Páscoa em casa

por João Miguel Henriques

Páscoa passada com família húngara, impedido como tantos de ir a casa. Arrancamos de manhã para o vale mais poluído do país, cuja qualidade do ar lidera em permanência as mais sinistras tabelas. A cooperação sino-magiar também tem destas coisas, não é só carregamentos de vacinas e comboios para Belgrado. Entramos na casa dos tios e o ambiente familiar envolve-me de imediato, deve ser em boa parte devido aos bons aromas pascais que logo nos chegam da cozinha. Mas antes do ataque ao sonka prometido, devidamente acompanhado de ovo cozido, rábano e rabanete, sou arrastado à sala para obedientemente cumprir com instruções previamente dadas, a saber, a recitação de uma estrofe em húngaro antes de pulverizar as senhoras presentes com perfume de segunda categoria. Em segundos, transformo-me de digno quarentão em estrangeirinho amestrado (alegoria da existência!), capaz de decorar uns versos no impossível idioma húngaro. Vem-me à cabeça a personagem do tímido e enfezado Eusebiozinho da obra-prima queirosiana, a declamar com relutância „A noite de Londres”, para grande orgulho da titi. Ergo a voz e o pivete, e recito:

Erdon-mezon nyitott szemmel,
sok virágra lel az ember.
Én most oket megöntözöm,
Piros tojást megköszönöm

Posso regá-la?

Quero logo depois elucidar os presentes sobre a conotação evidentemente sexual desta tradição. Afinal, estamos na Primavera (ainda que não pareça), e tudo à volta renasce, Cristo incluído. Não tenho nem húngaro nem coragem para dizer que neste país os homens passam a Páscoa a alegoricamente ejacular para cima das mulheres, e que estas retribuem sorridentemente com pálinka, ovos de chocolate, ovos que são os filhos que virão. Não vale a pena, acho que toda a gente está perfeitamente consciente disto.

À mesa o pequeno B. é a alegria da família, e o meu ouvido atento concentra-se na sua elocução de jovem nativo. Brincamos, interagimos. Sempre busquei nas crianças algum auxílio no meu próprio processo de aprendizagem do húngaro. Têm um registo mais simples, simplificado, e os seus inevitáveis erros de certa forma me reconfortam, comprovando que não estou sozinho neste hercúleo trabalho. Ouço-lhe um szépebb em vez do correcto e irregular szebb. E sorrio com carinho e uma ponta de malícia.

Servem-me pálinka, claro. A primeira de várias. Após um mês de Março de voluntária secura, o primeiro copo sabe-me maravilhosamente. Sinto-me em casa. E sei que, mais tarde ou mais cedo, o bom do tio, de olhos humedecidos, recordará pela enésima vez o grande desastre aéreo de 2006, quando um avião da força aérea eslovaca se despenhou nas montanhas perto da sua aldeia natal, de regresso do Kosovo, vitimando 43 soldados. Preparo-me para reagir com comoção e logo a seguir com surpresa, quando ele me disser que ainda assim houve um único sobrevivente. Martin Farkas. Beberemos nessa altura uma segunda pálinka, na certeza pacificadora de que alguém um dia morreu para redenção dos nossos pecados.

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