Portugal quer estar na cadeia de abastecimento de baterias elétricas mesmo que não fique com a fábrica da Volkswagen

por LMn

“Queremos estar na cadeia de abastecimento e reter a maior parte de volume possível. E o valor não está necessariamente na montagem da bateria”, diz Eurico Brilhante Dias.

A Volkswagen quer ter seis novas unidades de produção de baterias até 2030. Duas já têm localização — Suécia e Alemanha em 2023 e 2025, respetivamente. Mas a terceira, planeada para 2026, pode ficar em Portugal, Espanha ou França, de acordo com a empresa. Portugal até poderá não ficar com a fábrica em si, mas “quer estar na cadeia de abastecimento de baterias elétricas”, disse ao ECO, o secretário de Estado da Internacionalização.

“Queremos estar na cadeia de abastecimento e reter a maior parte de volume possível. E o valor não está necessariamente na montagem da bateria”, explicou Eurico Brilhante Dias.

No capítulo de atração de novos investimentos, o responsável revelou que está “a trabalhar” para atrair mais investimentos no setor farmacêutico e aeronáutico. “Este ano está a correr particularmente bem até agora”, sublinha.

O investimento da Zendal angariado o ano passado, mas fechado já este ano, é um bom exemplo da capacidade de Portugal se posicionar na corrida de atração de empresas para produzir vacinas. A fábrica de Paredes de Coura deverá estar pronta e a encher vacinas ainda este ano. Mas Portugal também pode marcar pontos ao nível dos serviços. “Portugal é um excelente território para a localização de serviços de apoio ao processo de vacina, recolha de dados e tratamento de dados que permitam melhorar a vacina e servir melhor os utilizadores da vacina”, defendeu.

Fala-se da possibilidade de Portugal poder acolher uma fábrica de baterias da Volkswagen. Qual a real capacidade de a fábrica ser instalada no país? Já está a haver movimentações de bastidores?

Essa afirmação foi feita pela Volkswagen a partir da Alemanha e não das entidades em Portugal, da Autoeuropa. É só essa que comento. As diligências que tomaremos, a partir do embaixador de Portugal na Alemanha ou aqui em Portugal, são de demonstrar à Volkswagen a nossa abertura para discutir esses temas e investimentos. Portugal tem excelentes condições para, a partir das matérias-primas, mesmo importadas, de ter unidades de conversão de lítio. Há centros de investigação que trabalham essa conversão e transformação em células de lítio podendo gerar uma parte fundamental da bateria. Sabemos que este é um processo competitivo em função da estrutura da cadeia de abastecimento, a fábrica de baterias tende a ficar mais próxima da linha de montagem ou da produção dos componentes da bateria. Essa é uma decisão da Volkswagen, mas Portugal dará todos os instrumentos para que a empresa possa tomar a melhor decisão.

Sem prejuízo disso, Portugal poderá sempre estar na cadeia de abastecimento da fábrica de baterias, sem prejuízo de ter uma fábrica de baterias ou não. Queremos estar na cadeia de abastecimento e reter a maior parte de volume possível. E o valor não está necessariamente na montagem da bateria.

Mas Espanha anunciou a criação de um consórcio público-privado com a Volkswagen, Seat e Iberdrola para a primeira fábrica de baterias elétricas.

O grande anúncio de Barcelona foi feito ao abrigo de instrumentos que ainda não estão fechados, em particular dos Planos de Recuperação e Resiliência que ainda estão a ser discutidos em Bruxelas, quer do ponto de vista regulamentar, quer dos seus conteúdos. Parece-me que foi um pré-anúncio de que tomamos boa nota. Mas Portugal manifestará perante as autoridades da VW todo o empenho para que tomem a melhor decisão possível e escolham Portugal, mas compreendemos que há dimensões diferentes a avaliar.

Como vai a capacidade de Portugal atrair Investimento Direto Estrangeiro, depois da quebra do ano passado?

