Quanto vale o rio Tejo?

por LMn

Por Daniel Deusdado|DN

Tejo: como matar um rio”. Num mundo de catástrofes, o prenúncio de morte do principal rio português é apenas uma notícia. Não mexe um ponteiro de emoção em quase ninguém, exceto nos pescadores e agricultores que vivem aquela vida pobre e típica de quem depende da mãe-natureza. Mas excetuando o efeito sobre eles, o Tejo é tão real no quotidiano dos lisboetas como um ecrã de televisão: uma imagem, um belo horizonte, uma mais-valia imobiliária. Quantas pessoas alguma vez tocaram no rio ou tomaram banho nele? O que lhes diz enquanto memória?

A nossa geração viveu com os rios como esgotos a céu aberto. Muitos milhões foram investidos para os ir limpando mas, mesmo assim, o processo está longe de acabar. Portanto, o rio não “existe”, só existe a empresa que nos fornece água pela torneira para beber ou tomar banho.

Sabemos igualmente que uma boa história de um jornal, como esta do DN-El País, é quase sempre incapaz de gerar um desenvolvimento noutro jornal (uma regra de ouro do jornalismo: não se puxa pelos “concorrentes”). A menos, claro, que seja crime ou tenha pessoas a falar pelos cotovelos. Não é o que se passa aqui. Tal como nos grandes temas ambientais, os peixes não dão entrevistas, as aves não vão a estúdio e os mamíferos apesar de tudo não falam a nossa língua.

O Tejo também não tem voz mas há a reportagem de Ricardo J. Rodrigues e Juan Calleja, com fotos de Rui Oliveira. O problema gigantesco e, quiçá, irreversível, que eles nos trazem é o das consequências das alterações climáticas: mais calor, menos água doce. E por essa razão, mais água salgada a entrar pelo estuário dentro, com tudo o que isso acarreta: níveis de salinidade que destroem culturas, peixes exóticos, marítimos, que ameaçam o ecossistema fluvial e, em cima de tudo isso, uma contagem decrescente a água salgada chegar às captações de abastecimento de Lisboa.

Há muitos anos que o caudal do Tejo é um problema enorme. Comecemos por Espanha. Entre a água que é consumida e depois despejada com e sem tratamento, mais a que sofre desvios para transvases, somemos a que é sujeita aos desvios nas centrais nucleares para arrefecimento de reatores. Como se não bastasse, em Portugal, o rio e os seus afluentes sofrem o mesmo problema em relação ao consumo e poluição urbana, a que se adicionam as descargas de muitas indústrias: o escândalo da poluição da Celtejo foi apenas um entre milhares de ocorrências, de pequena ou maior monta, de diversas origens, ao longo dos anos. Acresce ainda outro fator, cada vez mais significativo: a gigantesca escorrência de cinzas pós-incêndios, retirando oxigénio aos lençóis de água (sobretudo das albufeiras) por via da eutrofização.

É neste contexto que o rio, essencial à vida de Lisboa e de tantas outras cidades no seu percurso, está altamente ameaçado. E é preciso fazer algo. O Ministério do Ambiente fala de uma barragem junto à fronteira, para dotar o rio de maior capacidade de resposta face aos avanços do mar, mas falta perceber a fundo quais as vantagens em mais uma obra de betão sobre uma estrutura natural e se esta é a melhor hipótese.

Já agora, um parêntesis. Esta reflexão sobre a água do Tejo deveria levar-nos a pensar sobre qual a extraordinária razão para expulsarmos milhares de aves do estuário e colocarmos uma bomba atómica sobre esta reserva natural. Um aeroporto, com dezenas de aterragens e descolagens diárias na Margem Sul, é mais uma machadada num ecossistema único na Europa. Agora que temos um verdadeiro plano ferroviário à vista, não é possível criar ligações ferroviárias rápidas a Beja e Monte Real para que aliviassem a Portela? É impossível aproveitar a base de Alverca para voos de mercadorias?

Tudo sacrificamos em nome da economia do nosso bem-estar mesmo que percamos o equilíbrio com o mundo natural que nos rodeia. Sem ele, a nossa vida é um inferno porque não há água limpa, nem aves ou biodiversidade, agricultura e pesca, e lazer (ou se preferirem, turismo, para falar em linguagem de cifrões). Muito mais voos low-cost dos que existem hoje em Lisboa vão tornar-nos mais felizes?

Voltando à água do Tejo. A reportagem do DN tem uma conclusão cristalina: há outros grandes rios na Europa a perder caudal de água, como o Reno, mas nenhum ao ritmo do Tejo. Quem conhece a velocidade de desertificação de Espanha, e o nível de incêndios em Portugal, não fica espantado. Há uma catástrofe natural a acontecer sobre a água doce do planeta em todo o lado. E somos oito mil milhões de pessoas a precisar de beber todos os dias. Há algo mais grave que isto?

“O Tejo é mais belo que o rio que corre na minha aldeia”, dizia Pessoa, via Alberto Caeiro. Esse tempo que passou. Hoje já quase não há aldeias, o Tejo está cada vez menos belo, e qualquer dia não corre. Quando ele parar, nós também não ficaremos cá.

Leia a reportagem completa aqui:

A agonia do Tejo: Como Matar um Rio

Rio Tejo: Um Enorme Desvio de Água

O Tejo em Lisboa: Quando o Sal ataca

 

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