Pensamentos Pandémicos e Pandemoníacos

por Garry Craig Powell

Talvez seja porque acabei de escrever um romance satírico, em qual a antagonista, uma professora universitária americana, é diabólica – mas ando a pensar em demónios, e no pandemónio em que vivemos todos desde o início deste pandemia maldita. Será que somos possuídos por um espirito maléfico? Espanto-me a contemplar a perda de liberdade que sofremos, quase sem protesto, especialmente cá em Portugal, este país de ‘brandos costumes’.

Não sou um grande seguidor de futebol, mas foi interessante ver na partida entre Hungria e Portugal a semana passada que quase não havia nenhuma máscara à vista na multidão, e que ninguém fez o gesto servil de ajoelhar-se, como acontece sempre nos jogos pandémicos e pandemoníacos do meu país. Não conheço a Hungria, mas parece que os húngaros gostam da liberdade, e são patriotas, o que incita um desejo em mim de visitar esse país misterioso.

Em Inglaterra, infelizmente, as pessoas educadas – quero dizer, indoutrinadas – já não sentem orgulho em ser inglês. Ao contrário, têm vergonha porque o nosso passado foi imperial, e parece que os ingleses nunca fizeram nada senão escravizar e explorar outros povos. É uma narrativa não apenas simplificada, mas falsa, que ignora os muitos feitos humanísticos, como a abolição da escravatura – de fato, Inglaterra foi o primeiro país a fazer isso, e policiou os mares com uma esquadrilha de navios da Armada Britânica, mantida só por isso, e paga pelos contribuintes. No entanto, os ‘progressistas’ contam a sua versão virtuosa da história, em que tudo se resolve a questões de poder – seguindo a Michel Foucault, pensam que os brancos nunca se interessavam por mais nada – e os europeus são sempre os mauzinhos. Querem que os europeus, e especialmente o ‘patriarcado tirânico’, seja apologético, invisível (já é invisível na publicidade, repararam?) Querem ‘reparações’. Querem destruir a nossa cultura.

Douglas Murray fala de tudo isso no seu livro, A Estranha Morte de Europa, e elogia os países Visegrád pela sua independência, e pelo espirito genuinamente europeu que têm. Eu também sou europeu, e sou imigrante, e no entanto não sinto que temos de seguir a Angela Merkel cegamente. A servilidade, afinal, é um dos sintomas principais de Covid-19, da pandemia, e do pandemónio progressista do presente que vivemos.

E que tem a ver a senhora na foto com isto? É uma escultura da Luisa Casati, a ‘divina marquesa’, como lhe chamava Gabriele d’Annunzio, um dos seus muitos amantes. Ambos são personagens em outro romance meu, ainda não editado. Até um olhar de relance revela o carácter indomável da dama. Andava em Venezia há mais de cem anos com duas chitas. Ia às festas usando um pitón como colar (agora sabem em quem Britney se inspirou!) Vestia um casaco de peles e mais nada. Tinha criados negros que serviam à mesa no palazzo dela, totalmente nus, mas pintados de ouro. Das preferências sexuais talvez seja melhor não falar, mas uma pista para os literati é a alcunha. (Suponho que sabem os meus eruditos leitores quem era ‘o marquês divino’.) Numa palavra, era livre. Numa época em que a maioria das mulheres se submetiam aos homens e à convenção, ela fazia o que lhe apetecia. Acabou a sua vida em Londres. Não moraria lá hoje em dia, se estivesse viva, no entanto. Onde iria viver uma mulher dessas, gloriosamente livre? Cracóvia, se calhar? Praga? Ou Budapeste?

Viva o espirito libertino e anárquico de Luisa Casati! E de Gabriele d’Annunzio, o poeta e criador da Regência Italiana de Carnaro, uma república utópica e pirata! Talvez seja o meu sangue inglês, mas cá por mim, preferia ser pirata do que ser servo. E se o pandemónio continuar, seremos todos servos.

É isso que pretendem os demónios autoritários, sejam da direita ou da esquerda. A conformidade, a humildade, a servilidade. Todos têm que agir da mesma maneira, e pensar e falar da mesma maneira. Caso contrário, serás cancelado! Então, cancelem-me!

 

© Garry Craig Powell, 2021

Imagem em Destaque: Garry Craig Powell

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