Sim, houve uma quebra do fluxo, mas Portugal o ano passado não perdeu stock. A perda líquida de IDE foi inferior ao fluxo que entrou, permitindo um aumento do stock. E tivemos um aumento do stock até mais expressivo sem as special purpose entities (SPE) que são unidade específicas, recetáculos de investimento, que não necessariamente produtivo ou nas atividades económicas. Sem special purpose entities aumentámos o stock em cerca de quatro mil milhões de euros. Isto porque nas SPE houve um decréscimo. O crescimento do stock foi de cerca de 1,6% e atingimos um recorde. Nos últimos cinco anos aumentámos o stock sem SPE uns 30 milhões de euros, o que é um valor admirável para o padrão da economia portuguesa e angariámos 35 projetos. Não houve uma redução significativa em termos de números a nível da angariação, foi relativamente igual a 2019, temos é manifestamente investimentos em que houve um certo ponderar do avanço do investimento e das quantidades que se avançam o que é normal dada a pandemia.

Mas como está a correr este ano?

Este ano está a correr particularmente bem até agora. A Zendal é uma angariação de 2020, mas o investimento concretizou-se este ano. O contrato foi fechado este ano, mas a decisão de vir para Portugal foi tomada o ano passado. Estamos a trabalhar noutras angariações, algumas no setor farmacêutico e, na próxima semana, tenho uma nova reunião com uma empresa do setor aeronáutico onde temos mais um excelente investimento. É um investimento no qual estamos a trabalhar e espero continuar. A dinâmica deste ano é positiva. O pipeline continua relativamente cheio, o que é muito importante para irmos fechando os que perdemos, mas também convertendo os que ganhamos.

Estamos a trabalhar noutras angariações, algumas no setor farmacêutico e, na próxima semana, tenho uma nova reunião com uma empresa do setor aeronáutico onde temos mais um excelente investimento.

O país, o ano passado, aumentou muito significativamente a sua posição relativa como marca país, que é uma perceção externa. Num dos rankings Portugal foi considerado a segunda melhor marca pais da Europa, só atrás da Alemanha, na área de investimento e exportação, muito pelo excelente comportamento que tivemos na primeira vaga da pandemia. Na área de turismo fomos número um. Agora com a recuperação que tivemos depois de um janeiro difícil, em que Portugal está novamente entre os melhores, vamos relançar a nossa campanha de Portugal open for business.

Quando?

Em abril, para colar já ao relançamento e à retoma. Será uma campanha na Europa, para suportar o bom desempenho que tivemos no último ano, e noutros países como EUA e Canadá.

E para além do investimento da Zendal já há outras empresas interessadas em produzir vacinas em Portugal?

O investimento da Zendal, em Parede de Coura, é para produzir vacinas víricas, que que significa que pode produzir a da Covid-19, têm contrato com a Novavax que está em processo de autorização e licenciamento na EMA. A Novavax teve financiamento não só da administração norte-americana, mas também da fundação Bill & Melinda Gates. Temos fundadas esperanças que comece a encher vacinas até ao fim deste ano. Não será apenas para Portugal, mas para fornecer a nível global. Há uma semana estive em Paredes de Coura, a fábrica está a avançar a bom ritmo. Claro que é uma fábrica de vacinas e por isso terá de ter um conjunto de certificações que teremos de acompanhar, mas poderemos transformar Portugal num exportador de vacinas. Temos a perspetiva de que vamos precisar de mais vacinas, vamos ter de ser vacinados ao longo dos próximos anos, com alguma recorrência, para garantir a imunidade de grupo. Há a expectativa de que outras possam vir a fazer unidades de produção e enchimento de vacinas. Há alguns sinais importantes.

A GenIbet mostrou as nossas capacidades no quadro de desenvolvimento de produtos no quadro da biotecnologia e estamos a falar de vacina que atuam nessas áreas. A Bluepharma anunciou também um grande investimento, onde cabe também uma unidade para injetáveis e isso já é uma boa notícia. E dos grupos que estão ligados, a Pfizer, a Moderna, a Johnson & Johnson também foram contactados. Já contactámos mais de 40 entidades diferentes. Há contactos que se vão estabelecendo, apesar de as vacinas estarem em diferentes estádios de desenvolvimento e, por isso, há mais incerteza. Também estamos a abrir caminhos noutras áreas como os serviços e a prestação de serviços, mas nem todos relacionados com as vacinas, mas também muito interessantes.

