Pertença

por Luís Serpa

Escrevo estas linhas em Mértola, numa noite de sábado, depois de um jantar no Tamuje.

Porque menciono tudo isto? Porque, suponho, estas três coisas estão ligadas. Mértola, escrever a um sábado o que tinha planeado escrever na quarta ou o mais tardar quinta-feira, Tamuje. Não sei se já vos aconteceu chorar por estarem a comer uma coisa excepcionalmente boa. A mim já, se bem raramente. Uma dessas vezes foi no Tamuje, com um coelho em vinho tinto. Hoje aconteceu de novo com um ensopado de cabrito. Chorar porque se está a comer algo de particularmente bom deve parecer esquisito, eu sei. A mim parece, mesmo enquanto choro. É a comoção, a mistura de sabores, este sentimento inefável de que algo nos liga à terra e essa ligação tem – neste caso – um nome: senhora Ana Isabel. Quando esta senhora morrer vai para o céu dos cozinheiros e para o céu dos apreciadores de comida e provavelmente para muitos outros céus, não sei. Para os dois primeiros vai de certeza. Só espero é que não seja muito em breve. Que a ceifeira leve o seu tempo. Cozinhar cabrito é difícil: tem que se tirar o gosto a cabritum, (a minha Mãe diria carnum) sem tirar o gosto à carne e dar ao palato o gosto dos condimentos. Há coisas que me fazem chorar e uma delas é um ensopado de  cabrito bem feito.

Mértola: a questão é a da pertença. De onde venho? De onde sou? De onde quero ser? Uma vez morei no Príncipe Real. Um sinaleiro fazia parar o trânsito todo para me deixar passar na bicicleta. Sentia-me um misto de M. Hulot e Jean Gabin. Por causa desse sinaleiro escrevi um texto sobre as emoções, sobre a pertença. Venho a Mértola esvaziar a casa, na qual terei talvez dormido vinte noites em dois anos. Ou terão sido trinta? Não creio. Pensei que seria fácil: foi só o hotel de cinco estrelas mais caro que já experimentei. Não foi, não é. Isto é uma casa, foi a minha casa, por pouco que tenha sido. Revolta-me ter de a deixar, não pela casa mas por mim. Não quero. Somos de onde queremos ser e eu quero ser de Mértola. Somos de onde estão as nossas coisas, somos de onde estão os nossos, somos de onde estão as nossas memórias, somos de onde um dia nos repousamos. Pode ser Mértola, Lisboa, Genebra, Palma, pode ser onde for – desde que tenha um nome, uma latitude e uma longitude. Mértola tem essas coisas todas e tem beleza. Não poderia ser de um sítio feio. Nunca serei de um sítio feio.

No armário estão umas centenas de livros por ler, nas janelas cortinas rasgadas e comidas pelos ratos, em todo o lado fotografias de mim e dos meus. Amanhã começo a desmontar a casa e é como se começasse a desmontar-me: não quero. Não estou a deixar Mértola: estão a arrancar-me Mértola de mim, a cru, sem anestesia.

Durante muito tempo pensei que somos de onde estamos. Se estou no Panamá sou panamiano, se no Brasil brasileiro, se na Itália italiano. Depois comecei a ver os limites dessa teoria, que são sobretudo de ordem temporal e linguística. Para ser de algum sítio tenho de lhe falar a língua e de lá estar alguns meses. (No mínimo, digo agora sabendo que é n’importe quoi, três meses.) Ou seja: não sou de onde estou agora, por acidente, acaso, desígnio ou – não é impossível – vontade. Sou de onde quero ser, de onde estão as partes de mim que querem ser «de mim», de onde me quedei. Mértola está cheio delas, de partes de mim, de mim.

Partes de mim: a música de Cecil Taylor que agora escuto. As fotografias para as quais tento olhar de raspão, como se pusesse o dedo grande do pé na água para lhe ver a temperatura e nada mais; as hierbas secas que bebo sem gelo porque não há gelo. Os livros. Se Walt Disney me conhecesse faria a piscina do Tio Patinhas com livros em vez de notas. A ideia de que amanhã começo a empacotar tudo isto, como um assassino arruma os membros da vítima que decepou e cortou em pedaços.

Não se pode dizer que a cada partida cortamos um pouco de nós: para isso ser verdade, a cada chegada juntaríamos um pouco a nós, não é?

É. Partir é um desmembramento e chegar um re-membramento. Questão simples de os equilibrar. (Gosto da palavra simples… É a melhor das ironias, das metáforas, dos eufemismos, dos subentendidos.)

Bebimos, en la sombra,
Nuestros llantos
confundidos…

Yo no supe cuál era
el tuyo.
¿Supiste tú cuál era el mío?

(Juan Ramón Jiménez, in Diario de Poeta y Mar)

Assim se entra numa noite: pés juntos, mãos serradas, tronco em pedaços, alma fragmentada em tantos bocados, cada um deles à procura do sítio ao qual pertence.

 

Luís Serpa, Mértola, 23/05/2021

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