Portugal & Hungria

por LMn

por João Amendoeira Peixoto (*)

A ligação entre nações envolve linhas de união que marcam a existência de cada uma, importante será fortalecer as mesmas, tal como construir a dinâmica e envolvência entre Portugal e a Hungria, velhas conhecidas do continente europeu. Somos obrigados a sentir a paixão, por diversos motivos, traçando um mundo de acontecimentos desde os pormenores históricos às diferentes visões económicas e de mercado para o futuro.

É no presente que existimos e queremos dizer desta vida que nos une.

O papel de investigar o passado, firmando os alicerces do que conhecemos, é revitalizante e preenche laços, caminhar entre os acontecimentos de ambas as nações permite ver luzes de possibilidades desde o turismo ao investimento industrial ou cultural. Somos levados a acreditar que Portugal e a Hungria, firmemente unidas, poderão ter motivos mais do que suficientes para crescer num universo em expansão.

Unindo esforços e palavras, trago naquela que é a minha primeira expressão escrita sobre este entrelaçar de linhas entre Portugal e a Hungria, como primeiro assunto, aquele que é dos mais apelativos e apreciado por muitos e por todos os motivos: o vinho.

Sobre este produto milenar, cujas origens se perdem no tempo, há muito que os portugueses e os húngaros surgem como exímios na produção vinícola. Com facilidade nos debruçamos sobre um teclado e procuramos mais sobre os “nossos” vinhos e percebemos a dimensão deste antigo e vasto mercado.

Fiz por encontrar um momento em que os nossos países se tivessem cruzado neste assunto, pelo que o dia 6 de novembro de 1875 no teatro da Trindade em Lisboa me pareceu ser o acertado, pois tratava-se da 13ª Conferencia sobre vinhos, onde o professor  António Augusto de Aguiar (1838-1887), que tinha participado na exposição de Londres de 1874, se debruça sobre os produtos húngaros.

Tal como o leitor poderá reparar, é possível viajar pela Hungria, através do vinho, tendo em consideração que acontece pelo olhar degustador de um português que não imaginaria a dimensão dos acontecimentos que percorreram o século que se seguiria.

Assim nos conta António Augusto de Aguiar: “A exposição hungara sem que fosse um grande bazar, nem uma feira da ladra, onde o que mais abunda são objectos in uteis, coisas velhas e utensílios quebrados, satisfazia o inves tigador, porque representava com inteira clareza a cultura e fabrico d’aquelle paiz – garrafas elegantes e perfeitas, bem calibradas, de boas côres e de formas em harmonia com os vinhos. Rotulos desenhados com muito gosto, capsulas bem justas e com as marcas nítidas. Tudo feito com tal arte e primor que se podia dizer-parece que ninguem lhes mecheu. O vinho limpido e brilhante, denunciando esmerado fabrico e rigoroso tratamento; as datas fazendo ver a existencia de adegas subterraneas bem construídas, sem as quaes não envelhecem vinhos fracos; emfim, tudo quanto se póde conseguir, onde ha grande propriedade sensatamente agricultada, e riqueza applicada a bem produzir. (…)”.

A sociedade vinícola de Budapeste, “sob a direcção do sr. Schiefl’ner, levou ali uma interessante collecção, que se compunha de 78 expositores e 209 amostras, afóra outras pertencentes a sociedades menos notaveis, e a particulares que concorreram em separado”.

Segundo o testemunho luso, os húngaros não se limitaram a enviar garrafas para a exposição londrina, enviaram grandes quantidades de vinho que se vendeu com rapidez.

O comissário português alega que o mercado húngaro é inteligente, mesmo dentro do país, abastecendo em grande quantidade Viena, sendo o vinho bastante conhecido na Polónia e na Rússia, assim como, na Inglaterra que é particularmente apreciadora do vinho doce de Tokaj, que em Portugal é apelidado de “água pé doce”. Quanto ao preço dos vinhos considera-os elevados, concluindo serem para um consumo restrito, não se podendo considerar como um concorrente à “marcha invasora dos vinhos peninsulares”.

