Portugal: Fábrica de vacinas em Paredes de Coura já daqui a um ano, um projeto que “declara morte à geografia”

por LMn

Ao captar para o seu território a farmacêutica galega Zendal, Paredes de Coura pode ser o único sítio onde se fabricarão vacinas víricas em Portugal, com a porta aberta ao combate à Covid-19

Por CESALTINA PINTO

Écom entusiasmo que o presidente da Câmara de Paredes de Coura, Vítor Paulo Pereira, tem mostrado a sua mais recente conquista: a construção, no parque industrial de Formariz, da primeira etapa de uma fábrica de vacinas víricas que começará a produzir em janeiro do próximo ano. O autarca ostenta “adrenalina” pelo investimento captado e orgulho por ver que “a paixão que se põe nas coisas” proporciona a tão ambicionada “rapidez nos processos”. E este investimento pode ser uma grande mais-valia para o seu município. “Isto aqui a trabalhar é a Champions League. E ganhamos 5 a 0”, atira, mais tarde, já no seu gabinete, satisfeito pelo trabalho realizado pela sua equipa. “O festival não nasce aqui por acaso. A primeira coisa que digo aos empresários é a verdade. Não se brinca. Se não posso, não posso. Se não consigo, não consigo.” Desta vez, conseguiu.

A seu lado, mais discreto, está o galego Andrés Fernández, CEO da Zendal, a farmacêutica que será uma das que, na Europa, fabricarão as vacinas Covid para a multinacional norte-americana Novavax e que ali investiu agora 15 milhões de euros. Valor que pode crescer até aos 80 milhões quando completar as cinco fases do seu plano de expansão. Para já, a vacina contra a Covid-19 não passa por Paredes de Coura, mas a porta fica aberta para o futuro. É visível a cumplicidade, as “relações de lealdade” e a “familiaridade” que unem o gestor a Vítor, sobretudo quando sorri com o olhar a cada momento em que o autarca fala. “Somos uma companhia familiar” – vai explicando – “e, por isso, é muito mais fácil investir num lugar como este, de baixa densidade, do que ir para Madrid, com quatro milhões de habitantes. São pequenas coisas que parece que não têm importância, mas para nós têm.”

Paredes de Coura, para onde muitos rumam durante o festival de verão, tem 9 198 habitantes e, por isso, o estatuto de baixa densidade que lhe proporciona alguma competitividade na captação de investimento estrangeiro. Do ponto de vista fiscal, os impostos são mais baratos, quer em relação a concelhos vizinhos quer em relação a Espanha. Mas Andrés Fernández rejeita liminarmente ter sido essa a razão da escolha. “Isso está sempre a mudar. Hoje é 23, amanhã 25, depois passa para 29… E eu que faço? Vou embora?”, questiona, argumentando de seguida que “uma das vantagens das unidades industriais é que se enraízam nas povoações”, sendo difícil mudá-las de lugar depois. “Finalmente a Europa está a mudar e a perceber que é importante ter indústria e que esta é um benefício para a comunidade. Não podemos desenvolver territórios de baixa densidade só com agricultura.”

O “namoro” entre Vítor e Andrés tem dois anos. Foram apresentados por “amigos em comum” quando a Zendal, uma PME espanhola, instalada em Porriño, a meia hora de distância de Paredes de Coura, começou a procurar um novo lugar para erguer uma segunda fábrica de vacinas. Procurou em França, Espanha, noutros concelhos portugueses. Acabou por se fixar em Paredes de Coura.

“Começámos a falar em setembro de 2018. Estabelecemos uma relação de confiança. E o primeiro acordo de cedência do terreno foi no seu escritório, em Espanha, em agosto de 2019”, conta à VISÃO o autarca de Paredes de Coura. Andrés Fernández recorda: “A primeira coisa que lhe disse foi: ‘Vítor, preciso de água, muita água.’ E ele disse que aqui teria toda a que quisesse. A água é o mais importante para o fabrico de vacinas. Depois acrescentei: ‘Preciso de gás natural.’ E ele disse: ‘Gás não tenho, mas arranjo’.”

“Vamos ter gás em agosto”, atira Vítor Paulo Pereira, satisfeito e divertido. “A Portgás, que tem a concessão, tinha obrigações e prazos legais para cumprir connosco, até para trazer o gás para consumo doméstico. Mas como não era apetecível, tinha-se esquecido”, ironiza. “Quando lhe falámos desta empresa, já foi ouro sobre azul. E a partir do momento em que o gás chega à zona industrial também chega aos consumidores domésticos.”

