Nas pontas dos ramos, vislumbram-se já os primeiros rebentos, gordos de seiva e vida, mortinhos por florescer. A enfermeira que me regista para a consulta pergunta-me de onde venho e desfaz-se em elogios a Portugal, recordando com um sorriso rasgado certa  viagem de norte a sul do país, plena de encanto e novidade. Também o médico me elogia a pátria de origem, contrapondo porém em seguida, não espere que eu consiga memorizar o seu nome. Nos caminhos da floresta já derreteu todo o gelo de Fevereiro e o sol que agora brilha já quase aquece, já é possível caminhar sem frio e casaco pesado. A senhora do mercado começa a ensacar-me, de um secreto lugar a que só ela acede, umas maçãs com péssimo aspecto, muito diferentes das apresentadas em primeiro plano. Digo-lhe que não quero aquelas maçãs, que quero ser eu a escolher. E ela diz-me que não posso, que não me deixa. Viro as costas e vou-me embora. Quase Primavera. Revejo alguns amigos que com o bom tempo também lá vão aos poucos saindo de tocas e hibernações. Estou com dois deles a almoçar num dos mais bonitos jardins da cidade quando um guarda de enormes proporções, qual mostrengo assomando ao Gama, se põe a gritar que ali não é permitido beber álcool. A ele se juntam mais três figuras do mesmo género, subitamente saídas de um arbusto ao nosso lado, confirmando em tom policial que de facto à entrada do parque está bem indicada a proibição de consumo de bebidas alcoólicas. Só que é sumo, senhores. Não é álcool, não é transgressão ou matéria de conflito, está tudo bem, é quase Primavera senhores, sumo de pêssego, esclareço, erguendo o vidro da garrafa ao radiante sol da tarde. Na universidade o porteiro recebe-me mais uma vez com alguns presentes, falando-me no húngaro mais veloz de que há memória e do qual eu só realmente entendo, sem que ele o saiba, no máximo uns vinte por cento. Sinto o seu carinho tocar-me o fundo da alma, e agradeço-lhe com um sorriso sincero. Em casa vamos passando mais tempo na varanda, já lá conseguimos almoçar pela primeira vez este ano e começamos também a fazer planos para as plantações de Abril, escolhendo já mentalmente o tipo de vasos e culturas: tomates, malaguetas, umas quantas alfaces e toda a sorte de ervas aromáticas, tudo isso entremeado de hortênsias e sardinheiras. E depois mais tarde, no quarto, preparo o fato para um funeral. É mesmo quase Primavera. Quase sempre quase Primavera. A promessa de rebentos na ponta dos ramos. A ameaça de um gelo tardio, que nos faça duvidar.

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