Segundo António de Aguiar, “a producção total da Hungria podia elevar-se annualmente a 16 milhões de hectolitros ou 30 milhões de eimers, dos quaes se exportam pouco mais de 500 mil, sendo o eimer uma medida que equivale a 56,61 litros”.

Sendo a produção anual da seguinte forma:

E numa verdadeira viagem pela Hungria, classifica os vinhos em três grupos, considerando que no primeiro estão os Tokaj “que indubitavelmente representa um dos mais perfeitos vinhos doces do globo”, notabilizando pela finura o vinho Mozosmaly provindo de Tarczal, que os alemães o figuram como “raio de mel”. Existem outros idênticos como os de Talya, Mad, e das aldeias Lísska, Kissfaludy e Zsadany.

Sobre os “tokajs” medianos, os seus nomes correspondem às cidades respetivas, eles são Keresstur, Erdöbenye, Tolcswa, Nagysarospatak, Ond, Szanto Olassi, Ujehli, Sara, Golop, Szegilong, Zombor, Erdöherwathi, Ratka, Kís-Toronya.

Quanto ao segundo grupo, divide entre os brancos e os tintos.

Pertencem aos brancos “o Somlau, do condado de Vessprim, e que é particularmente de meza e dessert ; o Badacsony de Plattensee, do condado de Zalae, excellente vinho de meza, dessert e ausbruch; o Nessmelye do condado de Grane, bastante espirituoso e optimo vinho de meza; o Dioszegher-Bakator, e o Erméllek do condado de Biharer, vinhos fortes de meza e de dessert; o Szeredny do condado de Ungh, finos e alcoolicos, de meza e de dessert; o Neograd, particularmente de meza ; o Krassoe, bastante forte de meza e dessert.”.

Nos tintos: “o Erlau e o Visonta; mais ou menos córados, do condado de Heves, característicos pelo corpo, aroma, suavidade e espirito; o Szegszard do condado de Toma, que se especialisa pela viscosidade – cheiro agradavel e aroma suave e balsamico do mel; o Villany, do condado de Baraniya, geralmente reputado como analogo ao de Borgonha; o Adlersberger e sobretudo o 0ƒner de maior merito ainda, e o Krassoe, encorpado e espirituoso.”,

Quanto ao terceiro grupo, de destacar os de “Baraniya, bons tintos de meza; Pesth-Steinbruch, brancos de pasto; Hont idem; Pressburg, brancos e tintos; Vagh Ujhely tintos de meza; Weissenburg brancos; Somogy, tintos e brancos; Grosswardem, Bakator, brancos; Eisenburg, idem; Raab, idem; Balaton Füred, idem; Erdod, tintos; Fünƒkirchen brancos de meza espirituosos e outros tintos; Missla do condado de Tolna, brancos e algum tanto acidos; Odenburg, brancos de meza e suavemente maduros, atirando para adocicados; Paulitscher, tintos e fortes; Neusiedler Seewein, muito acidos e de meza; Simonthurn do condado de Tolud, fortes, tintos e maduros, e alem d`estes muitos outros de terceira e de quarta classe, que deixo de nomear.”.

Mais informação o nosso António Augusto de Aguiar nos deixou, dando até pormenores sobre a opinião de um enólogo e vinicultor húngaro chamado Morocz, que considera os melhores vinhos doces (ausbruch e dessert) serem produzidos no Tokaj-Hegyallja e seus arredores; em Menes, Rust, Odenburg, Badacsony e comarcas de Plattensee.

Como pode verificar, é possível através de um relato de 1877, sobre uma exposição londrina em 1874, viajar pela Hungria, dando a oportunidade ao leitor de desvendar se estes vinhos e locais ainda perduram no presente, quiçá, caso se tenham perdido, recuperar o passado, cultivando no presente e colhendo no futuro.

 

(*) João Amendoeira Peixoto,  natural de Tomar, profissional de saúde, autor e historiógrafo.

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