O autarca sente que este foi mais um golo baliza adentro. Assim como tem o compromisso de ter uma via rápida construída até ao final do ano que ligará a zona industrial à A3, evitando as duas dezenas de quilómetros da estreita estrada recheada de curvas e contracurvas do presente. “Mas, atenção. Vendemos-lhe o terreno de cinco hectares por 300 mil euros. Não foi dado, como muitos julgam. E vai pagar derrama, que aqui não perdoamos.”

O edifício agora construído ocupa 2 800 metros quadrados. “Temos um plano a longo prazo, em cinco fases. Inicialmente, empregaremos 30 pessoas, mas a intenção é chegar às 250. Começaremos com a produção de vacinas víricas de três tipos diferentes. Se levarmos tudo adiante, haverá poucas instalações na Europa deste nível. E com investigação própria”, promete o CEO galego.

E os olhos de Vítor brilham novamente, fazendo conta à contribuição do município para os valores da exportação: “Em 2013, tínhamos sete milhões, dois anos depois já tínhamos 50. Hoje estamos nos 100 milhões e, com a Zendal, vamos aumentar ainda mais.” Atualmente, a fábrica de calçado Kyaia, da portuguesa Fly London, e a Doureca, ligada à indústria automóvel, são alguns dos exemplos das indústrias exportadoras da vila.

Com a Zendal, fica também a promessa da criação de um “centro de empreendimento biotecnológico”, para a Galiza e o Norte de Portugal, atraindo assim emprego qualificado. “Estamos em contacto com as universidades para desenvolver projetos: com o laboratório ICVS-3B’s da Universidade do Minho, o politécnico de Viana do Castelo, e o i3s, ex-Ipatimup, do Porto”, adianta Andrés Fernández, explicando que investem cerca de 10% das vendas em investigação, tendo a tradição de criar sempre parcerias.

Tal exigirá um novo perfil de licenciados, muito centrados no conhecimento. O autarca sonha: “É também uma forma de fixar talento no território. Por isso, já temos um projeto de 27 casas a custos controlados e a construção de mais 50 noutra zona. É preciso criar condições para habitação, assim como criar um ambiente cultural.” Ele bem sabe que “o emprego é a única forma de as terras sobreviverem”. Remata: “Trazer esta empresa é uma declaração de morte à geografia e ao discurso triste do ‘estamos aqui e ninguém nos liga’.”

Zendal da tuberculose à Covid-19
A fábrica da Zendal em Porriño, Pontevedra, ficou com uma parte da produção da vacina que a multinacional norte-americana Novavax está ainda a testar, mas à qual a Comissão Europeia já contratualizou a compra de 100 milhões de doses, com a opção de vir a comprar outras tantas. Para já, a Zendal está a produzir as vacinas de teste. “Mas temos o compromisso de fabricar todas as doses de que sejamos capazes. Neste momento há falta de fabricantes, porque não há capacidade no mundo para todas as doses que serão necessárias”, observa o CEO da Zendal, Andrés Fernández. Espanha juntar-se-á ao Reino Unido e à República Checa na produção para a Novavax, que fabricará também na Índia e nos Estados Unidos.

Mas a grande aposta da Zendal – que faz também investigação própria para vacinas com a sua marca – é nas que se destinam a erradicar “a doença com mais mortes ao ano em todo o mundo, cerca de dois milhões de pessoas”: a tuberculose. “Foram lançados 700 projetos no movimento que a União Europeia iniciou em 2005, dos quais restam três ou quatro. Um deles é o nosso”, diz à VISÃO, adiantando que compraram a propriedade intelectual desta vacina ao investigador e professor de Microbiologia da Universidade de Saragoça. “Esta vacina está a correr muito bem. Estamos na fase II dos ensaios na África do Sul, mas só devemos chegar ao mercado em 2026.” Antes, o grupo galego estava mais focado em vacinas de saúde animal. Mas os tempos pandémicos trouxeram novas exigências em investigação e fabrico de vacinas víricas para garantir a saúde de humanos.

A Zendal é uma PME espanhola, já que a sua faturação não ultrapassa os 50 milhões de euros. E é uma empresa marcadamente familiar. O pai de Andrés Fernández é um dos principais acionistas e quatro dos seus cinco irmãos trabalham na empresa. Tudo começou com o avô. A criação de um departamento de veterinária, que mais tarde se torna independente, dá origem à Zendal, que hoje tem sete unidades de negócio diferentes.

Visão

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