Os Cabral em Budapeste, num romance português

por Pál Ferenc

Ernesto Rodrigues A Terceira Margem

Provavelmente no espírito do próximo 200º aniversário da independência do Brasil, é que o romance do escritor e historiador literário português Ernesto Rodrigues, publicado nesta última Primavera, traça as complexas relações entre os dois países de língua portuguesa através da vida de sete gerações de uma família Luso-Brasileira. A história de 266 anos começa em 1766, quando o antepassado remoto da família conhece e casa com Maria Cabral, uma descendente tardia de Pedro Álvares Cabral, descobridor do Brasil, e termina num futuro próximo, a 7 de Setembro de 2022, no dia do “Grito do Ipiranga”.

A narrativa, que abrange épocas e distâncias geográficas, começa em Lisboa em 1966, quando o sétimo Pedro Álvares Cabral relembra a história da sua família, depois salta no tempo para o Rio de Janeiro do século XIX, e ao princípio de tudo, à Torre de Dona Chama, antes de continuar com os saltos para o Porto, Paris, Londres e Budapeste. Assim, por detrás das aventuras do(s) protagonista(s) que leva(m) o nome de Pedro Álvares Cabral, encontram-se os lugares e motivos recorrentes de Ernesto Rodrigues, o autor do romance: Torre de Dona Chama, onde nasceu, que já é o título de um dos seus romances anteriores, ou Budapeste, onde trabalhou durante anos como leitor português. A memória da cidade nas margens do Danúbio não foi evocada apenas num livro de poemas escritos há um quarto de século, mas também na primeira parte do romance Um Passado Imprevisível, publicado em húngaro no ano passado. Budapeste também aparece pelo menos quatro vezes no livro, que os Pedro Álvares Cabral de diferentes gerações visitaram em 1889, 1919, 1986 e no início dos anos 2000. O autor do livro, que em tempos aqui trabalhou como leitor de língua portuguesa, também está envolvido na história, pois tem de ajudar a encontrar nos arquivos de Budapeste nos anos 1980 os vestígios do avô do último filho Cabral, que tinha estado aqui um século atrás e se tinha apaixonado por uma menina húngara, Erzsébet Bánffy (filha suposta da imperatriz Sissi) que depois viajou pelo mundo e deu à luz em Lisboa o pai do filho que procurava os seus vestígios. A única pista valiosa nesta busca foi um programa de um concerto de Mahler realizado a 20 de Novembro de 1889, que tinha sido encontrado num programa de concertos. As memórias deste pai (sexto Cabral na ordem genealógica), nascido de um caso de amor que floresceu no final do século XIX, deram ao escritor a oportunidade de escrever sobre a Hungria entre as duas Guerras Mundiais, mostrando a devastação da Segunda Guerra Mundial, e, depois, a da invasão soviética que acabou com a revolução de 1956, e o gradual melhoramento da situação, recordando 1986 como o último momento, quando o penúltimo Pedro Álvares Cabral, que tinha entrado em contacto com a realidade húngara, morreu e o autor, que se tinha incluído no romance, já não era leitor.

Mas não são apenas as cidades e épocas que aparecem no romance de Ernesto Rodrigues, mas também as referências intelectuais das quais um historiador literário não pode escapar, as figuras do Romantismo português, Garret, Herculano, ao brasileiro Machado de Assis, e por um breve momento a figura da infeliz Imperatriz Sissi, cuja filha secreta e ilegítima se apaixona pelo misterioso avô, o quinto rapaz Cabral, em Budapeste.

Trecho do romance:

„No dia 20 de Novembro de 1889, quarta‑feira, às sete e meia da noite, Pedro Álvares observava minucio­samente o público da sala de concertos do Vigadó, onde estreava, sob a batuta do compositor, a Sinfonia n.º 1 de Mahler, ou Mahler Gusztáv, como lia no programa. Reservara um lugar à sua direita; neste vazio, sentavam‑se Cherubini, Mozart, Bach, sem o calor que esperava, prometido horas antes, em noite fogosa de amor.

Ainda ecoavam raros aplausos, descia já ele a imponente escadaria tapetada de escarlate, encantado com o jovem de vinte e nove anos. Parou no átrio, atraído por conversa em francês sobre D. Pedro II, deposto cinco dias antes. A notícia corria as chancelarias e dizia‑se que o imperador se encami­nhava para a Europa.

Agitado, Pedro Álvares saiu, indiferente a exclamações que não compreendia, passeou um pouco, encostou‑se na esquina da Academia das Ciências e seguiu ao longo do rio, até ao Parlamento em construção. Em frente, lá no cimo, ilu­minada pela Lua, crescia a Igreja da Coroação.

O Danúbio vibrava, agreste; enxotou‑o para dentro, e foi dar à Basílica de Santo Estêvão, terceiro andamento incom­pleto, como ele se sentia. Imaginava, porém, a beleza que dessas pedras sairia, e assim perfeito gostaria de ser ele, cum­pridos alguns projectos. Mahler não estava mais seguro com a sua peça: os melómanos negaceavam.

Esta imagem de uma cidade em obra – «Em obra‑prima», pensou, que outras aguardava do desgrenhado compositor – adequava‑se ao seu crescimento. Como ali veio parar são con­tas de um rosário de dor, de que só ouvimos lampejos.“

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