Também estamos a abrir caminhos noutras áreas como os serviços e a prestação de serviços, mas nem todos relacionados com as vacinas, mas também muito interessantes.

Está a correr particularmente bem em função das minhas expectativas originais, porque há um bom acolhimento de Portugal. Achamos que, durante este ano de 2021 e em 2022, haverá novas oportunidades de acolher investimento do setor farmacêutico. Porque o verdadeiro objetivo, para além da questão imediata das vacinas, que é uma emergência e urgência global, é posicionar Portugal como uma localização de investimento idónea para acolher o setor farmacêutico e um setor em particular na área da biotecnologia. Portugal tem demonstrado grandes capacidades. Muitas vezes quando mostramos o caso português há do outro lado uma certa surpresa. Temos uma empresa como a Hovione que faz o ativo do Remdesivir para o mundo inteiro, temos uma empresa de origem jordana que é a Hikma que embala cá o Remdesivir para toda a Europa. Para além da GenIbet, na área da investigação e desenvolvimento, temos a Immunethep em Cantanhede, que desenvolveu uma vacina nasal que ainda está em ensaios pré-clínicos. Com um projeto interessante, acabou de assinar um acordo com a Merck para desenvolver imunoterapias bacteriana. Temos outras empresas que participam no setor da própria logística das vacinas como é o caso da empresa que desenvolve caixas específicas para transporte de vacinas da Pfizer.

Estamos a construir um cluster nessa área?

Temos tido participação quer na área do medicamento, especialmente nos antivirais e retrovirais como é o caso da Hovione; quer na dimensão logística, da investigação e desenvolvimento. Portugal vai construindo um cluster associados às vacinas e ao setor farmacêutico muito interessante. Temos ainda a Bial e a Medinfar, duas empresas excelentes. A Bial ainda recentemente anunciou um grande investimento nos Estados Unidos. Portugal como país, como uma marca que acrescenta valor ao que se faz cá, é muito importante estar bem posicionado no setor da saúde e das tecnologias de informação e comunicação em geral. Economias desenvolvidas com elevado valor acrescentado têm setores da saúde com competências e capacidade produtiva e de investigação e é isso que estamos a tentar demonstrar para puxar pelo país e em particular pelo setor farmacêutico.

Que serviços é que Portugal poderá captar nesta área da pandemia?

Por exemplo, de forma ilustrativa sem citar nenhum caso concreto, a aplicação destas vacinas a nível global vai obrigar a um elevadíssimo suporte da aplicação da vacina, que é muito especializado, que tem a ver com a forma como se faz a inoculação, mas também com o seguimento e com a recolha de dados que sobre a aplicação das vacinas, os efeitos secundários que possam ter, etc. Isso obrigará a centros especializados de acompanhamento do processo de vacinação. Portugal é um excelente território para a localização de serviços de apoio ao processo de vacina, recolha de dados e tratamento de dados que permitam melhorar a vacina e servir melhor os utilizadores da vacina. E como isso vai ser um negócio global e planetário evidentemente que os grandes produtores de vacinas pensam onde poderão localizar os seus centros de serviços e de competência associados às vacinas para poderem servir os seus clientes espalhados pelo mundo. O mais provável é que a Pfizer, a Moderna, a Janssen e a AstraZeneca — que terão inoculações da sua vacina espalhadas pelo mundo inteiro — precisem de centros de competência próprios que suportem essas operações e os SNS na utilizam de vacinas. E é isso que creio que Portugal tem grandes capacidades e competências para realizar.

A este nível de serviços já há algum acordo fechado?

Nessa área temos duas ou três leads [intenções] de investimento que estamos a trabalhar, mas não posso dar mais detalhes. Deste processo já resultaram contactos com produtores de vacinas onde podemos explorar esta área.

Fonte: Eco.sapo.pt

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