Portugal e os reis apostólicos da Hungria

por LMn
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Por P. Gonçalo Portocarrero de Almada

Não é certamente por acaso que a única Rainha de Portugal que foi canonizada era de ascendência húngara. Com efeito, Santa Isabel de Portugal era filha do Rei Pedro III de Aragão e de sua mulher, a Rainha Constança de Hohenstauffen, neta paterna de Jaime I, o Conquistador, Rei da Aragão, e de sua mulher a Princesa Iolanda da Hungria, que era irmã de Santa Isabel da Hungria, a quem também se atribui o milagre das rosas.

Com a família real húngara deu-se um fenómeno curioso: muitos membros desta dinastia tiveram a sua santidade formalmente reconhecida pela Igreja. Decerto, nenhuma outra nação cristã se pode orgulhar de ter, na sua família real, que não em vão se intitula apostólica, tantos santos e beatos.

Santo Estêvão da Hungria (975-1028) foi o primeiro monarca magiar: a ele se deve a tão íntima relação entre a Casa Real húngara e a Igreja católica. Segundo uma piedosa lenda, teria recebido do Papa Silvestre II a ‘santa Coroa’, sem a qual ninguém podia legitimamente reinar na Hungria.

Como o filho de Santo Estêvão, São Imre, Emérico ou Américo, não teve geração, sucedeu no trono húngaro um neto de um tio de Santo Estêvão: o Rei André I. A este soberano sucedeu o seu irmão, Bela I, que foi pai de São Ladislau e avô paterno, por este seu filho, de Santa Irene de Hungria, que foi Imperatriz de Constantinopla pelo seu casamento com o Imperador João II.

Ao Rei Bela I sucedeu no trono húngaro Geza I, de quem foi neto Bela II, que foi avô paterno de Bela III. De uma filha de este monarca magiar nasceu Santa Inês da Boémia. Sucedeu no trono seu filho André II, que foi pai de Santa Isabel da Hungria, e avô paterno das Santas Cunegunda e Margarida da Hungria, das Beatas Constança e Iolanda da Hungria, a qual foi quinta avó de São Casimiro da Polónia (1458-1484). André II da Hungria foi ainda bisavô da nossa Rainha Santa Isabel e da Beata Isabel de Toss, princesa herdeira da Hungria.

É certamente notável que esta dinastia, em cerca de duzentos anos da história da família real húngara, tenha dado ao mundo e à Igreja nada mais do que doze bem-aventurados, como tal reconhecidos pela suprema autoridade apostólica. A saber: Santo Estêvão e seu filho Santo Emérico, ou Américo; São Ladislau e sua filha Santa Irene da Hungria; Santa Inês da Boémia; Santa Isabel da Hungria; as irmãs Santa Cunegunda, Santa Margarida, Beata Constança e Beata Iolanda; e ainda a Beata Isabel de Toss e a nossa Rainha Santa, que embora aragonesa pelo seu nascimento, descendia, por sua avó paterna, da família real húngara.

É também significativo que, embora fosse mais comum a beatificação ou canonização de pessoas que tivessem abraçado a vida religiosa, todos estes santos santificaram-se no mundo, através do desempenho exemplar das suas competências familiares e profissionais, como a nossa Rainha Santa Isabel, que também nunca professou na vida religiosa, numa eloquente antecipação da doutrina evangélica e conciliar, que recorda que todos os cristãos estão igualmente chamados à santidade e ao apostolado na Igreja.

Com certeza que a beatificação e canonização de tantos membros da família real húngara se explica por essa sua condição, pois não seria tão fácil promover a subida aos altares de cidadãos que não tivessem a mesma projeção histórica, não só pelos custos inerentes ao processo, mas também porque, tratando-se de membros da família real, era a própria Coroa que estava empenhada em promover estas beatificações e canonizações.

Não obstante os numerosos exemplos de santidade que a família real magiar deu à Igreja e ao mundo nas suas primeiras gerações, não esgotou nelas a sua virtude. Com efeito, o último Rei apostólico da Hungria e derradeiro Imperador de Áustria, Carlos I, também foi beatificado. Por uma tripla razão, o Beato Carlos I está especialmente ligado a Portugal: por ter falecido em território nacional, nomeadamente na Madeira, onde está sepultado; por ser neto materno de uma princesa portuguesa, a Infanta D. Maria Ana de Bragança, filha da Rainha D. Maria II; e por também sua mulher, a última Imperatriz austríaca e Rainha apostólica da Hungria, Zita, cujo processo de beatificação e canonização está em curso, ser neta de uma Infanta portuguesa, D. Maria Antónia de Bragança, filha de el-Rei D. Miguel I.

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