Paisagens de Inverno

por João Miguel Henriques

Mas ainda não é Inverno, pois não? No hemisfério norte a estação climática do Inverno tem oficialmente início no dia 21 de Dezembro. Disputo a questão com uma amiga húngara, que se recusa a aceitar semelhante calendarização das estações do ano, afirmando peremptoriamente que o Inverno começa com o mês de Dezembro. Não posso deixar de concordar, tudo me faz acreditar já termos entrado no período de hibernação de certos animais e desvitalização temporária ou permanente de algumas almas, não obstante a restauração celebrada no primeiro dia do mês. Por falar em desvitalização, reclinado numa tensa cadeira de dentista, ouço a doutora debitar-me em impenetrável húngaro científico a possíveis razões da inflamação e o plano de acção proposto. Com anestesia, claro, para que a desvitalização não magoe muito e assim deixe na memória, mais do que o trauma do momento, o alívio do problema solucionado. Enquanto aguardo que a anestesia produza efeito, vislumbro no edifício em frente, à janela olhando para a rua, um senhor de cabelos brancos e expressão compenetrada. Personagem e ambiente trazem-me de súbito ao pensamento o moonstruoso Lawrence Olivier de O Homem da Maratona, e naturalmente a célebre cena de um Dustin Hoffman submetido às mais dolorosas sevícias físicas, precisamente as dentárias, sem anestesia. Tremo de medo.

No regresso para casa, já com um pouco menos de vida que anteriormente, o Inverno manifesta-se mais uma uma vez em toda a sua evidência, a saber, num grupo de deprimidos turistas asiáticos, cobertos dos pés à cabeça com impermeáveis transparentes, montados em encharcados segways, num combate inglório contra a chuva forte e a ventania. Tem esta estação o seu lado deprimente, sem dúvida, por maiores que sejam as inovações tecnológicas do turismo massificado. Dos lados do recreio da escola, já há duas semanas que não me chegam os habituais gritos e risos de crianças. O pátio anda agora ocupado por trabalhadores, veículos e maquinaria, e descubro com alguma surpresa estar em curso a remoção de amianto do telhado do edifício. Costuma dizer-me que mais vale tarde do que nunca, embora eu pessoalmente tema neste caso já vir isto demasiado tarde para algumas pessoas. Mas enfim, se há coisa que nunca falha é mesmo o Inverno, tanto este como o próximo, ou o último que um dia há-de vir. Tremo de frio.

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