Örkény István Contos de Um Minuto – Egyperces novellák – Traduzidos por Ernesto Rodrigues

por Pál Ferenc

GLI UNGHERESI

GLI UNGHERESI

 

– O gelado foi inventado por um pasteleiro de Catânia, que se chamava Ugo Riccardo Salvatore Giulo Girolamo B.

– Ainda se discute quando: não percamos tempo com isso; mas foi mais ou menos no tempo da invenção da imprensa.

– Ugo inventou não só o gelado, mas também o cone de baunilha e o carrinho indispensáveis. (Assim é que está bem. Não se pode imaginar que Irinyi tenha só inventado o fósforo e outra pessoa a caixa. Ou que Ehrlich só tenha inventado o Salvarsan e um outro a sífilis. Isso não é assim.) Aperfeiçoando a sua invenção, pôs-se a correr mundo fora.

– Percorreu a Lodoméria e a Bessarábia, o Tirol, a Borgonha, Brandeburgo e a Vendeia. Podemos imaginar, mas não descrever, como era recebido! Aonde chegasse com o seu carrinho, apinhavam-se velhos e novos, trazendo dinheiro na mão e água a crescer na boca, e esperavam, com o coração aos saltos, pelos gelados de framboesa, morango, chocolate, limão ou pistacho. Ugo lá dava o que cada um pedia e, para poupar uma prova supérflua aos compradores, também lhes mostrava que era só preciso lamber o gelado.

– Em toda a parte o recebiam com gritos de alegria, olhavam-no tristes quando partia, e ficavam em brasas até que ele voltasse. Ora, aconteceu uma vez ter ido ele parar à Hungria. (Em italiano: Ungheria.) Mas, aqui, o rei acabara de lançar um novo imposto de sal e ninguém, fosse novo ou velho, queria ouvir falar de outra coisa que não fosse do imposto de sal, facto que, já de si, feria a vaidade de Ugo. Triste, equipou o carrinho com uma sineta e, ardendo em grande zelo, apresentou os seus gelados aos que, muito a custo, junto a ele se apinharam. Mas os húngaros (em italiano: gli ungheresi) estiveram-se nas tintas. Não sentiam o calor do Verão, pelo que nem pensavam em refrescos, andando como andavam com a história do imposto de sal.

– Em vão tentou Ugo explicar que podiam, ao mesmo tempo, pensar no que quisessem, pois bastava lamber o gelado: disseram-lhe que agradeciam, mas que tinham sempre alguma coisa para lamber. Ugo, que uma tão grande indiferença ofendia mortalmente, respondeu que cada tipo de gelado tinha um sabor diferente.

– Eles, em contrapartida, disseram aqueles húngaros de cabeças duras, contentavam-se perfeitamente com lamber os cinco dedos, porque cada dedo dava um sabor particular. E, quando Ugo quis continuar a provar a sua verdade, atiraram-lhe cagalhões de cavalo, convencidos de que, nessa língua esquisita, gelati queria dizer: «Viva o imposto do sal!» O que não era para uma pessoa suportar calada.

– O pobre Ugo, torturado e cansado, ainda foi puxando o seu carrinho até ao condado de Zara, mas de lá foi preciso levá-lo, de barco, para a sua terra natal. No leito da morte, cercado pelos vendedores italianos de gelados, só conseguia dizer:

– – Gli ungheresigli ungheresi

 

ADEUS, PARIS!

PÁRIZS, ISTEN HOZZÁD!

A mala pesava, mas levei-a até à rue des Écoles. Aí, apanhei um táxi.

– À Gare de l’Est – disse ao chofer.

Ainda sobrava tempo. Seria mau esperar na estação.

– Estou de volta à pátria – disse ao chofer. – Vai um copo, para despedida?

– Só tenho meio estômago – disse o chofer.

– Mas um copo de branco não faz mal a ninguém.

– Conheço um sítio – disse o chofer.

Brindámos e bebemos de um trago. Mandou vir nova rodada. Enquanto esperávamos, perguntou:

– Para onde vai?

– O país?

– A favor ou contra os alemães?

– A favor dos alemães.

– Não é o melhor – disse.

– Isso não – disse eu.

O dono trouxe vinho.

– Os ministros é que deviam ser mandados para a frente – disse o chofer, após um curto momento de reflexão.

– Pois – disse eu. – Então, ponderavam melhor.

Pagámos e saímos. Nas escadas da Gare de l’Est, levou a mala.

Estendeu a mão.

– Fui dispensado por causa do estômago – disse.

– Que sorte – disse eu.

– Você não sofre de nada?

– Não.

– Não tem importância – animou. – Dentro de dois meses, batemos os alemães.

– Espero que sim.

– Talvez nos voltemos a ver, um dia v disse.

– Custa-me a acreditar – disse eu.

– Então, voltamos a beber um copo – disse.

– Acredito – disse eu.

– Adeus – disse.

 

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