Paulo Leminski (Brasil)

por João Miguel Henriques

Aviso aos náufragos

Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.

Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.

Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta página, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não é assim que é a vida?

 

Biografia

Nascido em Curitiba, no dia 24 de agosto de 1944, Paulo Leminski Filho foi um escritor, poeta, crítico literário, tradutor e professor brasileiro. Seu pai Paulo Leminski era militar de origem polaca, de descendência africana. Com 12 anos foi morar no Mosteiro São Bento, em São Paulo, onde estudou latim, filosofia e literatura clássica. Abandonou o mosteiro em 1963 e foi para Belo Horizonte onde participou da Semana Nacional da Poesia de Vanguarda quando conheceu os criadores da Poesia Concreta.

No ano de 1964 publicou seu primeiro livro na revista “Invenção” editada pelos concretistas e nesse mesmo ano começa a trabalhar como professor de História e Redação. A partir daí publicou textos em revistas alternativas, antológicas do tempo marginal, como “Muda”, “Código” e ‘Qorpo Estranho”, as quais segundo Leminski consagraram grande parte da produção dos anos 70.

Em 1975 publicou o livro “Catatau”, uma obra polémica onde apresenta um filósofo francês René Descartes que vive no Brasil holandês de Maurício Nassau, no século XVII, a fumar erva. O livro levou oito anos para ser concluído e o escritor jurou que jamais voltaria a escrever prosa. No ano de 1980 publicou dois livros de poesia, “Polonaises” e “80 Poemas”, lançados com poucos meses de diferença. Era fascinado pela cultura japonesa e pelo zen-budismo, era cinturão preto de karaté e escreveu a biografia de Matsuo Bashô. Também escreveu letras de músicas em parceria com Caetano Veloso, Itamar Assunção e o grupo A Cor do Som.

Irreverente e ousado nas palavras e nos trocadilhos, inventou seu próprio jeito de escrever. Nas suas poesias e textos curtos bem objetivos abusava de gírias, ditados populares e palavrões. Por conta disto, foi um dos poetas mais destacados do século XX. Foi casado com a poetisa Alice Ruiz, com quem teve duas filhas, exerceu a profissão de jornalista e professor, e depois passou a ganhar a vida em Curitiba como redator de publicidade. Faleceu em Curitiba, no dia 7 de junho de 1989, em consequência de uma cirrose hepática, que o acompanhou por vários anos.

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