Portugal & Hungria – parte II por João Amendoeira Peixoto

por LMn

Relembrando o relato de António Augusto de Aguiar (1838-1887) sobre a mostra de vinhos húngaros na exposição de Londres de 1874, decidi dar continuidade. Como tivemos a oportunidade de verificar, através dos produtos da terra podemos viajar dando luz aos tons do passado, trazendo-os até a esta era digital.

Há uma publicação de 1870, referente aos relatórios especiais dos cônsules de Portugal acerca da produção, fabrico e consumo de vinhos, o que nos permite complementar com pormenores curiosos sobre os vinhos húngaros.

Este magnífico relatório é de Eduardo Wiener de Welten, cônsul geral. Nele há relíquias tal como o vinho do Porto ser visto na Hungria como uma especiaria rara.

Conta-nos que na Hungria não se emprega todo o cuidado nos diferentes processos de fabricação do vinho, mas que, no entanto, os grandes produtores fazem progressos para melhorar os seus vinhos. A descrição do processo de fabricação dos vinhos é dividida entre os tintos e os brancos.

Sobre o vinho branco: As uvas vindimadas são mettidas em sacos e pisadas a pés de homens. O bagaço e espremido por meio de prensas de cesto (Korbpressen). Deixa se fermentar o mosto em toneis ao ar livre. Quasi sempre os vinhateiros mais intelligentes servem-se de um apparelho simples (de vidro ou argílla) adaptado ao batoque do tonel para evitar o contacto do ar atmospherico, e facilitar a saida do acido earbonico. O vinho separa-se das borras nos mezes de dezembro ou janeiro.

Quanto ao vinho tinto, dando continuidade com a restante informação do relatório:

No fabrico destes vinhos faz-se geralmente o desengace das uvas por meio de crivos ou grades. Pisam-se depois as uvas a pes de homens, e deitam-se em grandes dornas de 100 pipas e mais de capacidade, hermeticamente fechadas, mas em condições que facilitem a saida dos gazes que se desenvolvem.

Depois da fermentação, quando o vinho esta claro, o que succede den tro de tres a quatro semanas, transporta-se das dornas para os toneis da adega.

O vinhateiro hungaro raras vezes trata o vinho na adega, e a não ser a trasfega annual, deixa ao negociante todo o cuidado do seu tratamento.

O maior defeito do fabrico dos vinhos de Hungria, está no processo usado na fermentação. É facil aprecia-lo se attendermos ao clima do paiz e a epocha da vindima. Do fim de setembro ao metade de outubro, o calor e de ordinario excessivo durante o dia, enquanto que as noites são frias e humidas. O vinho novo, estando ao ar livre, acha-se durante o dia n’uma fermentação que de noite diminua e para as vezes completamente. Com estas rapidas transições, que têem logar duas vezes em vinte e quatro horas, a fermentação não se opera naturalmente, mas sim de um modo muito incompleto. Concluída esta fermentação violenta, colloca-se o vinho em adegas frias, onde uma fermentação ulterior transtorna o vinho durante annos. Este mal poderia evitar-se facilmente, por meio das estufas, segundo um methodo simples já adoptado em algumas partes.

O negociante, recebendo o vinho n’este estado imperfeito, tem o trabalho de o tornar maduro, claro, e em condições de duração para o entregar ao consumidor.

Teem-se feito alguns ensaios para amadurecer ovinho e torna-lo duradouro pelo systema de Pasteur, mas os resultados têem sido insignificantes.

A clarificação dos vinhos brancos faz-se com a colla de peixe, e a dos vinhos tintos com a albumina do ovo. Os vinhos hungaros não são misturados com espirito de vinho.

Como innovações introduzidas ultimamente, devem-se mencionar as estufas já indicadas. Submette-se o vinho verde a uma temperatura de 30° a 36° Reaumur durante tres a seis semanas, segundo a necessidade, afim de separar as materias fermentaveis contidas no vinho. Este processo augmenta pouco os gastos do fabrico.

Os vinhos que se exportam variam entre os preços de 90 a 360 florins, valor austríaco por pipa, segundo a qualidade e a producção de ultimo anno. Exceptuam-se os vinhos de Hegyalya (Tokay), cujo preço mínimo é de 450 florins, valor austríaco, até 1:500 florins por pipa. Notarei ainda que a exportação de vinhos para Inglaterra tomou no anno findo proporções inesperadas; e são duas principalmente as qualidades que mais se exportam da Austria para Londres, e que pela quantidade de alcool que conteem mais agradam ao paladar inglês, entrando em concorrencia com o Porto. Estas qualidades são os vinhos hungaros de Carlowitz e de Buda, e os de Voslau, perto de Vienna. Depois da exposição industrial de 1862 e que a importação destes vinhos, já conhecidos em Inglaterra, tomou maior desenvolvimento. A importante diminuição dos direitos sobre as mercadorias austriacas importadas em Inglaterra, concorreu favoravelmente para o augmento d´aquella importação.

