Poemas de Pedro Assis Coimbra (II.)

por Pál Ferenc

A foto que acompanhava a primeira entrega dos poemas de Pedro Assis Coimbra já revelou a pessoa que usava e usa este pseudónimo, fiel ào legado de vários autores destacados das letras portuguesas, assim posso desvelar o segredo, que esta semana se publicam os poemas de Joaquim Pimpão, um dos representantes mais constantes de Portugal nestas terras húngaras….

Hei-de dizer que, quando pela primeira vez li os seus poemas, fiquei imensamente surpreendido com este mundo poético de imensa variedade e riqueza.

Pois o que caracteriza a poesia de PAC, aliás Joaquim Pimpão é a recepção de uma variadíssima gama de sensações que depois ganham uma expressão requintada e culta. Culta, digo, porque além ou talvez antes de uma sensualidade  é esta a característica mais própria deste poeta, em cuja alma nem o trabalho burocrático pode apagar o interesse sincero e o lirismo inato com que olhava o mundo. Vejam-se só as epígrafes dos seus poemas: encontramos quase meia centena de autores citados que inspiravam o poeta. As citações que encabeçam os poemas não servem apenas – segundo o lugar comum que a teoria literária usa – para enobrecer com o nome e brilho do autor citado os versos que se seguem, mas revelam-nos que o poeta está em continuo diálogo com eles, começando com os autores portugueses da atualidade e chegando até os clássicos da antiguidade.

Nesta breve seleção entregamos ao leitor húngaro mais alguns poemas que nasceram na Hungria, a partir dos primeiros anos da estadia nela deste bolseiro português que já está ligado até o fim dos dias à  Hungria com fios de simpatia,  de cultura e de amor.

DOS BICHOS BELOS

Diz-se – Ali lutou e tombou contra o ocupante
estrangeiro um jovem desconhecido de 14 anos.

Pára-quedista o crocodilo refez
o bicho-da-seda-pura-algum-metal
as-teias-de-aranha-dos-inimigos
tempos de erosão de ninhos de mentiras
e um sabor a selva talvez primavera
um cheiro a queimado e bruto dos blindados
pelo jardim botânico civil e póstumo.

Dizem que junto a essa pedra vulgar
antes crescia uma árvore jovem e verde
com a luz da liberdade incompleta
uma árvore secular negando a morte.
Dizem que a culpa é do crocodilo
Sabe-lá-ele-do-tempo-dos-desejos
dos-bichos-belos-nos-olhos-do-sonho.

– Em Praga para satisfação dos seus habitantes
e de alguns visitantes as cervejarias de sempre
continuam a servir canecas de meio litro
de cerveja alinhadas em bandejas a metro.

Budapeste, 25.04.1984

 

INTERIORES

“Mil sonhos eu sonhei. E foram mil enganos.”
Manuel Alegre

Para Victor Medina

1. Há sempre uma porta entreaberta.
Uma ponte que nos conduz a lado nenhum.
Não somos nós. São as nossas pernas algum cansaço
mais esse desejo avô eterno de liberdade.
Liberdade peço silêncio uma noite completa.
Uma banda de músicos amadores
e muitos foguetes pela alvorada.

2. À liberdade dê-se-lhe nome óculos de sol
forma de vida comum países de ecologia pura.
Da liberdade diga-se gatinho manso da esquina
mais o povo caladinho e outros menos
blindados internacionalistas que bastem
automáticas nacional patriotas
e muito lucro casas de putas. Gente fina.
Deixem algum vinho bares e muita cerveja.

À liberdade dê-se-lhe fardas e mãos fortes
e um punhal transparente e invisível
o pior inimigo que passe janelas paredes e fronteiras
corpos ardentes mais os três rios discretos do sonho.
Que lhes trespasse o coração sem alarido
repórteres incómodos cadeias televisivas.

3. Não somos nós são as nossas pernas
uma ponte que nos conduz a lado nenhum.
Uma porta entreaberta
por onde entra a liberdade
sem se anunciar fingir insinuar
encher a barriga de pão e adormecer na água.
Ser penetrada sem saber nem sentir
esta liberdade com forma de cão
e conteúdo de begónia a mais azul
de imaginar e não se vender não se rasgar.
Sem cor sem cheiro sabor a merda livre e futurista.

4. À liberdade não se dê atenção cremes
chocolates águas termais e banhos públicos
corridas de cavalos chicotes e alimentos sensuais.
À liberdade pela liberdade peço silêncio
e uma banda de músicos amadores manhã cedo
pois há sempre uma porta entreaberta
um pensamento íntimo e interior
e uma ponte que nos leva a algum sítio.

Budapeste, 16.10.1986.

 

METRO

“Quand on n’a que l’amour
a offrir ? ceux-lá”
Jacques Brel

1. Eram quase 18 horas noite cerrada fazia frio.
No Metro da Praça Felszabadulás esperava Victor.
Muitos policias fardados e disfarçados
muito seguros de si abordavam as gentes
sobretudo as que esperavam como eu.
Pouco simpáticos pediram-me a identificação
afastaram-se dois metros e escreveram tanto
tanto que tive vontade de oferecer a minha
esferográfica não fosse a tinta não chegar.

O poder policial-partidário-militar-politico-estrangeiro
quis demonstrar a razão da sua força.
Bem avisaram à menina da casa que anda no liceu
– não andar na rua no dia 23! Não é aconselhável!
Assim sim. Assim a população todo o país
fica a saber quem manda de quem é o poder.
Trinta anos depois da revolução húngara de outubro.

2. Com Victor como sempre em conversa prolongada
bebemos litro e meio de vinho tinto mais um copo
comemos uma saborosa especialidade húngara
local onde já não íamos há muito
jovem universitário de preço acessível.

3. Eu decidi escrever de perfumes corpos
sabonetes e outras coisinhas assim.

Um corpo. Um corpo bem lavadinho
um corpo perfumado um corpo sem cheiro a cú.
Um corpo limpo um corpo sem o medo
forte do orgasmo ou sangues inoportunos.
Um corpo muito bem depilado e perfumado
mas com muitos pêlos nos sovacos
com muitos pêlos noutras zonas. Um corpo
sem cheiro sem falar no bagaço e bebidas afins.
Os corpos não cheiram a álcool. Os corpos não!
Talvez os sexos se embriagados.

Os sexos e talvez as bocas. Os corpos não!
No fim já se sabe é tudo uma grande mistura
vómitos e ressaca confusão de corpos opostos
de sentimentos e ilusões de baterias descargadas.
Um corpo lavadinho perfumado sabonetes
verniz e desodorizante. Verniz vermelho
representante exclusivo da luz do futuro!

4. Um corpo sem atalhos sem ruas estreitas
sem sujidade e maus cheiros. Muitos
montinhos de cães e cadelas domésticas.
Um corpo sem língua alguma saliva
sem saber a corpo sem sabor a vida.

Um corpo reciclado e um rosto cosmético
bem pintado e disfarçado de falso maquilhado.
Um corpo assim e assado muito bem passado
batatas fritas e salada salsichas e mostarda.
Um corpo de estábulo de porco de vaca de carneiro.

5. Corpo estatal perfumado corpo manso. Até quando?

Budapeste, 24.10.1986.

 

 

 

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