Os jovens e a política: uma crise geracional – a realidade comparada entre Portugal e Hungria

por Tiago Hipólito

Aviso: Este artigo reflecte uma visão pessoal e independente, acerca de uma realidade comparada da participação dos jovens na política e das inerentes relações dos diferentes “actorespolíticos” com este estrato social e é baseada, puramente em experiências e reflexões pessoais, não estando ligada ou vinculada por isso, a nenhum ideal político ou a qualquer âmbito puramente a/patriótico ou de crítica social.

A pandemia do Covid-19 veio, felizmente, trazer-me pessoalmente, um novo paradigma, que sempre me interessou descobrir, mas cujo âmbito nunca tive tamanha disponibilidade e capacidade para o compreender: a auto-reflexão, não só a pessoal, mas também, a social, aquela que me conecta com o mundo que me rodeia. E foi neste sentido, que neste período de confinamento, me interessei por perceber melhor a realidade política que me rodeia, não só do meu país de nascimento, mas também, do meu país de residência e compará-la com base nos seus vários protagonistas, políticos e não-políticos.

Desde os meus tempos de universidade que senti, que seria minha obrigação, de ter (e de dar) uma participação mais activa na sociedade e no mundo que me rodeava, foi por isso, com muita naturalidade, que me juntei a pessoas com o mesmo ideal e comecei a trilhar esse caminho do associativismo no meu então Curso de Administração Público-Privada. Foi a partir daí, que me comecei a aperceber que havia muitas coisas que “não batiam muito certo” com o ideal de associativismo que defendia: aquilo que encontrei numa academia tão reputada como aquela de Coimbra, foi um espelho, que mais tarde vim a descobrir, reflectia o que se passava nas altas esferas da política nacional portuguesa. Enumeremos os casos de “compadrio”, de eleições baseadas em votos obrigatórios e de amigos (o chamado “cacique”), de falta de verdade e transparência nos dinheiros utilizados, mas sobretudo, da extrema influência de partidos políticos nestas associações de “jovens”, que serviriam não mais como um “trampolim político” para a chamada “política real”. Foi um choque e uma revolta interna, ao mesmo tempo, por isso, a experiência foi curta, 6 meses, mas o suficiente para perceber que não era naquele mundo e daquela forma que eu queria ter uma intervenção na sociedade do meu país.

Ao chegar à Hungria em 2013 e sem a mínima noção da realidade política húngara, vi-me confrontado com um novo país e com a sua história de anos de guerra, sofrimento e divisões, algo que, a príncipio me pareceu irrelevante, dadas que eram as minhas pretensões de não ficar por Budapeste durante muito tempo. Aos poucos, e através de experiências profissionais e sociais, fui-me apercebendo que realmente existia aqui muita influência e condicionamento do pensamento político social que, até a um certo limite, entendi como “patriotismo puro”, uma vez mais, estava enganado nas minhas ideias. À medida que fui conversando com cidadãos e amigos húngaros, lendo artigos de jornal e vivenciando experiências sociais, entendi que a origem e a génese desta realidade política e social, era muito mais profunda. O verdadeiro choque ocorreu aquando de visitas e apresentações feitas em universidades húngaras, por intermédio de projectos profissionais, verifiquei, um inexplicável desinteresse, participação, espírito de análise, falta de interacção grupal, mas sobretudo falta de um espírito crítico em questionar, o que lhes estava sendo apresentado, poderia ser por estar a apresentar o conteúdo em Inglês, mas não, nessa altura um mentor elucidou-me sobre o fenómeno: na Hungria, os jovens universitários não são estimulados a pensar e a interagir em grupo, a ideia interiorizada é sempre a de “fazeres o teu curso por ti, arranjares emprego e constituires a tua família”, sem questionar o que se passa à tua volta. Fiquei perplexo ao ouvir isto, e as suas palavras ficaram ecoadas na minha cabeça e foram confirmadas, nos anos seguintes, em todas as apresentações que fui fazendo. Tudo isso era contrário àquilo que eu, enquanto estudante universitário, tinha vivido e experienciado e, nesse sentido, entendia perfeitamente o desinteresse (aliado aos escândalos políticos) dos jovens húngaros pela política. Tudo isto vem explicar também as recentes medidas políticas associadas com o ensino na Hungria: a proposta de retirada do ensino do Inglês do ensino primário, a “doutrinização” dos conteúdos a ensinar às crianças e jovens desde a escola primária, a desintegração de uma universidade com um pensamento político oposto ao do governo vigente e a constante ameaça à classe de professores que, de uma forma ou de outra, não “colaborem” com a doutrina implementada.

Toda esta contextualização serviu-me para recentemente reflectir, qual é o papel que queremos que os jovens tenham na política, e aí também me incluo (sim, considero-me ainda um jovem!). Queremos jovens ultra-formados e bem preparados criticamente, mas que se deixam influenciar por ambições e visões políticas que somente os fazem servir-se da política e não servi-la, dispostos às mais absolutas estratégias “vilanianas” para subir ao poder e acarretar influência política nos demais e para se enriquecer pessoalmente ou queremos jovens sem nenhum espírito crítico “manietados” por um governo, que lhes indica o que têm de pensar e que devem ser obedientes perante toda a doutrina social vigente? Queremos jovens que se limitam a sua participação política em comentários nas redes sociais ou queremos jovens que venham para as ruas protestar pelos seus direitos? Queremos jovens que queiram mudar o actual espectro político e social ou pretendemos jovens cada vez mais individualistas e desinteressados da vida política activa? O que é necessário para que a mentalidade dos jovens seja influenciada por medidas absolutamente populistas em anos anteriores a eleições?

A minha opinião e contributo: é uma questão de escolha pessoal, de cada um, de cada jovem. Nunca como hoje em dia, tivémos tanto acesso, a tantos meios tecnológicos (podcasts, videos, e-books, etc.), a tantos artigos de opinião, a tantos livros e a tanto jornalismo investigativo e a tantas formas de pensamento. Enquanto estudava nada disto me era facilitado, como acontece hoje, e se eu posso formar um pensamento crítico, porque é que os jovens de hoje em dia não podem? Vivemos para ser “obedientes” e sem opinião sobre o mundo que nos afecta, a nós, à nossa família, aos nossos amigos e ao nosso contexto social (português e húngaro)? Ou vivemos para contribuir que isto se torne melhor e que o possamos mudar? Vivemos para ser individualistas e pensar em nós mesmos e deixar a política para que “os outros resolvam e não é nada comigo”, ou para sermos cidadãos activos e participativos nas decisões políticas que podemos e devemos influenciar?

Porque ter pensamento critico e criticar não é a mesma coisa, urge que façamos uma reflexão interior sobre aquilo que ainda podemos mudar através das nossas acções e do nosso direito (adquirido pela luta!) de votar, para que nunca tenhamos que dizer “isto nunca vai mudar” ou “não há interesse em que isto mude”, porque a mudança como todos sabemos, começa connosco.

Quanto a mim, já deixei de “dar para este ultimo peditório” e não quero ser mais um dos que se conforma em não ter opinião sobre o que se passa à minha volta e “ficar de braços parados” à espera que tudo mude. Tanto cá (Hungria), como lá (em Portugal) há ventos de mudança que sopram e eu, quero ser mais um, dos que contribui para os abanar.

Budapeste, 18 de maio de 2021

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