Os vinhos brancos de Voslau, e os espumosos (sparkling), preparados como os vinhos de Champagne e da Moselle, tambem encontram venda nos mercados de Inglaterra. A preparação destes vinhos consiste na applicação de processos empregados em Voslau, pelos quaes o vinho feito de uvas escolhidas e engarrafado antes da fermentação estar completa, e de forma que evita a saida do acido carbonico que se desenvolve. Este vinho vende-se em Inglaterra sob diversos nomes, sendo mais procurado o Pearl of Veslau ou Champagne austríaco.

Pesth e Vienna são os principaes mercados e praças de exportação dos vinhos hungaros. Raras vezes se fazem exportações directas das localida des de producção, e tambem não se encontram armazenados nos portos naeionaes ou estrangeiros.

Os paizes consumidores são, na Europa, a Polonia, a Allemanha, a Hollanda e a Inglaterra. É principalmente n’este ultimo paiz onde o vinho hungaro ganha terreno todos os dias. As exportações transatlanticas começaram satisfactoriamente para o Levante, para as Indias orientaes, para a Republica Argentina e Estados Unidos.

A casa François A. Jalics & Cª, de Pesth, que se occupa da exportação dos vinhos hungaros, remetteu diversas qualidades de vinhos a expedição austro-hungara que se dirigiu a Asia oriental. Segundo os relatorios que a expedição enviou de Shanghai, na China, estes vinhos tiveram muita aceitação nos portos asiaticos, nova prova da qualidade que pos suem de agradar em toda a parte, quando são preparados com intelligencia.

O custo de fretes das localidades de producção as praças de Pesth e Vienna são de 12 a 18 florins, valor austríaco, por pipa, variando conforme a epocha e as circumstancias, e segundo as mesmas localidades se acham ou não comprehendidas na rede dos caminhos de ferro, ou ligadas com aquellas praças por vias aquaticas. O transporte pelo caminho de ferro até aos portos de embarque mais procurados pela Austria, Trieste e Hamburgo, custa, para as grandes partidas, na rasão de 1 1/3 thaler por quin tal (de 100 libras) ou a 16 thalers por pipa; oembarque de 1/2 a 1 gros de prata por quintal, ou de 6 a 10 gros por pipa. A commissão é de 1/2 a 1 por cento. Os fretes por mar são os estabelecidos nas tarifas dos navios, e só fretando carregamentos completos se alcança reducção no seu custo.

As pipas de exportação contém 220 litros ou 46 galões. Raras vezes se empregam no commercio exterior pipas de dupla ou tríplice capacidade. No commercio nacional a medida ordinaria é o eimer, que se divide em 40 maas, igual a 56 litros ou 12 1/2 gallões inglezes. Os preços de exportação comprehendem sempre o custo da tara.

A exportação dos vinhos hungaros principiou ha dez annos. Anteriormente, desde 1840, as pequenas exportações que se faziam eram apenas tentativas que tinham por fim experimentar o modo por que se sustenta vam os vinhos e abrir os mercados. Está agora provado que os vinhos hungaros, comquanto não sejam ainda de um consumo geral, possuem qualidades que lhes asseguram um futuro brilhante. Os vinhos concorrentes são os francezes, que têem a seu favor elementos que faltam aos vinhos hungaros. Em primeiro lugar a confiança e habitos dos consumidores, que constituem grandes vantagens; em segundo lugar a posição geographica, tão favoravel a França; e finalmente, a proximidade do mar, o mais barato meio de transporte. Os vinhos portuguezes, que são muito alcoolicos, differem muito dos vinhos hungaros e dos francezes. O Porto é para a Hungria mais uma especialidade do que um artigo de concorrencia.

Aqui nem para o consumo, nem para a exportação se imitam os vinhos portuguezes. As videiras portuguezas entram ás vezes na cultura dos vinhedos da Hungria na rasão de 1 para 10. As uvas portuguezas produzem um vinho acre de gosto e de côr espessa e escura, que entrando na mesma proporção no fabrico do vinho tinto, lhe da uma vantagem que é útil conservar. Mas esses casos são raros.

Eis-aqui, ex.º sr., os dados que me esforcei de reunir em resposta aos quesitos da circular de v. ex.ª=Eduardo Wiener de Welten, consul geral.

 

Mais uma vez, fica provado que estas relíquias do passado permitem criar pontes intemporais, capazes de gerar luzes no presente para iluminar o futuro.

 

Fonte: Relatórios especiais dos cônsules de Portugal acerca da produção, fabrico e consumo de vinhos (1870). Ministério dos Negócios Estrangeiros: Lisboa.

 

Por  João Amendoeira Peixoto, natural de Tomar, profissional de saúde, autor e historiógrafo

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