Passear no Paredão, um hábito criado por Regente exilado da Hungria (Cascais-Portugal)

por LMn

Monarca passeava diariamente no litoral de Cascais para afastar melancolia do exílio.

O Almirante Miklos Horthy foi o último Comandante-em-Chefe da Frota Naval austro-húngara e mais tarde, após a dissolução do Império, regente do reino da Hungria, entre a primeira e a segunda Guerra Mundial.

Foi aliado dos Nazis e tentou afastar-se de Hitler no final do conflito, mas acabou deposto. Todos os dias da sua vida, passados no exílio no Estoril, o Almirante sem frota, como era conhecido o Estadista húngaro, passeava ao longo do litoral, por veredas que hoje constituem o paredão de Cascais. Dizem que foi ele que criou esse hábito, hoje tão caro aos cascalenses. “Das costas do Oceano Atlântico, os meus pensamentos estão constantemente voltados para leste, para as margens do Danúbio, para a minha amada Pátria. Nenhum país no mundo, por mais bonito que seja, pode tomar o lugar da minha terra e do meu afeto”.

Mas antes, no final da Guerra, o controverso almirante antissemita foi ouvido como testemunha no Tribunal de Nuremberga, sob acusações de ter permitido a perseguição aos judeus, mas escapou à prisão e acabou exilado no Estoril onde viveu tranquilamente uma década. O almirante era um conservador de direita que, inicialmente, colaborou ativamente com Hitler.

Nunca aceitou totalmente a deriva bestial dos Nazis e no final da guerra cortou relações com o Führer.

Por causa disso, os alemães ocuparam a Hungria, em 1944, e impuseram um governo pró-nazi. Horthy limitou os direitos dos judeus, cercou-os num gueto, mas também terá evitado a sua deportação e assassinato maciço.

Após a ocupação alemã, os nazis dedicaram-se ao massacre dos judeus, mesmo com os soviéticos às portas da capital. Dos novecentos mil judeus que existiam na Hungria restaram duzentos mil e desses apenas metade se salvaram. Após a segunda grande guerra foi preso pelos americanos e colocado vários anos na Alemanha sob prisão domiciliária.

Na década de 1930, a política do regente conduziu a uma aliança com a Alemanha Nazi. Com o apoio de Hitler, a Hungria recuperou territórios perdidos. Sob sua liderança, o país participou nas invasões da União Soviética e da Jugoslávia.

No entanto, vários atos de Miklos ao longo dos anos, como a contribuição com os esforços de guerra e a deportação de judeus húngaros, contradizendo as tentativas de um acordo de paz com os Aliados, levaram os alemães a invadir e a tomar o controle do país, em março de 1944. Em outubro do mesmo ano, o regente anunciou que o país iria render-se e retirar-se do Eixo.

Mas os alemães não deixariam que o antigo aliado tomasse essa posição e este foi forçado a renunciar e acabou preso e levado para a Alemanha, lá permanecendo até o final da guerra, quando foi libertado. Nenhum país o quis receber, mas, finalmente, em janeiro de 1949, conseguir refugiar-se em Portugal. Estaline decidira que não tencionava fazer do velho militar um mártir e que preferia deixá-lo morrer em Portugal.

Após a vitória sobre o nazifascismo, os aliados deram-lhe proteção e evitaram que fosse julgado como criminoso de guerra. Refugiou-se então em Portugal, no Estoril, onde morreu aos 89 anos. A escolha do Estoril para local de exilio foi um acaso. O almirante conta que o filho era amigo de um diplomata português em Berna que lhe ofereceu um visto com o beneplácito de Salazar. Amigos, entre os quais alguns judeus ricos, colocaram à sua disposição uma moradia no Estoril e suportaram os custos da sua permanência.

Nas suas memórias diz que no Estoril encontrou velhos amigos e outros novos. “Estamos profundamente gratos pela hospitalidade que nos foi concedida. É com o maior interesse que acompanho a ascensão de Portugal, sob a liderança sábia do Primeiro-Ministro, Dr. Oliveira Salazar. Alcance o seu país o futuro feliz que as diligências do seu louvável povo merecem”.

No Estoril, escreveu as suas memórias: “Uma vida pela Hungria”, nas quais narrou muitas experiências pessoais, desde a juventude até o final da II Guerra Mundial. O almirante sempre se considerou um “salvador da nação” e nas suas memórias acentua que tudo o que fez foi “sacrificar-se” pelo bem da Hungria. Foi enterrado no cemitério dos ingleses, em Lisboa, e anos depois traladado para a sua terra natal. Milhares de pessoas, envergando a estrela de David, protestaram mais tarde quando foi inaugurado um busto em sua homenagem.

Habitualmente denominada como a “Costa dos Reis”, o Estoril foi casa da família real espanhola, do rei Humberto II Da Itália, do rei Carol II da Roménia e do almirante Nicholas Horthy de Nagybánya – Regente do reino da Hungria.

Texto de Sérgio Soares

Fonte: www.cascais.pt (jornal-c-124-marco-2021)

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