Os livros são para “o máximo de pessoas possível”, diz autor de “O Bando das Cavernas”

por LMn | Lusa
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O escritor Nuno Caravela, que já vendeu um milhão de exemplares da coleção “O bando das cavernas”, acredita que o sucesso se deve a uma estratégia criativa e comercial, porque os livros são “para chegar ao máximo de pessoas possível”.

“O bando das cavernas” é uma coleção de livros para crianças lançada em 2012 e que, segundo a editora Booksmile, atingiu este mês a fasquia de um milhão de exemplares vendidos, com a publicação do 42.º volume, “Garras e dentes”.

As histórias são protagonizadas por um grupo de pré-adolescentes – o Tocha, o Menir, a Ruby ou o Kromeleque -, falam dos mesmos temas da vida atual dos mais novos, mas acontecem num passado longínquo, há 10.000 anos.

Em entrevista à agência Lusa, Nuno Caravela, 55 anos, disse que o sucesso literário não está só nas histórias e na galeria de personagens, mas depende de um planeamento a longo prazo e de um trabalho de equipa, porque “ninguém tem sucesso sozinho”.

“Sempre achei que as editoras têm de ganhar dinheiro. Ninguém vive do ar. Nunca gostei desta coisa de ‘ah, vamos fazer um livro para meia dúzia de iluminados’. É giro, sou a favor de todo o tipo de experiências, mas não é a minha área. Sempre achei que os livros têm de ser para o máximo de pessoas possível”, explicou.

Sobre o processo de produção, Nuno Caravela contou que há um planeamento com um ano de antecedência e isso exige disciplina: “Já temos as datas, os títulos, as sinopses do que vai sair. (…) Em 2024 serão quatro a cinco livros e muitas sessões nas escolas”, revelou.

Nuno Caravela vive dos direitos de autor, admite que a remuneração “é bastante agradável”, e ao trabalho criativo acrescenta o intenso calendário em escolas e bibliotecas, com sessões em que a venda de livros pode chegar a 200 ou 300 exemplares.

Essa vertente de divulgação também é remunerada, mas Nuno Caravela prefere sublinhar a importância de contactar e conhecer os leitores, e até retirar daí inspiração para novas histórias.

Com esta coleção, o escritor também acredita que encontrou um objeto literário “que agradou muito aos miúdos, aos professores e aos pais” e cumpre o desafio lançado há uma década pela editora, de “por os miúdos a ler”.

“O que os miúdos no fundo querem é divertir-se. Não é por acaso que as cores são garridas, são fortíssimas. Os bonecos são muito redondinhos, muito expressivos, com uma identidade muito marcada. (…) Queria que os miúdos pudessem usar na mochila na escola, [que fosse] uma produção não muito cara, se é para pôr os miúdos a ler”, disse.

Nuno Caravela também rejeita a ideia de que as crianças e os jovens não gostam de ler e culpa o mercado editorial.

“Muitas vezes há livros infantis que eu sinto que não vão muito ao encontro dos miúdos. Não sei se a linguagem será a mais adequada, se não será demasiado poética, se as próprias ilustrações, muito bonitas, sim senhor, não serão demasiado estilizadas. Eu, pessoalmente, gosto, mas na faixa etária, dos 7 aos 12, quando começam a ler a sério, se aqueles livros serão mesmo… não sei, pronto”, questionou.

No volume “Garras e Dentes”, editado esta semana, o autor recorre às características intrínsecas do livro enquanto objeto, para abordar o tema da imaginação e daquilo que está para lá “da superfície das páginas”.

“Num jogo andamos sempre a correr atrás de qualquer coisa, não temos de imaginar nada; num filme também está tudo fantástico, só temos de apreciar, não temos de imaginar nada. Mas um livro não tem som nem movimento, tem de haver um jogo de imaginação”, defendeu.

Nuno Caravela trabalhou em agências de publicidade, publicou em projetos com escolas, mas o momento principal do percurso profissional é esta coleção e cujo sucesso possivelmente até o ultrapassa.

“Quando um livro funciona é quando os miúdos se esquecem que sou eu a escrever o livro, e começam a falar dos personagens como se eles existissem. Isso é muito difícil. Quanto mais se esquecerem de mim melhor”, disse.

Quando questionado se aceitaria abordar explicitamente assuntos como racismo e diversidade de género, respondeu que “no bando nunca entra nada polémico”.

“Para mim o bando é uma espécie de mundo perfeito, ou mundo ideal para os miúdos. A mim só me interessa falar aos miúdos de assuntos que eu sei que os miúdos se interessam genuinamente”, afirmou.

E deu um exemplo: “A religião. Uma criança de sete, oito, nove anos não lhe interessa religião num livro de aventuras. Não lhes interessa questões de género num livro e aventuras. Haverá livros que explicam, haverá pessoas, dentro de várias áreas, muito mais avalizadas do que eu para falar sobre isso. O bando é aquele mundo ‘quem me dera estar sempre aqui’, por isso é que há miúdos que leem e releem. O bando é o refugio da confusão”.

O patamar de um milhão de livros vendidos vai ser assinalado este mês em Oeiras, com um evento de 19 a 21 de outubro, no Tagus Park, nas bibliotecas de Carnaxide, Algés e Oeiras e no mercado municipal, com a presença de Nuno Caravela em sessões para 800 alunos do município.

Este evento insere-se na iniciativa “Um livro, uma comunidade”, da autarquia de Oeiras, através da qual serão distribuídos 1.000 exemplares de um dos livros da coleção, sendo 800 para escolas e 200 para os leitores inscritos nas bibliotecas municipais.

*** Sílvia Borges da Silva, da agência Lusa ***

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