Pilinszky János (1921-1981) – Poeta Húngaro

por Pál Ferenc

Pilinszky János (1921-1981) um dos mais importantes poetas húngaros do século XX, vencedor do Prémio Baumgarten, vencedor do Prémio Attila József e vencedor do Prémio Kossuth. Foi membro da quarta geração, chamada “Újhold“ (‘Lua Nova‘) da revista literária Nyugat, juntamente com Nemes Nagy Ágnes, Örkény István e Mándy Iván; após o desaparecimento de Nyugat e do seu sucessor intelectual, a Magyar Csillag (‘Estrela Húngara‘), agruparam-se em torno de „Újhold“.

É conhecido pelas suas obras como Apocrypha, Harbach 1944, Ravensbrück Passion, ou pelos seus epigramas curtos como Quadra, Quando voltares e Ao terceiro dia.. Na sua obra, analisa o mundo cruel do século XX, retratando o abandono do homem, o universo dos campos de concentração, a futilidade de escapar ao sofrimento da existência, o medo e o terror que permeiam as fases da vida.

A sua poesia é influenciada pelas suas experiências nos campos de concentração  durante os anos 40, pelo existencialismo cristão, pelo lirismo objectivista e pela sua fé católica, mas não pertence à literatura católica dos chamados escritores clericais com temas sagrados no sentido tradicional, uma vez que rejeitou o muro que separava a literatura religiosa da profana (“Eu sou poeta e católico”).

PEIXES NA REDE
Halak a hálóban

Na rede de estrelas nos agitamos,
peixes lançados à praia,
agonizamos no nada,
seco vazio mordendo.
Sussurrando, em vão chama
o perdido elemento,
entre pedras e cascalho,
penetrantes, sufocando,
uns contra os outros vivemos-morremos.
O coração sobressalta-se.
Entre irmãos nos debatemos,
que ferem e nos sufocam.
Sobrepondo-se as vozes,
nem o eco nos responde;
matamos e combatemos,
sem porquê, mas é preciso.
Expiamos, a expiação
nem sequer é punição,
nem de nossos infernos poderemos
resgatar um sofrimento.
Em redes imensas nos agitamos
e à meia-noite, talvez,
prato seremos à mesa
de pescador poderoso.

NO MURO DE UM CAMPO DE CONCENTRAÇÃO
Egy kz-láger falára

Onde caíste, aí ficas.
Do universo é um
lugar, e único, esse,
mas que, logo, adquiriste.

Corre paisagem à frente.
Casas, moinhos ou choupos,
tudo só luta contigo,
como se dessem em nada.

Mas, agora, já não cedes.
Cegámos-te? Fixo, olhas-nos.
Roubámos-te? Rico és.
Mudo, mudo, inda acusas.

PAIXÃO DE RAVENSBRÜCK
Ravensbrüki passió

Avança de entre os outros,
pára no filme silente:
projectada imagem, vibram
roupa e cabeça de preso.

Está terrivelmente só,
e vêem-se-lhe os poros:
nele, é tudo gigante,
nele, é tudo pequeno.

E nada mais. Aliás,
o mais que houve foi só:
esqueceu-se de gritar
antes de cair no pó.

AO TERCEIRO DIA
Harmadnapon

E troam os céus de cinza, as árvores,
amanhecendo já, de Ravensbrück.
E as raízes pressentem a luz.
E vento sobe. E o mundo brame.
Porque puderam vis mercenários matá-lo,
e seu coração deixou de bater –
ao terceiro dia venceu a morte.
Et resurrexit tertia die.

Poemas traduzidos por Ernesto Rodrigues

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