Poemas de Pedro Assis Coimbra

por Pál Ferenc

Na literatura portuguesa, e os leitores de Pessoa ou de Eça de Queirós podem afirmá-lo, é bastante comum usar pseudónimos. Assim é com o poeta que quero hoje apresentar aos nossos leitores, porque atrás da máscara de Pedro Assis Coimbra esconde-se um amigo meu que conheço desde que chegara a Hungria, ainda naqueles tempos quando os estudos lusos universitários estavam ainda na fase de formação e eu ia saboreando os sabores das letras lusas.

Lembro ainda hoje aquela noite quando o nosso saudoso embaixador S. Exa. Sándor Argyelán convidou a jantar, a mim e a um jovem magro e destro que se distinguia entre os bolseiros portugueses que  estudavam na Hungria, com os olhos vivos, escura barba espessa e fala veloz que requeria uma atenção reforçada na conversa com ele. Este jovem já então tinha ares donjuanescos e parecia poeta, mas tinha de esperar vários anos até revelar-se-me como tal na altura quando me pediu organizar e preparar para edição um livro de poemas. Foi então que conheci profundamente esta outra cara deste meu amigo, que se ocultava detrás da figura do funcionário comercial, com encargos de diplomata e pai de família com vários filhos e bom amigo com quem de vez em quando tomávamos vários copos a acompanhar um almoço rico.

Confesso fiquei surpreendido com este mundo poético de imensa variedade e culta, porque é esta a caraterística mais própria deste poeta, em cuja alma nem o trabalho burocrático pôde apagar o interesse sincero e o lirismo inato com que olhava o mundo, tanto da perspetiva de Portugal, onde nascera tanto da perspetiva da pátria escolhida, Hungria.

Nesta breve seleção entregamos ao leitor húngaro os poemas que nasceram na Hungria, a partir dos primeiros anos da estadia nela deste bolseiro português, que já está ligado até o fim dos dias à  Hungria com fios de simpatia,  de cultura e de amor.

LÁNY DE ÁGUA

Eu pediria aos caroços da sombra
mais infinita e distante
da neve e da chuva invisível

Os íris de água da luz natural
para fazer um véu transparente
do silêncio de cuco e de besugo.

Que fosse tão pequeno e tão lindo
que só desse para encobrir a roseira
dos teus joelhos e zonas suburbanas
quando impacientes as minhas mãos
fizessem turismo sonâmbulo e livre

Todos eles meus companheiros
da poesia não diriam que não
se tu rapariga aceitasses o véu.

Törökbálint, 05.09.1980.

 

VASAS – BOAVISTA

Jogavam futebol por amor
e faziam amor por dinheiro.
Havia que ir á loja todos os dias
comprar pão e margarina iogurtes e salsichas
?s vezes detergente e papel higiénico.

Futebol? Ternura e palavrões na relva erótica.
Amor? O guarda desatento e frangueiro da baliza.
O Boavista ganhou dois zero ao Vasas
clube do sindicato dos metalúrgicos de Budapeste.
Era tudo o que te queria dizer poesia.

Budapeste, 19.09.1980

 

CANÇÃO PARA TI

Só exijo um pedaço de pão trigo
para limpar dos teus lábios
a gordura do amor
e sonhar na viagem o meu abrigo.

São os teus olhos de cor nem sei
formigas avelãs de não dormir
penas de polvo tinta em perigo.

Voam neles meu sonho
um bando de pombas bravas gritos e algas.
Para quem é o ninho do campanário?
Para quem é o ninho do campanário?

Budapeste, 02.12.1980

SINAIS DE FUMO

Repouso por momentos
o coração no azulejo mouro
dos teus lábios. Será possível?

E caminhas pressinto!
Uma cotovia sedosa anuncia
entre dois sinais de fumo e fogo
o dia do nosso reencontro.
Será verdade?

Podes continuar
a olhar o sol poente
e a descer ao mais fundo
dos meus sonhos ateus como os teus.
O que mais quero
é partilhar contigo o meu silêncio!

Repouso por momentos o coração
os olhos o pensamento na pedra
na laje fria da igreja.

E depois pedindo escrever: Vem!
Virás? Peço-te um só beijo
breve singular e leve.
A mão sediciosa nos cabelos
e um sorriso de vento
cristalino um sorriso passageiro.

Budapeste, 13.03.1983

 

DE MIL ROSAS UMA SÓ

Porque és a constelação
do inesperado de dias
noites e luzes
vogais e alegrias
de estrelas azuis.

Permite-me
Ó caminho esvaído
Ó sono inquieto
Ó roseiral intenso!

Que tire as meias
dos teus pés pequenos
e um pedacinho de pele
para tesouro.

Que descubra os segredos
do fecho da tua saia
silêncio muito tímido
muito diálogo mudo.

Que massage
o vinco da blusa
em círculos pequenos
com os dedos da saliva
e os rios do pensamento.

Que penteie os caracóis
te lave a cara do sol
te limpe os olhos e os lábios
para retocar de rouge e de baton
de rimel e modernismo.

Permite-me Ó única estrela!
Constelação de mil rosas.

Budapeste, 20.04.1983

 

PIANO LATINO

Leonor de família irreal esperava com mágoa.
Nilo passou pelo Hary e deixou-se ficar
com música muito vinho e amigos como eu.

Nua e tímida desce ao coração do piano.
Dançava por entre os navios do estaleiro
onde a tinha conduzido o maquinista.

A travagem brusca no sinal vermelho
assustou os estorninhos em namoro
pousados no limoeiro preferido do pianista.

Que sem camisa bebia de bruços a água sagrada
na fonte onde já sem fome ela se tinha banhado
com o limão onde escondeu o anel do artista.

Budapeste, 04.03.1984

 

MARTINIQUE (1971)

A André Kertész

Que horas são no teu coração
rapariga? Melro de basalto
a cantar pelas pedras do caminho
rapariga que horas são?
Nas formas difusas da fruta
da água da areia e do pão
vindos de um deserto de ninguém
no meu coração que procuras?

Que horas são no teu coração
rapariga? Fotografia primeira
concertina nos meus braços
À procura da metáfora feita ternura
no meu coração que procuras?
Que relógio consertas e deitas fora
pela boca rapariga da janela?
No meu coração que procuras?

Budapeste, 05.04.1984.

 

 

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