Poesia da Lusofonia – Ana Paula Tavares (Angola)

por Fernando Lopes

O Cercado

De que cor era o meu cinto de missangas, mãe
feito pelas tuas mãos
e fios do teu cabelo
cortado na lua cheia
guardado do cacimbo
no cesto trançado das coisas da avó

Onde está a panela do provérbio, mãe
a das três pernas
e asa partida
que me deste antes das chuvas grandes
no dia do noivado

De que cor era a minha voz, mãe
quando anunciava a manhã junto à cascata
e descia devagarinho pelos dias

Onde está o tempo prometido p’ra viver,mãe
se tudo se guarda e recolhe no tempo da espera
p’ra lá do cercado.

 

Poetisa e historiadora angolana, Ana Paula Tavares, nasceu na cidade do Lubango, em 30 de outubro de 1952.

Licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, aí fez o mestrado em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Entre 1983 e 1985, coordenou o Gabinete de Investigação do Centro Nacional de Documentação Histórica, em Luanda.

Membro da União de Escritores Angolanos, fez parte do júri do Prémio Nacional de Literatura de Angola entre 1988 e 1990. Como colaboradora da RDP África, apresenta uma crónica semanal sobre História, Literatura e Cultura.

Ana Paula Tavares vive em Lisboa e é docente na Universidade Católica. Integrando a geração de 80 – a “novíssima geração” -, Ana Paula Tavares é uma das vozes femininas angolanas que tem desde sempre, manifestado uma grande preocupação com a condição da mulher no seu país.

A autora usa a palavra poética através de um “sujeito poético” feminino, como veículo de denúncia e de libertação da carga tradicional, enquanto jugo opressor da mulher africana. Situado espacial e temporalmente, este “eu” feminino vai enformando, como diz a própria autora, as preocupações que se prendem com o “ser mulher numa sociedade africana” como a angolana: “Cresce comigo o boi com que me vão trocar/Amarraram-me já às costas, a tábua Eylekessa/ Filha de Tembo/organizo o milho/Trago nas pernas as pulseiras pesadas/dos dias que passaram?”

Assumidamente feminina, mas não feminista, a poesia de Ana Paula Tavares estrutura-se em redor do núcleo temático da Mulher, através da simbologia das cores, da metaforização de frutos e de ornamentos, de clichés que assentam numa mistura da religiosidade cristã com a realidade africana, de que é exemplo o seu poema Manga :”Fruta do paraíso/companheira dos deuses/as mãos/tiram-lhe a pele/dúctil/como, se de mantos/ se tratasse/surge a carne chegadinha/fio a fio”, cuja visão erótica se prende, no entender da autora para quem “a mulher africana tem uma relação natural com o seu próprio corpo”, apenas com uma focalização exterior à realidade africana.

Historiadora reconhecida, publicou em 1999 na revista luandense “Fontes e Estudos”, vários ensaios sobre a História de Angola.PoeEscreveu os seguintes livros: Ritos de Passagem, 1985 (poesia); O Sangue da Buganvília, 1998 (crónicas); O lago da Lua, 1999 (poesia) e Dizes-me Coisas Amargas Como Os Frutos, 2001(poesia).

Fonte: Infopedia.pt

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